Em que bolsa devo comprar as ações?

As ações devem ser compradas SEMPRE na listagem principal.

1. Introdução

Há uns anos praticamente ninguém colocava esta questão porque as corretoras direcionavam o cliente para a bolsa mais lógica e evidente que seria, naturalmente, a da listagem principal.

Para comprar ações de uma empresa portuguesa como por exemplo a NOS as corretoras direcionavam o cliente para as ações da NOS cotadas na Euronext Lisboa.

Prefere ver o vídeo?

1ª Informação: como é que as corretoras de comissão zero ganham dinheiro?

Para comprar ações de uma empresa espanhola, como por exemplo o Banco Santander, indicariam, como primeira opção, a Bolsas y Mercados Españoles (BME), também conhecida por Bolsa de Madrid. Isto apesar de, na altura, o Santander também ser transacionado noutras bolsas, como por exemplo a Euronext Lisboa e a New York Stock Exchange.

Finalmente, para comprar ações de uma empresa norte-americana listada no Nasdaq as corretoras apresentariam como primeira e quase sempre única opção, a ação cotada no Nasdaq.

Isto é o que faz sentido e seria inimaginável ser de outra forma.

Porém nos últimos anos surgiram várias corretoras novas como por exemplo a DEGIRO, a Trade Republic, e a Trading 212, que subverteram esta lógica.

Estas corretoras, por motivos que explicarei ao longo deste artigo, muitas vezes direcionam os seus clientes para bolsas alternativas logo como primeira opção.

E por vezes a única opção que dão é mesmo a compra nessa bolsa paralela, impossibilitando a opção mais lógica, que seria a da listagem principal.

Este tem sido um tema incomodativo que fui deixando passar porque qualquer investidor com alguma experiência e antiguidade sabe que deve comprar/vender sempre na listagem principal.

Porém nos últimos meses temos recebido, no Borja on Stocks, bastantes investidores que estão a dar os primeiros passos na bolsa e que por isso ficam algo confusos com esta questão das bolsas alternativas.

2. A gota de água

A gota de água que finalmente me motivou para escrever este texto foi quando o meu amigo Alexandre, atraído pelas comissões baixas, abriu uma conta na Trade Republic (apenas 1 € para comprar ações europeias e americanas).

E quando ele foi para comprar ações da “nossa” Navigator a Trade Republic indicou-lhe a bolsa… Lang & Schwartz.

???

Há algo de errado nisto, pelo que fui investigar a situação.

3. Porque é que as corretoras low cost fazem isto?

Essencialmente por dois motivos:

1º – Para pouparem nas taxas de bolsa

Por exemplo a Euronext cobra 0,53 € por transação nas suas bolsas. As corretoras low cost preferem direcionar os seus clientes para “bolsas” onde não tenham de pagar estas taxas.

2º – Para receberem mais dos market makers que facilitam a transação

Nas “bolsas” alternativas o bid/ask spread é mais dilatado pelo que o market maker consegue ganhar mais aí e dessa forma rebater mais para a corretora que lhe gerou o order flow.

Por exemplo a DEGIRO gosta muito de direcionar os seus clientes para a Tradegate e esse deverá ser um dos fatores que lhe permite arrecadar um valor médio por transação de 4,47 €…

…apesar das comissões de intermediação serem inferiores.

3. Os três problemas das “bolsas” alternativas

1º problema: menos liquidez

Vejamos por exemplo a liquidez da Navigator na Euronext Lisboa, onde este ano foram transacionadas 36.938.680 ações…

…e na Bolsa de Franfurt onde foram transacionadas… 2000 ações. Essencialmente foram 1000 ações no dia 24 de janeiro e outras 1000 ações no dia 12 de fevereiro.

Onde é acha que será melhor comprar? Na bolsa que tem mais liquidez, ou na bolsa que tem menos liquidez?

Obviamente o melhor para si será comprar na bolsa onde há mais liquidez.

Mas a sua corretora poderá preferir que compre noutra bolsa, pelos motivos referidos anteriormente.

Por exemplo, se quiser comprar ações da Tesla o melhor para si será comprá-las no Nasdaq, a listagem principal, onde na sexta-feira, dia 28 de fevereiro, foram transacionadas 115.697.000 ações:

Porém a sua corretora poderá direcioná-lo para comprar na Tradegate onde, na mesma sessão, foram transacionadas somente 125.361 ações.

A Tesla é uma das ações mais líquidas do mundo pelo que até na Tradegate tem um volume decente, mas se estivermos a falar de uma small cap norte-americana o mais provável é que esteja apenas o market maker a comprar/vender na Tradegate.

A Tradegate é uma empresa cotada na Alemanha com um valor de mercado de 2140 M€ e que é detida maioritariamente pela Deutsche Boerse.

Sabe quais é que são as ações que deve comprar em Frankfurt?

As ações de empresas alemãs (e só essas!) porque essas é que terão a sua listagem principal na Alemanha.

2º Bid/ask spread mais dilatado

O bid/ask spread é a diferença entre a compra e a venda, que será sempre um bocadinho superior nas listagens secundárias e alternativas relativamente à listagem principal.

Imagine que vai comprar ações da empresa norte-americana XPTO na Tradegate ou, salvo seja, na Lang & Schwartz. A corretora apresenta-lhe um preço de 10,14 € por ação. Se clicar para comprar a esse preço em nano-segundos o market maker compra as ações ao equivalente a 10,12 € na listagem principal e vende-as simultaneamente a si a 10,14 € na listagem secundária.

O que poupou nas comissões gastou em slippage, o market maker ganhou sem envolver capital e sem risco (arbitragem) e depois terá devolvido uns pozinhos à corretora que originou a ordem, que desta forma se financia.

Ou pensava que as corretoras tinham comissão zero porque adoravam os seus clientes e que não precisavam de ganhar dinheiro?

3º Castelos de areia

Em condições de mercado normais em princípio estes “esquemas” não são graves.

Mas estas bolsas alternativas só funcionam se os market makers estiverem lá para providenciar liquidez. Porque se não fossem eles o bid/ask spread, em muitas ações, seria 10% ou mais… e em situações de stress não estaria lá ninguém a comprar.

Tem a certeza que é nestes terrenos arenosos que quer construir o seu portfolio diversificado de ações? Que é suposto vir a ser um património muito líquido e valioso?

Sente-se confortável a comprar ações na “bolsa” Lang & Schwartz, uma pequena empresa cotada em Frankfurt com um valor de mercado de 212 M€?

Valerá a pena ir por este caminho para poupar uns euros em comissões?

Eu acho que não vale a pena!

4. Mas não faz sentido comprar em Frankfurt para ser em EUR e não haver risco cambial?

Não.

Se a empresa é norte-americana e a listagem principal é na NYSE ou Nasdaq, a ação cotada em USD e a taxa de câmbio irão sempre determinar o valor da ação em EUR.

Por exemplo, imagine que compra a ação norte-americana XYZ em EUR em Frankfurt. Depois a ação sobe 20% em Nova Iorque mas enquanto isso o USD desvaloriza 5% face ao EUR. A ação em EUR só sobe 15%, de modo que seria indiferente comprar a ação em EUR ou USD. Comprar ações americanas em Frankfurt não protege minimamente do risco cambial.

Relativamente à questão cambial é indiferente comprar ações americanas em Nova Iorque ou Frankfurt.

Mas relativamente às questões relacionadas com a liquidez e a amplitude do bid/ask spread já não será indiferente.

5. Então onde é que se deve comprar as ações?

É muito simples: as ações devem ser compradas na sua listagem principal!

As açoes de empresas portuguesas devem ser compradas na Euronext Lisbon.

As ações de empresas espanholas devem ser compradas na Bolsa de Madrid.

As ações de empresas neerlandesas devem ser compradas na Euronext Amsterdam.

As ações de empresas alemãs devem ser compradas na Bolsa de Frankfurt (Deutsche Boerse).

As ações de empresas norte americanas devem ser compradas nas Bolsas de Nova Iorque (NYSE ou Nasdaq).

César Borja

Licenciado em Economia pelo ISEG e investidor particular em ações desde 1998. Analista Financeiro registado na CMVM. Concluiu a Pós-Graduação em Análise Financeira no ISEG, tendo obtido a certificação CEFA. Também passou no exame CFA Level I.

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