Compreender o PER

PER significa Price to Earnings Ratio. 

Este pequeno texto pretende auxiliar os mais iniciados na Análise Fundamental de ações individuais a compreender o PER.

Desta vez vou explicar o Price to Earnings Ratio através de duas óticas:

1º – PER: na ótica dos grandes investidores

Quando refiro “grandes investidores” estou a falar daqueles que compram empresas por inteiro, tipo Warren Buffett e grandes empresas que fazem aquisições. Estes grandes investidores olham para o PER da seguinte forma:

PER = Valor de Mercado / Lucro Anual

Valor de Mercado é sinónimo de Capitalização Bolsista, ou Market Cap, ou Equity Value e calcula-se assim:

Valor de Mercado = Cotação*Nº de Ações

Portanto, a cotação de uma ação, a multiplicar pelo n.º de ações emitidas pela empresa, dá o Valor de Mercado total da empresa, ou seja, quanto é que a empresa vale como um todo.

Se dividirmos o Valor de Mercado da empresa pelo Lucro que ela obtém num ano, obtemos o PER.

Agora, vamos imaginar que eu sou um bilionário (ou que sou gestor de um fundo bilionário) e que há uma empresa XPTO cotada em Bolsa que me interessa adquirir na totalidade. A empresa está com um Valor de Mercado de 150 M€ e eu acho que se fizer uma OPA por 200 M€ a conseguirei adquirir. Este é um bom preço porque a XPTO está a lucrar 25 M€/ano.

Se eu comprar a XPTO por 200 M€ e ela continuar a lucrar 25 M€ por ano, em oito anos recupero o meu investimento e depois disso vou ficar a ganhar 25 M€/ano.

O Price to Earnings Ratio mede isso, o n.º de anos a recuperar o investimento, caso o Lucro se mantenha constante.

PER XPTO = 200 M€ / 25 M€ = 8

Como é óbvio, se tudo se mantiver constante, quanto menor o PER, melhor, pois menos anos demorará a recuperar o investimento.

O “problema”, ou melhor a realidade, é que nenhuma daquelas variáveis se mantém constante: o Valor de Mercado muda de cada vez que a cotação se altera (ou quando há uma mudança no nº de ações emitidas) e o Lucro anual também pode subir ou descer.

Uma empresa pode ter um Price to Earnings Ratio  de 20, mas se o Lucro aumentar muito nos próximos anos até poderá estar subavaliada. Por exemplo, se o Lucro duplicar e a cotação se mantiver constante, o PER desce dos 20 para os 10, ou seja, o nº de anos para recuperar o investimento cai para metade. O valor da propriedade dessa empresa, representada pelos títulos (as ações), naturalmente sobe.

Inversamente, uma empresa com um PER de 5 poderá na verdade estar sobre-avaliada, se o Lucro cair muito nos anos seguintes, ou se a empresa passar a dar Prejuízo. Nesse caso estaríamos perante a “armadilha do PER baixo”, que acontece quando os investidores compram uma ação porque o Price to Earnings Ratio é baixo, logo atrativo, mas a seguir a empresa passa a dar Prejuízo e nesse caso fica sem PER. Quantos anos demora a recuperar o investimento numa empresa que só dá Prejuízo? Nunca se recupera.

Depois há uma série de PERs:

  • O PER ttm, que é o PER trailing twelve months, que é calculado tendo em conta o Lucro dos últimos 12 meses reportados;
  • O PER 2017 (por exemplo), que é o PER calculado tendo em conta o Lucro obtido em 2017;
  • O PER previsional, que tem a ver com a estimativa de um Lucro no futuro. Por exemplo o PER 2020 é o PER calculado tendo em conta o Valor de Mercado atual e a estimativa média dos analistas para o Lucro da empresa em 2020;
  • O PER de Shiller, ou CAPE (Cyclically Adjusted Price Earnings), que é o PER calculado considerando o Lucro médio dos últimos dez anos

Outra medida útil para os investidores é o inverso do Price to Earnings Ratio, o Earnings Yield, ou juro do Lucro, que se calcula da seguinte forma:

Earnings Yield = 1/PER = Lucro Anual / Valor de Mercado

Se uma empresa lucrar 150 M€/ano e o seu Valor de Mercado for de 1 000 M€, o seu earnings yield é 15%.

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2º – PER: na ótica dos pequenos investidores

Pequenos investidores somos nós, que compramos algumas centenas ou milhares de ações e não temos capacidade nem o objetivo de comprar as empresas por inteiro. Podemos calcular o PER da mesma forma que os grandes investidores, mas temos uma fórmula alternativa, que é equivalente à outra:

PER = Cotação / EPS, sendo que EPS significa Earnings Per Share. Em português será qualquer coisa como:

PER = Cotação / Lucro por Ação

Quando compramos umas ações, somos os donos da parte da empresa que essas ações conferem. A empresa é nossa, na medida da nossa posição. Se comprarmos 200 mil ações numa empresa com 10 milhões de ações emitidas, somos donos de 2% da empresa. Seja qual for a nossa posição, somos donos de uma parte da empresa e quando a nossa empresa lucra, uma parte desse lucro é nosso, que é o Lucro por Ação. Se tivermos 1 000 ações e a empresa lucrar 0,5 € por ação, nós lucramos 500 €.

Agora, se o dinheiro que a empresa lucra fica na conta bancária da empresa (que é nossa), ou é distribuído pelos acionistas sob a forma de dividendos, essa é outra história, irrelevante aqui para o PER.

Portanto, se eu comprar 500 ações da empresa XYZ a 3 € cada uma e esta empresa tiver um Lucro por Ação de 0,1 €, quanto é o Price to Earnings Ratio?

PER = 3 € / 0,1 € = 30

Isto significa que, se o Lucro se mantiver constante, irei demorar 30 anos a recuperar o investimento. Mas, já se sabe que o Lucro nunca fica constante, vai variando … e também já se sabe que a qualquer momento posso vender as ações e recuperar imediatamente o investimento, o Price to Earnings Ratio serve principalmente como indicador da subavaliação ou sobre-avaliação de uma empresa.

Algumas ideias gerais:

  • Se o Lucro ou Lucro por Ação se mantiver constante, quanto mais baixo o Price to Earnings Ratio, melhor;
  • Em termos muito gerais, um PER abaixo de 10 costuma ser considerado baixo e um PER acima de 20 costuma ser considerado elevado;
  • Tudo depende da evolução do Lucro por Ação, pois se este subir e a cotação se mantiver, o PER desce, ficando assim a ação mais atrativa;
  • Uma empresa pode ter um PER de 25 e na verdade estar subavaliada, se nos próximos anos o Lucro por Ação aumentar muito;
  • Diz-se que em equilíbrio o PER tem tendência a igualar a taxa média de crescimento do Lucro por Ação, por exemplo, uma empresa a crescer 20% ao ano terá tendência a ter um PER de 20;
  • Mais vale uma empresa com um PER de 20 que cresça 20% ao ano em termos de médio/longo prazo, que uma empresa com um PER de 10 que cresça somente 5% ao ano em termos de médio/longo prazo;
  • Uma empresa com um PER elevado, por exemplo acima de 40, está vulnerável. O Lucro até pode subir, mas não de forma a justificar a valorização elevada e a ação pode cair substancialmente. Cairá especialmente se não conseguir corresponder às expetativas;
  • O PER é uma medida da subavaliação ou sobre-avaliação das empresas;
  • O PER é uma medida das expetativas dos investidores: se a empresa tiver um PER baixo, é porque os investidores estão pessimistas. Se tiver um PER alto, é porque estão otimistas;
  • Uma empresa com um PER baixo pode surpreender pela positiva, pois as expetativas são baixas. Nesse caso a cotação poderá subir muito;
  • Uma empresa com um PER alto pode defraudar as expetativas, mesmo que apresente bons resultados e a ação pode cair 90%, apenas porque a sobre-avaliação é corrigida;
  • Uma combinação de PER baixo com crescimento elevado dá origem a multibaggers, ou seja, ações que sobem centenas ou mesmo milhares de %;
  • Por exemplo, uma empresa com um PER de 6, que depois começa a crescer os seus lucros a taxas de 25% ao ano, inevitavelmente será uma multibagger;
  • Por vezes uma empresa que está aparentemente sobre-avaliada, com um PER de 30, passa a subavaliada, porque o Lucro entretanto duplicou;
  • É útil comparar o PER atual com o PER que a ação teve em anos passados;
  • É útil comparar o Price to Earnings Ratio de uma empresa com o das suas concorrentes no mesmo setor.

Moral da História:

  • O Price to Earnings Ratio é um indicador bastante útil para a Análise Fundamental;
  • Os fundamentais são dinâmicos.

César Borja

This Post Has 7 Comments

  1. Bom comentário agora falta descobrir no nosso P.S.I. 20 empresas com P.E.R. baixo, boa liquides, bom histórico de resultados e tendência futura de lucros altos, enfim o mundo não é perfeito!!. César Torres

  2. Excelente, fiquei muito bem esclarecido. Principalmente em relação ao que me parece ser uma perspectiva de “avaliação rápida” que o PER fornece e que até pode, em alguns casos, corresponder à verdade em dados momentos.

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