Batedores do Mercado: Steve Watson

1. Introdução

O objetivo da série de artigos sobre os Batedores do Mercado é demostrar que é possível alcançar um retorno médio anual superior ao dos índices.

Os artigos são baseados no livro Stock Market Wizards que contém entrevistas a 15 investidores/gestores de fundos que bateram o mercado durante um período considerável de tempo.

Aqui estão os dois primeiros artigos da série:

Esta série tem três problemas principais:

– O livro é antigo e as entrevistas foram conduzidas nos anos de 1999 e 2000. Nem sempre é possível descobrir o que aconteceu a estes gestores acima da média desde o ano 2000 até à atualidade;

– O track record dos gestores foi construído numa época em que o mercado em geral, medido pelo índice S&P 500, subiu muito acima da sua média histórica. Entre o final de 1989 e o final de 1999 o S&P 500 subiu à taxa média anual de 16,1%. A sua média histórica, desde 1928 até 2023, foi 5,7%;

– Algumas das estratégias utilizadas pelos gestores de fundos não são replicáveis pelos investidores particulares.

De qualquer modo penso que é possível extrair informações e experiências valiosas destas entrevistas e destes artigos. Além disso comprometi-me a escrever 15 artigos nesta série, pelo que tenho a obrigação de cumprir.

O artigo de hoje é sobre o Steve Watson.

2. As primeiras experiências relacionadas com o mercado

A família do Steve Watson nunca comprou ações, nunca investiu em fundos e nunca leu o Wall Street Journal.

O Steve só soube que o mercado de ações existia quando já estava a tirar uma Licenciatura na Universidade do Arkansas. Nessa Licenciatura havia uma cadeira sobre Investimentos cujo trabalho de grupo tinha a ver com analisar e escrever um relatório sobre uma ação.

Olhem, parece o que temos feito no Curso de Ações, ainda que nesse caso o trabalho seja individual.

Ao grupo do Steve calhou analisar uma empresa local de produção e distribuição de eletricidade. O Steve e os seus colegas do trabalho de grupo aplicaram o que tinham aprendido na cadeira de Investimentos àquela ação específica e consideraram que a ação seria um mau investimento. Escreveram um relatório completo a demonstrar isso mesmo.

Porém, um dia antes de apresentarem o trabalho ao professor, um dos colegas foi a uma corretora e apanhou um relatório de research sobre aquela empresa. O relatório de research, que tinha sido elaborado por profissionais certamente experientes, dizia e justificava que a empresa seria um ótimo investimento e tinha uma recomendação de BUY.

Então o Steve e os colegas decidiram alterar completamente o seu relatório e quando foram apresentá-lo defenderam que a empresa seria um excelente investimento, embora, no seu íntimo, não acreditassem realmente nisso.

O professor ficou irritadíssimo! “Então vocês não aprenderam nada?! Esta empresa é terrível!”

Aprenderam algo valioso: que em muitos casos não se deve acreditar nos relatórios de research, porque podem ter sido produzidos com alguns conflitos de interesse. Além disso toda a gente se engana, especialmente quando o trabalho tem a ver com prever o futuro de uma empresa específica.

Mas o Steve adorou a experiência e decidiu ali mesmo que iria trabalhar toda a sua vida na área do research e investimento em ações.

3. O ídolo Peter Lynch

A primeira edição do livro One Up on Wall Street foi publicada em fevereiro de 1990.

O Steve adorou o livro ao ponto de o ler dez vezes seguidas. Este também é um dos meus livros preferidos, mas julgo que ainda só o li umas 5 vezes.

O One Up on Wall Street foi um bestseller brutal e, talvez também por causa disso, pouco depois do seu lançamento o Peter Lynch reformou-se da profissão de gestor de fundos.

Isto depois de ter gerido, durante treze anos consecutivos, aquele que se tornou, na altura, o maior fundo de ações, o Magellan Fund da Fidelity. Durante esses treze anos (1977 até 1990) o Peter Lynch obteve um retorno médio anual de 29,2%, o que compara com os 9% do S&P 500 no mesmo período.

Que o Peter Lynch tinha batido o mercado por uma larga margem já todos sabíamos. Nesta série estamos à procura de outros gestores de fundos que tenham feito o mesmo (ou melhor), para percebermos que não foram apenas alguns, mas bastantes, e que com muito trabalho e dedicação também continuará a ser possível para nós no Borja on Stocks.

O sonho do Steve Watson era trabalhar na Fidelity, gerir o Magellan Fund e ser o próximo Peter Lynch. Foi lá a muitas entrevistas de emprego e numa ocasião, após passar várias fases, chegou à entrevista com o gestor que tinha substituído o Peter Lynch, que se chamava Jeff Vinik.

Nessa entrevista o Jeff colocou apenas duas questões ao Steve, a primeira foi sobre qual era a taxa de juro na 10-Year Bond? O Steve era um tipo das ações e, tal como aprendera no One Up on Wall Street, não queria saber do nível das taxas de juro, por isso não sabia a quanto é que estava a 10-Year Bond. A segunda pergunta foi: “tu tens 29 anos. Porque é que demoraste tanto tempo a chegar aqui?” A entrevista demorou menos de 5 minutos e o Steve obviamente não foi selecionado.

Trabalhou no departamento de research de um hedge fund relativamente desconhecido (Friess Associates), em que o gestor aceitava praticamente todas as ideias do Steve. Porém esse gestor depois saiu e foi substituído por outro que discordava do Steve em quase tudo. Este gestor acreditava que devia comprar momentum stocks de múltiplos elevados, pois esses preços altos demonstravam que o público gostava daquela ação. O conflito estratégico chegou a um ponto em que o Steve se demitiu para se lançar com o seu próprio hedge fund.

O problema é que ele só tinha $20 K.

Mas conseguiu angariar $700 K de investidores e lançou-se num cubículo do escritório de um amigo que lhe deixava usar o seu terminal Bloomberg.

O fundo do Steve Watson depois cresceu até ter centenas de milhões de dólares em Assets Under Management (AUM), embora no Stock Market Wizards não esteja especificado exatamente quanto nem qual foi o track record.

4. A Estratégia

Muito por causa da influência do livro One Up on Wall Street o Steve só tinha apetência para analisar e investir em small caps.

Ele tinha dois fundos, um para micro caps até $350 M de valor de mercado e outro para small caps entre $350 M e $1,5 B. Acima disso ele considerava que já não era a sua especialidade.

Isto também porque a sua estratégia – que incutia na sua equipa de analistas – passava por telefonar e falar com muita gente, desde os gestores da empresa (para um fundo da sua dimensão só era possível nas small caps), os fornecedores, os distribuidores, os clientes, etc, de forma a obter pistas acerca do futuro a curto/médio prazo para os resultados de determinada empresa.

O Steve apreciava ações subavaliadas, tipicamente com um PER entre os 8 e os 12, mas depois esperava por um catalisador que as fizesse valorizar. Quando elas chegavam a PERs na casa dos 20 ele costumava vender as posições e por causa disso houve muitas ações que ele vendeu e que depois continuaram o seu caminho ascendente.

Ou seja, o Steve não tinha aquela “obsessão” do Peter Lynch por Tenbaggers e contentava-se com ganhos relativamente pequenos. Digamos que qualquer coisa em torno de 100% já era muito bom. Também assumia perdas pequenas, na casa dos 20 a 30%.

O Steve tinha sempre mais de 100 posições em cada fundo, sendo que cada uma não podia exceder os 3% do total do fundo. Era desta forma, da diversificação, que controlava o risco.

Noutra coisa que o Steve era diferente do Peter Lynch era que, também para controlar o risco, ele tinha muitas posições short, estando frequentemente neutro no mercado. Cada posição short nunca deveria pesar mais de 1,5% do fundo. Quando ele estava short numa ação que considerava sobreavaliada e cujos fundamentais perspetivava que se iriam deteriorar, mas mesmo assim a ação subia, ele aplicava um stop e saía a perder 20 ou 30%. Isto porque ele já tinha visto muitas ações que não valiam nada subirem 500% ou mais antes de sucumbirem. Estas situações aconteciam porque os gestores das small caps procuram sempre puxar pelos investidores (através de press releases bem metidos), porque as empresas eram pequenas e ilíquidas e porque alguns gestores de fundos, ao verem uma grande percentagem de ações shortadas, provocavam short squezes, comprando ações e exigindo os certificados de posse, de forma a que não mais pudessem ser emprestadas.

As ações que o Steve gostava mais de shortar eram as de empresas que tinham apenas um produto – one trick poneys – que depois, através dos seus contatos, ele via que não estavam a corresponder às expetativas. Por exemplo, uma empresa vendia uma pasta de dentes que dizia que tornava os dentes mais brancos. Mas o Steve deu a pasta de dentes a 15 pessoas para experimentarem e só 1 disse que gostava dela. Noutro exemplo uma empresa de higiene feminina dizia que tinha inventado uns pensos higiénicos muito superiores aos que estavam no mercado, os analistas tinham projeções de vendas e lucros ótimos e a empresa valia mais de $100 M no mercado. Porém o Steve conseguiu comprar, junto do fornecedor, caixas daqueles pensos higiénicos e deu a 5 mulheres para experimentarem e todas disseram que o produto era pior do que os que já existiam no mercado.

Estes foram shorts óbvios.

5. Resultados

À altura da entrevista – março de 2000, mesmo no pico do mercado de ações da altura – o track record do Steve Watson era curto, apenas 4 anos e meio.

Não há uma referência exata relativamente aos resultados, apenas é dito que o drawdown mensal máximo foi de 4% e que esse valor era próximo do retorno mensal médio, o que daria 60% ao ano.

Penso que o Steve Watson terá alcançado uma volatilidade tão baixa no seu fundo de ações primeiro porque estava muito diversificado, sempre com mais de 100 posições e nunca deixando que uma única pesasse mais de 3% no total. Desta forma diminuía consideravelmente o risco específico.

Segundo porque estava muitas vezes tão short como longo, o que significava que também diminuía muito, ao ponto de quase eliminar, o risco de mercado.

No fundo o Steve Watson era um arbitragista das small caps, comprando ações subavaliadas e shortando ações sobreavaliadas.

A sua estratégia – a de telefonar a toda a gente em busca de informações – foi facilitada por uma lição que o seu pai lhe transmitiu quando ele era criança.

O Steve disse que o seu pai era, essencialmente, a pessoa mais simpática que existia na terra. Que tratava toda a gente com muita gentileza.

O pai do Steve disse-lhe: “trata cada pessoa que encontrares como se fosse o teu melhor amigo”.

Por ter desenvolvido esta prática desde criança o Steve tinha um jeito tremendo para lidar com as pessoas, muitas vezes conseguindo que lhe transmitissem informações valiosas.

6. O que aconteceu desde a entrevista no ano 2000 até agora?

Sinceramente não consegui descobrir.

Neste caso o problema é que “Steve Watson” é um nome demasiado comum e existem vários Steve Watsons que são gestores de fundos, mas do que li das suas estratégias, nenhum deles é este Steve Watson do livro Stock Market Wizards.

Apenas consegui encontrar uma referência num blog que diz que, nos anos a seguir a 2000, o “nosso” Steve Watson teve resultados semelhantes à média.

Penso que aquela estratégia de ligar às pessoas a solicitar informações atualmente será muito mais difícil, porque as empresas assinam acordos de confidencialidade com os seus fornecedores, com os distribuidores e por vezes, se forem grandes, até com os próprios clientes.

Acho que no longo prazo a estratégia do ídolo do Steve Watson, o Peter Lynch, fará mais sentido para quem almeja bater o mercado.

O Steve Watson cortava os lucros, enquanto que o Peter Lynch deixava-os correr até que várias das suas posições se tornassem multibaggers. O Steve Watson shortava ações, uma atividade que tem um potencial de lucro limitado e um risco ilimitado, para diminuir a volatilidade. O Peter Lynch não shortava ações e aceitava naturalmente uma volatilidade acima da média.

Penso que o Steve Watson estava certo na ótica do gestor de fundos – porque a volatilidade afasta os clientes – e eu também faria bem em diminuí-la no Borja on Stocks, se o meu objetivo fosse manter os Subscritores seguros e satisfeitos.

Mas não é esse o meu objetivo.

O meu objetivo é bater o mercado por uma larga margem.

Mesmo que daqui por trinta anos esteja a escrever para uma audiência de um.

Eu próprio.

Quero dizer, Catarina, ai de ti se não me leres, dou-te com a bengala 😁

Hmm, hoje em dia dizer que se vai dar uma bengalada numa mulher já será suscetível de ferir suscetibilidades, imagino daqui por 30 anos. OK, tiro-te o telemóvel. Espera, daqui por 30 anos o telemóvel já deverá estar num chip dentro do corpo.

Bom, provavelmente não haverá consequências para ninguém se for só eu a ler as minhas análises/artigos.

Se leu este artigo (viva!) não se vá embora antes de…

…lhe desejar um Feliz Natal! 🎄🎅🎄🎅🎄🎅

<a href="https://www.linkedin.com/in/cesar-borja/" target="_blank" rel="noopener">César Borja</a>

Licenciado em Economia pelo ISEG e investidor particular em ações desde 1998.
Concluiu a Pós-Graduação em Análise Financeira no ISEG, tendo obtido a certificação CEFA. Também passou no exame CFA Level I.  

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