Batedores do Mercado: Dana Galante

Desta vez trago-vos a historia sucinta de uma short seller que, mesmo sendo muito boa, não parece que tenha tido lá muito sucesso no longo prazo.

Os primeiros três artigos da série Batedores do Mercado foram:

Esta série pode ser encontrada no Borja on Stocks em Artigos –> Batedores do Mercado.

A série tem dois objetivos:

1º – Provar que é possível bater o mercado;

2º – Aprender algumas coisas com as histórias e estratégias dos gestores de fundos que bateram o mercado

A protagonista do artigo desta semana – que será curto – é a Dana Galante, que foi uma gestora de fundos especial.

Especial porque a sua estratégia era 100% short num portfolio diversificado de ações.

A Dana obteve um retorno médio anual de 15% entre 1994 e 1999, enquanto o seu benchmark, o índice Nasdaq, subiu à taxa média anual de 32%.

Mas então ela não tinha batido o mercado?

Tendo em conta que o fundo dela esteve sempre 100% short, o seu resultado foi fabuloso, pois as condições eram extremamente adversas. Aquele resultado é como se um fundo tivesse ganho 15% ao ano enquanto o mercado em geral tinha descido 32% ao ano.

Porque é que ela se virou para o short selling?

Após 14 anos na indústria trabalhando para gestores do lado longo, ela chegou à conclusão que a maioria era ignorante e preguiçosa. A Dana trabalhou num fundo (como trader) com um gestor que dizia que qualquer macaco conseguia fazer aquele trabalho. Que era só comprar o que estava a subir mais e depois vender mais alto.

Outro via uma ação a subir 5% e dizia “é melhor comprarmos esta antes que suba mais”, sem sequer saber o que é que a empresa fazia. A Dana obviamente tinha de seguir as instruções. No dia seguinte o tal gestor perguntava: “Dana, porque é que esta empresa está no portfolio? O que é que a empresa faz?”

É preciso ver que isto eram os go go nineties… em que praticamente tudo subia, muitas vezes bastando dizer “fizemos um website que já teve 1 milhão de page views“.

A Dana ganhou gosto por enfrentar os gestores de fundos “convencionais” e a multidão irracional.

Mas diversificava bastante, tendo normalmente cerca de 60 posições short no fundo, sendo que nenhuma podia pesar mais de 3% no total.

Qual é que foi o seu melhor momento?

Subitamente, em setembro/outubro de 1998, o Nasdaq caiu 25%, top to bottom…

…e o fundo da Dana valorizou 30% em menos de um mês. Isso nunca lhe tinha acontecido e ela cobriu 40% da sua exposição. Ela não gostou muito da experiência porque apreciava mais remar contra a maré, contrariando a multidão.

Qual foi o seu pior momento?

A certa altura a Dana estava short numa ação chamada Sanchez Computer Associates, com 2,5% do capital. A ação tinha fechado nos $32, porém, antes da abertura, lançou um press release dizendo que ia lançar um software para bancos online.

Nesse dia a ação abriu logo a subir $10 para $42 e acabou por fechar nos $80, subindo 150%. A Dana ficou em choque, pois essa posição perdedora subiu para 7% do portfolio. Quando houve uma correção ela foi fazendo buy to cover para reduzir a exposição, mesmo acreditando que nada tinha mudado e que ação estava muito sobreavaliada.

Meses mais tarde ela voltou a shortar a ação (após uma quebra técnica) e acabou por ganhar mais nesse novo short do que tinha perdido no antigo.

Como é que ela escolhia os targets para os shorts?

Era uma mistura de análise fundamental e análise técnica.

Em termos fundamentais ela procurava shortar ações que tinham uma grande hype junto do publico investidor, embora os fundamentais não suportassem esse otimismo. Procura ações com PERs muito elevados. Também verificava sempre o nível de receivables (contas a receber de clientes) e desconfiava bastante quando uma empresa mudava de CFO e ainda mais quando mudava de auditor. Também procurava empresas cujas receitas/procura estivessem a desacelerar.

Em termos técnicos a Dana nunca shortava ações que estivessem com fortes tendências de subida. Primeiro esperava por uma quebra técnica antes de iniciar as suas posições short, pois nunca se sabia até onde poderia ir a irracionalidade do mercado.

O que é que aconteceu à Dana Galante no pós 1999?

Não consegui encontrar informação fidedigna, mas uma coisa parece-me certa, ela já não é gestora de fundos.

No final de 1999 e início do ano 2000 a bolha no Nasdaq foi tão intensa que se calhar a Dana já não estava lá quando começou o bear market de 2000 – 2002, quando o Nasdaq 100 caiu 83%:

Há alguns relatos que dizem que a Dana depois se dedicou ao mercado imobiliário, mas da pesquisa que fiz não tenho a certeza de que se trate da mesma Dana Galante que é entrevistada no livro Stock Market Wizards.

Moral da História: no longo prazo o short selling não é uma boa estratégia de investimento.

César Borja

Licenciado em Economia pelo ISEG e investidor particular em ações desde 1998. Analista Financeiro registado na CMVM. Concluiu a Pós-Graduação em Análise Financeira no ISEG, tendo obtido a certificação CEFA. Também passou no exame CFA Level I.

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