BCP: Análise Profunda

Atualização à Análise Profunda ao BCP, com o contexto histórico, a situação atual e perspectivas para o futuro.

1. Introdução

O BCP integrou o índice PSI20 logo na sua criação, em 31 de dezembro de 1992, e sempre nele permaneceu.

Tem sido uma das principais blue chips da Bolsa de Lisboa, atual Euronext Lisbon, e é uma das 5 large caps de Portugal.

Nesta análise fundamental iremos conhecer as principais tendências financeiras e rácios de avaliação do BCP, chegando a uma conclusão objetiva no final acerca da atratividade das ações para investimentos a médio/longo prazo.

2. Apresentação
2.1. História

O Banco Comercial Português foi fundado em 17 de junho de 1985 por um grupo de mais de 200 acionistas e por uma equipa de profissionais bancários, entre os quais se destacaram Américo Amorim, Jorge Jardim Gonçalves, Pedro Teixeira Duarte e Ângelo Ludgero Marques.

A Operação Pública de Venda das ações e a entrada em bolsa ocorreram em setembro de 1987, mesmo antes do famoso crash de outubro do mesmo ano.

Em março de 1995, o BCP obteve o controlo do Banco Português do Atlântico (que, nessa altura, era o maior banco privado em Portugal) e, uns anos depois, conseguiu, através de uma OPA geral, a posse total do BPA.

No ano 2000, o BCP lançou-se numa onda louca de aquisições, tendo comprado a seguradora Império, o Banco Mello e o Banco Pinto & Sotto Mayor.

Nos anos seguintes, o BCP implementou uma expansão internacional em vários países, nomeadamente Angola, Moçambique, Estados Unidos, Canadá, França, Luxemburgo, Macau, Grécia, Polónia e Roménia.

Houve, depois, um recuo de muitos países e, atualmente, o BCP só está presente em Portugal (Millennium BCP e ActivoBank), Moçambique (Millennium BIM) e Polónia (50,1% do Bank Millennium).

O BCP chegou a ter 65,5% do capital do Bank Millennium, cotado na Bolsa de Varsóvia há mais de 30 anos e que na última sessão renovou o máximo histórico:

Atualmente, o valor de mercado do Bank Millennium está nos 5480 M€, pelo que a posição do BCP de 50,1% vale 2746 M€.

No início de 2012, devido à crise das dívidas soberanas na Europa, principalmente em Portugal, quando o yield das Obrigações do Tesouro subiu acima dos 16%, o BCP enfrentou dificuldades muito sérias, tendo solicitado ajuda financeira ao Estado Português que, financiado pela Troika, forneceu essa ajuda.

Com maior ou menor dificuldade – e com maiores ou menores emissões de ações diluidoras do valor dos acionistas – o BCP conseguiu pagar toda a ajuda estatal recebida naqueles anos de crise.

2.2. Estrutura Acionista

Nos últimos grandes aumentos de capital do BCP houve um investidor de peso, a Fosun International, cotada na Bolsa de Hong Kong…

…que atualmente tem um valor de mercado de 3674 M€.

A Fosun chegou a deter 30% do capital do BCP, mas, nos últimos tempos, tem reduzido a sua posição e já só detém 20,5%, ainda assim mantendo-se como maior acionista…

…mas, seguida de perto, pela angolana Sonangol, que detém 19,5%.

Recentemente apareceram notícias de que a Fosun pretende vender a sua posição:

Os dados da Refinitiv mostram que a Fosun apresentou um prejuízo de 553 M€ em 2024, ao qual se soma o prejuízo de 2952 M€ de 2025 motivado pelas imparidades ligadas ao setor imobiliário:

A terceira maior acionista, a Capital Research Global Investors, é uma gestora norte-americana que opera desde 1931 e que tem mais de $3 T de ativos sob gestão.

Para além das apresentadas anteriormente e da Vanguard, nenhum outro acionista detém mais de 2% do capital do banco.

2.3. Equipa de Gestão

O BCP tem sido liderado pelo duo Nuno Amado (Chairman) e Miguel Maya (CEO), que tem gerado muita confiança entre todos os stakeholders, incluindo funcionários, clientes, investidores, contrapartes, etc.

Nuno Amado tem 67 anos e foi CEO entre 2012 e 2018, antes de passar a Chairman. A sua compensação total anual tem sido ~705 K€.

Miguel Maya tem 60 anos, trabalha no BCP desde 1996 e exerce o cargo de CEO há 7 anos. A sua compensação total anual tem sido ~1,2 M€.

3. Gráfico de Longo Prazo

Seria muito interessante ver o gráfico da cotação do BCP desde a OPV de setembro de 1987, porém, o nosso data provider disponibiliza dados apenas desde agosto de 1994.

Infelizmente – muito por causa dos sucessivos aumentos de capital (melhor designados “emissões de ações”) – o gráfico de longo prazo do BCP demonstra uma enorme descida:

A sensação que fica foi que o que “tramou” o BCP foi aquela ambição desmedida no ano 2000, quando adquiriu, quase simultaneamente, a Seguradora Império e o Banco Mello (em conjunto custaram 1,26 mil milhões de euros) e o Banco Pinto & Sotto Mayor, que custou 4,1 mil milhões de euros.

Mais tarde, a crise financeira global de 2008 e a crise das dívidas soberanas na Europa em 2012 trouxeram a cotação do BCP até muito perto de zero, e muitos investidores recearam que o banco pudesse não sobreviver.

Aliás, como bem sabemos, os acionistas dos bancos Espírito Santo e Banif perderam tudo quando as ações foram deslistadas e passaram a valer, teoricamente e efetivamente, zero. O Banco Espírito Santo transformou-se no Novo Banco e o Banif foi absorvido pelo Santander.

O BCP caiu e sofreu muitíssimo, mas aguentou-se e continua cotado na Bolsa.

Se quisermos analisar um gráfico mais de curto prazo do BCP, por exemplo, desde que Miguel Maya assumiu o cargo de CEO em março de 2018, o panorama é mais animador:

Em 2025, o BCP subiu 92%!

4. Tendências Fundamentais

4.1. N.º de Ações Emitidas e Capitalização Bolsista

Após algumas viagens a Lisboa para recolher dados, foi possível construir esta série com o n.º de ações ajustado e o valor de mercado do BCP em cada ano:

Entre 1994 e 2018, o n.º de ações ajustado aumentou de 185 milhões para 15.114 milhões, resultando numa taxa média anual de aumento de 20,1%.

Nesse período de 24 anos, o BCP deveria ter sido considerado um “diluidor crónico” e, por tal, as ações não seriam investíveis.

No entanto, entre 2018 e 2024, o n.º de ações do BCP manteve-se inalterado, em 15.114 milhões, o que contribuiu para a reconstrução da confiança dos investidores neste título.

Mas, ainda melhor do que manter o número de ações emitidas inalterado, só pode ser um plano de recompra de ações…

…com o posterior cancelamento das ações recompradas:

Algo inédito no historial do BCP, mas visto com muito bons olhos!

O número de ações diminuiu 2,05% para os 14.805 milhões.

Atualmente, o valor de mercado do BCP está nos 13.028 M€, ligeiramente abaixo dos 13.324 M€ do final de 2025.

O anterior máximo, considerando a capitalização bolsista ao final de cada ano, tinha sido estabelecido em 2007 em 10.593 M€. Contudo, decorridos somente quatro anos, no final de 2011, em plena crise das dívidas soberanas, o BCP valia apenas 849 M€, ou 92% menos.

4.2. Proveitos Operacionais e Price to Sales Ratio

Desde os 717 M€ de 1994 até aos 3716 M€ de 2025, os Proveitos Operacionais do BCP aumentaram a uma taxa média anual de 5,5%:

Como podemos observar, não é apenas o valor de mercado que está em máximos, os Proveitos Operacionais de 2025 também lá estão e as estimativas dos analistas apontam para um crescimento de 5,1% em 2026.

Relativamente a 2007, o máximo histórico anterior em termos de valor de mercado, o crescimento dos proveitos operacionais foi de 24,1%.

O múltiplo das vendas, neste caso, dos resultados operacionais, fixou-se nos 3,6 em 2025 e, perante as estimativas dos analistas para 2026, está nos 3,3. Isto significa que, atualmente, o BCP está avaliado pelo mercado em cerca de 3,3 vezes o que se projeta que “venda” em 2026.

O mínimo histórico foi fixado em 2011 em 0,3 e a média desde 1994 está em 1,9.

4.3. Resultado Líquido e Price to Earnings Ratio

O track record do BCP em termos de Resultado Líquido Ajustado, ou seja, sem efeitos extraordinários, é conturbado:

Verifico que, nos últimos anos, o BCP tem lucrado significativamente mais do que nos períodos anteriores em que valeu mais de 10 B€.

Em 2025, o Resultado Líquido foi de 1019 M€, o que se compara com os 514 M€ de 2007 e os 572 M€ de 2001.

As estimativas dos analistas apontam para os 1129 M€ de lucro em 2026, pelo que o PER26 está nos 12, enquanto a média está nos 13,8

Para os próximos anos, os analistas especializados das casas de research e bancos de investimento que seguem o BCP apontam para um lucro de 1187 M€ em 2029, pelo que a Taxa Média Anual de Crescimento (TMAC) projetada entre 2025 e 2029 é de 3,9%.

4.4. Capital Próprio e Price to Book Value

O Capital Próprio do BCP tem tido a seguinte evolução:

Por vezes, os investidores estiveram otimistas, como, por exemplo, no ano 2000, e pagaram 2,5 vezes o Capital Próprio.

Noutras ocasiões estiveram muito pessimistas, como no final de 2011 (crise das dívidas soberanas na Europa) e em 2020 (pandemia de Covid-19) e pagaram, respetivamente, apenas 0,2 e 0,3 vezes o Capital Próprio.

Neste momento estão a pagar 1,7 vezes o Capital Próprio do BCP, pelo que eu diria que, historicamente, os investidores estão com um nível de confiança acima da média, que é de 1,1.

4.5. Dívida Líquida e CET1

O balanço do BCP está consideravelmente melhor do que na primeira década do século XXI.

Desde 2018, o BCP tinha mais Cash & Due from Banks (caixa e depósitos noutros bancos) do que dívida financeira…

…mas os dados mais recentes da Refinitiv apontam para uma dívida líquida de 1148 M€.

O rácio Common Equity Tier 1 baixou em 2025, mas continua acima da média histórica desde 2013:

4.6. Net Loans to Deposits e Return On Equity

Este gráfico é demonstrativo das mudanças estruturais no seio do BCP:

Em 2010, o BCP tinha 42,2 B€ de depósitos de clientes e 68,6 B€ emprestados a clientes, ou seja, um rácio Net Loans to Deposits de 163%.

Ao longo dos anos, o BCP continuou a atrair depósitos que, no final de 2025, totalizavam 91,3 B€.

No entanto, o montante emprestado manteve-se relativamente estável, situando-se, no final de 2025, nos 61,2 B€, com o rácio Net Loans to Deposits a descer para 67%.

Ou seja, em 15 anos, o BCP passou de emprestar 63% a mais do que tinha em depósitos para emprestar 33% a menos do que tem.

Isto significa que o balanço do BCP está atualmente muito menos alavancado do que em 2010. E, havendo procura por crédito, o BCP estará em condições de prestá-lo.

O Return on Equity teve a seguinte evolução:

No fundo, o que aconteceu foi que o banco estava muito mal preparado para enfrentar a crise financeira de 2008 e a crise das dívidas soberanas de 2011.

E toda a gente sofreu muito com isso, especialmente os acionistas, mas também os contribuintes.

O que se pede agora à gestão é que mantenha o Return On Equity em torno dos 14% – como acontecia há 25 anos – e, simultaneamente, fortaleça o Balanço, de forma a que o banco esteja preparado para a próxima crise.

4.7. Evolução da Margem Financeira e Cost of Risk

A subida das taxas de juro em 2022 e 2023 expandiu a margem financeira do BCP…

…enquanto o Cost of Risk tem diminuído.

5. Comparação com Bancos Espanhóis

Pelo TOP10 Madrid passaram dois bancos espanhóis que proporcionaram mais-valias interessantes:

  • CaixaBank com um retorno médio anual de 35%
  • Santander com um retorno médio anual de 34,3%

No decorrer dos últimos cinco anos, os bancos espanhóis têm sido um excelente investimento…

…mas o BCP teria sido um investimento ainda melhor.

O risco também era mais elevado no BCP e a recuperação dos resultados nos últimos anos levou a ganhos espetaculares! Todos os que têm ações do BCP estão de parabéns.

Mas e agora, o que vai acontecer no futuro?

Historicamente, os bancos europeus transacionam com um PER médio de 10. Porém, a média inclui valores extremos, que tipicamente vão do mínimo de 6 até ao máximo de 14.

Do ponto de vista dos fundamentais, considero que ambos os bancos espanhóis mencionados anteriormente têm duas vantagens competitivas face ao BCP:

  1. O BCP não terá grande capacidade para crescer através de fusões e aquisições
  2. A estrutura acionista do BCP é frágil e os seus dois maiores acionistas (Fosun e Sonangol) poderão estar vendedores caso a ação suba mais, veja-se as notícias mais recentes da Fosun

Tendo em conta os resultados de 2025, em seguida uma breve comparação com alguns dos bancos espanhóis:

Teoricamente, nesta altura do campeonato, há mais potencial de valorização nos bancos espanhóis.

No entanto, o BCP tem um ingrediente “especial” que poderá continuar a impulsioná-lo, que é a história dos créditos hipotecários em francos suíços na Polónia, que finalmente está a passar. Perspetiva-se que o Bank Millennium (do qual o BCP detém 50,1%) passe dos 1332 M de PLN de prejuízo em 2021 para 2239 M de PLN de lucro em 2028:

Espera-se que o Bank Millennium aumente o seu lucro dos 1202 M de PLN em 2025 para os 2239 M de PLN em 2028, uma diferença de 1037 M PLN, o que ao câmbio atual de 4,2513 Zlotys por EUR…

…significa 243,9 M€, ou seja, seriam mais 122 M€ para o BCP.

Acho que esta “história” cai bem no ouvido – e poderá contribuir para impulsionar as ações do BCP – mas não é assim tão relevante como se poderia pensar à partida, pois representa um aumento de “apenas” 12% no lucro do BCP.

6. Fatores de Risco

Os bancos, em geral, e o BCP, em particular, enfrentam dois grandes riscos.

O 1º risco é que as economias em que operam entrem em recessão económica, o que faria subir os rácios de incumprimento e, consequentemente, aumentaria as provisões para cobrir essas imparidades, o que reduziria os lucros.

Para Portugal, em novembro de 2025, a Comissão Europeia projetava um crescimento de 2,2% em 2026 e de 2,1% em 2027.

Para a Polónia, também em novembro de 2025, projetava-se um crescimento de 3,5% em 2026 e de 2,8% em 2027. E, para Moçambique, o FMI aponta para um crescimento de 3,5% em 2026.

Não me parece que as economias abordadas entrem em recessão, ainda que o risco geopolítico tenha aumentado desde novembro de 2025 e a subida do preço da energia possa baralhar as cartas.

O 2º risco é que o Banco Central Europeu desça novamente as taxas de juro para zero, onde estiveram durante tantos anos:

À partida, isso não vai acontecer porque os banqueiros centrais já perceberam que a economia – especialmente a da Zona Euro – funciona melhor com taxas de juro positivas e, tendo em conta a subida da inflação, aí é que não me parece mesmo que haja uma diminuição.

Mesmo com a maior economia da Zona Euro (Alemanha) estagnada no terceiro trimestre de 2025 e com a segunda maior (França) – que atualmente vai para o sexto governo em dois anos, que aprovou o orçamento para 2026 apenas em fevereiro e que tem uma dívida pública que representa 116% do PIB – a crescer apenas 0,2% no último trimestre.

De qualquer forma, se o BCE cortar os juros, a margem financeira dos bancos diminuirá.

7. Perspetivas

Como temos visto ao longo desta análise, o BCP tem valorizado a um ritmo impressionante, tendo sido a ação do índice PSI que mais subiu em 2024 (73,8%, incluindo dividendos líquidos) e que ainda somou uma valorização de 92% em 2025!

Os analistas dos bancos de investimento e casas de research que seguem o BCP perspetivam os seguintes números para os próximos anos:

Ao longo das análises, tenho verificado que os analistas projetam sempre um crescimento gradual até 2028, seguido de uma ligeira contração em 2029.

Porém, como mencionado anteriormente nos riscos, a situação macroeconómica é muito dinâmica e, ainda que o BCP esteja numa situação mais confortável do que há 15 anos, os resultados e, consequentemente, os múltiplos poderão contrair, se as economias de Portugal e/ou Polónia entrarem em recessão e/ou se o BCE efetivamente decidir cortar mais as taxas de juro.

8. Conclusão

O BCP está, fundamentalmente, muito melhor do que no passado longínquo.

Na análise de fevereiro de 2025, defendi que o BCP tinha capacidade para chegar aos 0,70 € por ação até ao final de 2027. Acontece que a cotação foi aos 0,70 € em meados de junho de 2025 e desde então tem continuado a sua ascensão…

…sendo que desde a nossa última atualização, a cotação começou a penar um pouco:

Nesta fase considero que o preço já engloba a evolução positiva dos fundamentais na sua totalidade e que agora temos estes dois cenários possíveis:

  • a) O BCE mantém as taxas de juro nos níveis atuais e o BCP começa a ser uma dividend play
  • b) O BCE avança com a redução das taxas de juro e o BCP, tal como os outros players do setor bancário, sofre uma deterioração nos resultados e consequentemente dos múltiplos. Esta possibilidade ficou com probabilidade mais reduzida devido à guerra no Irão e consequentes pressões inflacionistas.

Para quem está de fora, o mais racional será esperar que o PERttm baixe primeiro para 10 (~0,70 € por ação) e, idealmente, até aos 7 (0,49 € por ação).

Resumidamente, o BCP fez o seu caminho desde o PER de 7 até ao PER de 13. A expectativa de melhoria dos resultados do Bank Millennium na Polónia já aparenta estar descontada, mas poderá gerar headlines positivas.

Não parece haver grande potencial de valorização a partir do ponto atual.

O risco, que não parece iminente, é o de uma correção de cerca de 40%, com as ações a passarem de fully valued, novamente para undervalued.

César Borja

Licenciado em Economia pelo ISEG e investidor particular em ações desde 1998. Analista Financeiro registado na CMVM. Concluiu a Pós-Graduação em Análise Financeira no ISEG, tendo obtido a certificação CEFA. Também passou no exame CFA Level I.

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