Neste artigo irei partilhar três informações que muitos investidores, porventura, desconhecem.
Vou partilhá-las porque me têm sido úteis nas minhas seleções de ações.
Estas informações poderão ser úteis para si também, possivelmente ainda não para lucrar, mas pelo menos para compreender melhor certas situações e não ser influenciado de forma tendenciosa.
1ª Informação: como é que as corretoras de comissão zero ganham dinheiro?
Existem certas corretoras que oferecem aos seus clientes a possibilidade de comprarem ações não pagando comissões de intermediação (XTB, Trading 212, etc) ou pagando apenas uma comissão simbólica de 1 € (Trade Republic).
Se os clientes não pagam comissões, como é que estas corretoras ganham dinheiro?
Cada uma tem as suas especificidades que poderá conhecer nos links acima, mas o princípio geral é a venda do order flow às firmas de market making, como por exemplo a Flow Traders, a Virtu Financial e a Citadel.
Eu sei porque sou acionista da Flow Traders e da Virtu Financial que são cotadas, respetivamente, na Euronext Amsterdam e no Nasdaq.
Estas firmas ganham dinheiro todos os dias nos mercados. Nunca perdem.
Como é que nunca perdem?
Têm servidores junto às bolsas e executam arbitragem em milissegundos.
A ver se consigo explicar bem… quando recebem o order flow das corretoras acima (e muitas outras, incluindo as que cobram comissões) sacam uns pozinhos de cada transação, sem alocar capital e sem risco.
Por exemplo, imagine que lança uma ordem de compra da ação XYZ na Trading 212. A sua compra foi executada, imaginemos, a $12,24. Provavelmente o market maker comprou as ações por exemplo a $12,22 e vendeu-as simultaneamente a si a $12,24. Depois uma parte do lucro, imagine $0,01 por ação fica para o market maker e os outros $0,01 por ação entrega-os à Trading 212.
Fazendo isto milhões de vezes por dia compreende-se os lucros destas firmas e das corretoras de comissão zero.
Pode pensar que isto tudo é uma grande injustiça e que deveria comprar as ações da XYZ a $12,22, certo?
Bem, o que as firmas de market making alegam é que, mesmo com esta prática, na grande maioria dos casos, estarão a poupar dinheiro aos investidores finais, porque estão a aumentar a liquidez e porque, neste caso, permitiram que o investidor comprasse as ações sem pagar comissões de intermediação.
Terá sido a atividade destas firmas de market making e high frequency trading que permitiu a descida das comissões de intermediação e, nos últimos anos, o aparecimento destas corretoras de comissão zero, que no fundo democratizaram o mercado, atraindo muitos micro investidores.
Dantes, quando a comissão mínima era por exemplo 5 €, não era viável comprar apenas 100 € de ações, pois perdiam-se logo 5% na compra e possivelmente mais 5% na venda. E agora já é viável!
Mas já reparou que estas corretoras de comissão zero só dão acesso às ações mais líquidas, às large caps? Porque será?
A razão é porque é nessas ações mais líquidas que os market makers conseguem fazer a tal arbitragem mais facilmente. As firmas de market making não pagam pelo order flow em small caps por isso as corretoras de comissão zero não oferecem essa possibilidade aos seus clientes.
Como é que se pode lucrar com esta informação?
Bem, o que eu tenho feito é investir em ações da Flow Traders e da Virtu Financial, que têm pago dividendos e/ou comprado ações próprias e são boas alternativas de diversificação, por lucrarem ainda mais quando os mercados financeiros ficam voláteis… quando os mercados descem e o volume e a volatilidade aumentam os bid/ask spreads (a diferença entre a compra e a venda dos ativos financeiros) alarga-se e as oportunidades de arbitragem são mais lucrativas.
2ª informação: como é que os bancos de investimento ganham dinheiro?
Ganham de muitas formas mas neste caso interessam-nos os ganhos no trading no mercado de ações.
Por exemplo, o maior banco de investimento do mundo, a Goldman Sachs (valor de mercado de $211 Billion), ganha todos os dias no mercado.
Ganha para quem? Para os seus clientes?
Não, para os seus acionistas!

Em 2024 a Goldman lucrou $13.525 milhões e em 2025 as estimativas apontam para um lucro de $14.886 milhões.
E naturalmente as ações vão valorizando:

E quem é que lhes paga?
Como em qualquer empresa, quem paga são os clientes!
Estes grandes bancos de investimento têm como clientes os indivíduos (e empresas) mais abastados. Naturalmente estes clientes ganharam os seus milhões (e centenas de milhões e milhares de milhões) nas suas atividades específicas e muitos não percebem lá assim muito de bolsa.
O banco precisa de transferir o dinheiro das contas dos clientes para as suas próprias contas e faz isso recorrentemente de uma série de formas.
Uma delas é lançar para os clientes (e depois para o público em geral) notas de research depreciativas para uma ação específica que o banco está interessado em comprar a preços de saldo!
Mais tarde, possivelmente muito mais tarde, já depois da ação ter subido bastante e o banco quiser vender, faz o processo inverso, ou seja, lança para o mercado notas de research otimistas para aquela ação para os clientes e o público em geral comprarem, enquanto o banco e/ou os fundos do banco vendem!
Já vi este “filme” uma série de vezes.
E desta forma vão lucrando e simultaneamente vão convencendo os clientes a, em vez de investirem por si próprios pagando comissões de intermediação, entregarem a gestão ao banco que dessa forma cobra antes comissões de gestão e de incentivo, que são bem mais gordas e apetecíveis.
Resumindo, quando a Goldman Sachs “manda” vender, os seus clientes e de seguida o público em geral vão vender também! Afinal, se a Goldman Sachs é a maior do mundo, é porque deve perceber muito de mercados, certo?
Sem dúvida que percebem muito de mercados. Mas usam esse conhecimento para o seu próprio benefício, não é para o benefício do público investidor em geral… aliás, este público é a fonte dos lucros da Goldman Sachs e dos outros bancos de investimento.
Quer um exemplo prático?
No dia 31 de julho de 2024 dei início ao TOP Progressivo e a minha missão era, das 60 ações recomendadas no Borja on Stocks, escolher aquela que, naquele dia específico, me parecia mais atrativa para comprar.
Como é evidente existiam muitas alternativas viáveis… mas quando vi a Goldman Sachs a recomendar a VENDA de ações da Euronext…

…optei por essa!
E como é que correu?
Está a correr lindamente…

…agora só preciso de ficar atento para quando a Goldman Sachs vier fazer uma recomendação de BUY ou mais perigoso ainda STRONG BUY, pois nesse caso deverá haver uma correção mais expressiva.
De qualquer modo este é apenas um fator a ter em conta, dentro de um quadro completo que será necessário.
3ª informação: estimativas “marteladas”
É mais ou menos pacífico que nem sempre a gestão das empresas terá os seus interesses alinhados com os dos acionistas.
Ou, colocando mais uma camada de complexidade, não é líquido que a gestão sirva os seus acionistas de forma igualitária.
O que é que eu quero dizer com isto?
Por exemplo, se uma Família tiver 60% do capital e os restantes 40% estiverem dispersos no mercado, quem é que efetivamente manda na gestão? Naturalmente quem manda é a família que detém os 60% do capital, cujos interesses podem ser diferentes dos interesses dos acionistas minoritários. Por exemplo a Família pode querer dividendos e os minoritários poderiam querer mais investimento e crescimento para a cotação subir!
Também pode acontecer a estrutura acionista ser composta por investidores institucionais (fundos de investimento) que têm acesso privilegiado à gestão.
Seja por que motivo for, por vezes a gestão tem interesse em “martelar” as estimativas dos resultados do trimestre seguinte, para depois surpreender pela positiva e por larga margem!
O facto das estimativas dos analistas terem sido consistentemente diminuídas para os resultados trimestrais da Digital Turbine (ao ponto de serem ridículas e completamente desfasadas do padrão sazonal da empresa) deu-me confiança para escolher essa ação como 7ª pick do TOP Progressivo.
E quando a Digital Turbine divulgou resultados “surpreendeu” muitíssimo pela positiva e deu um salto de 96% nessa sessão…

…tendo depois chegado a subir 170% em apenas 6 sessões e estando agora a corrigir/consolidar.
Qual é a lição que recebeu aqui?
Que por vezes a gestão lança informações para os analistas de serviço cortarem as estimativas apenas com o objetivo de mais tarde surpreender pela positiva e causar um grande impacto na cotação!
Por isso da próxima vez em que vir as estimativas a serem cortadas, especialmente se segundo a sua própria análise isso não fizer sentido, em vez de ficar com medo da potencial notícia negativa, fique antes entusiasmado com a potencial surpresa positiva!
Conclusão
Considero que estas informações são high level e poderão não ser “bem recebidas” por certos agentes do mercado financeiro muito mais poderosos do que eu, por isso não sei durante quanto tempo irão estar disponíveis.
Se calhar deixo-o com uma mensagem que o meu tio Frederico, também conhecido pelo “muitos anos”, me costuma dizer:
“Aprende que eu não duro sempre”
César Borja
