Ação do Mês: Dezembro 2017

1. Contexto Histórico

Como sabem já analisei e acompanho regularmente 86 ações cotadas na Euronext Amesterdão. Sou particularmente interessado pelos casos em que a evolução da cotação difere da análise inicial, ou seja, quando as coisas não correm como previsto. Penso que nessas situações se podem encontrar boas oportunidades.

No fim-de-semana que passei em Madrid vi no terreno algumas empresas dos Portfolios geridos publicamente no BoS. Uma delas foi a Orpea, com uma unidade mesmo junto ao apartamento onde fiquei. Outra foi a Basic-Fit, que tem 26 ginásios low cost em Madrid.

Vou reler novamente a análise à Basic-Fit que realizei em 18 de julho de 2016:

Resumindo, a conclusão foi que “é cedo”.

Na altura a Basic-Fit tinha 351 ginásios, ou clubes, e no final de setembro já tinha 493! Em 439 dias abriu 142 novos clubes, o que dá um clube a cada 3 dias.

Aqui está a distribuição geográfica dos clubes:

Planeiam abrir 100 novos clubes por ano, sendo que o principal alvo de expansão neste momento é a França.

Em termos de contas, no 1º semestre de 2017 a Basic-Fit já deu Lucro:

O Lucro ainda é magrinho (10,3 M€ nos primeiros 6 meses de 2017) porque a empresa está em expansão acelerada e a investir fortemente. Mas o EBITDA ajustado está nos 45,5 M€ nos primeiros 6 meses, o que anualizado dá 91 M€.

O Valor de Mercado está nos 1 147 M€.

2. Perspetivas

O receio nas OPV’s recentes é que as empresas se ponham a emitir mais ações (porque precisam de financiamento), mas tal não aconteceu na Basic-Fit, que mantém o mesmo nº de ações emitidas pós-OPV. Isto deve ter acontecido também porque a empresa tem dois acionistas de referência que certamente não quererão ver a sua posição diluída:

A 3i Investments Plc é uma firma inglesa de private equity com 6,8 B€ sob gestão. Rene Moos é o CEO da Basic-Fit, que mantém os seus 22% do capital.

A Basic-Fit tem recorrido principalmente ao cash flow gerado pelos clubes existentes para construir novos clubes…

… que têm custado 1,1 M€ por clube, em média. Na análise inicial a Dívida Líquida estava nos 281,6 M€ e a 30 de junho 2017 nos 248 M€, pelo que diminuiu um pouco:

A Basic-Fit tem agora 1,5 milhões de clientes em planos de subscrição. Cada um deles paga pouco (à volta de 20 € por mês) o que torna os clubes muito competitivos. Aqui está o histórico das receitas anuais e as estimativas até 2020:

Entre 2017 e 2020 o crescimento é de 86%. Em relação ao Earnings Per Share normalizado, os analistas que seguem a Basic-Fit esperam um forte aumento até aos 1,87 € em 2020:

O PER 2020 está nos 11.

Claro que desde a análise inicial a Basic-Fit …

… subiu muito (+64%) e eu teria feito melhor em incluí-la no Portfolio TOP10 Amesterdão logo de caras. Mas, não tenho uma bola de cristal e como referi na altura o futuro ainda era muito incerto.

Neste momento a Basic-Fit já é lucrativa e os planos de expansão estão a correr melhor do que o esperado. Uma coisa que me está a agradar bastante neste negócio é a possibilidade, que começa a ser aproveitada, de vender mais coisas àqueles 1,5 milhões de clientes:

Ao princípio fiquei a pensar se não existiria demasiada concorrência neste setor dos ginásios. Eu aqui à porta de casa tenho dois ginásios e já estive inscrito nos dois (ir lá treinar já é outra história, mas pago sempre :-)). A Basic-Fit tem mais de 3 000 utentes por cada ginásio em operação há mais de 24 meses, pelo que não devem brincar muito no marketing … claro que desses 3 000 que pagam mensalmente …

… só uns 300 é que vão mesmo ao ginásio he he

Em relação à concorrência, penso que a Basic-Fit tem a vantagem da escala. Com cerca de 500 ginásios em 5 países europeus consegue fazer campanhas de marketing brutais que as outras cadeias mais pequenas não conseguem. Depois têm a App do próprio ginásio, os vídeos de fitness, enfim, conseguem desenvolver centralmente uma série de benefícios que depois são aproveitados por todos os clubes da empresa.

A Basic-Fit é tipo o Mc Donald’s dos ginásios.

Eu imagino que depois da Holanda, Bélgica, Luxemburgo, França e Espanha a Basic-Fit se vá espalhar por toda a Europa e se calhar até pela América e Ásia. Não sabemos quais são os planos de longo prazo, mas o que se vê aqui é um crescimento muito acelerado e um modelo de negócio de sucesso.

A forma de pagamento – débito direto – e o preço baixo são absolutamente essenciais. O preço é tão baixo que a pessoa pode ficar um ano ou mais sem ir ao ginásio e mesmo assim não cancelar, pois tem sempre a expetativa de vir a ter mais tempo ou mais vontade para finalmente se pôr em forma.

Será que a Basic-Fit pode valer 10 vezes mais em 10 anos, ou seja, crescer 26% ao ano? Não sei, mas acho que é possível, pelo menos a empresa cresceu exatamente a essa taxa nos primeiros nove meses de 2017:

Isso significaria que no final de 2027 a Basic-Fit teria cerca de 5 000 clubes, com uns 15 milhões de clientes. Parece muito, mas há aqui um dado curioso, é que a Basic-Fit tinha, em 30 de junho de 2017 …

… 477 mil clientes na Bélgica. Ora, a Bélgica tem 11,35 milhões de habitantes, pelo que estamos a falar de 4,2% da população (!). 4,2% da população da Zona Euro seriam 14,1 milhões. Enfim, os 15 milhões de clientes é uma projeção esticada, mas possível, especialmente se a Basic-Fit se expandir para a Ásia, por exemplo.

Em vez dos 26%, vou antes considerar uma taxa média de crescimento anual de 20% ao ano, nos próximos 10 anos, o que aponta para uma cotação de 132,07 € no final de 2027. Fica aí o PAQVH.

Em termos de risco, obviamente o nível é 3, growth stock. A escala de risco vai de 1 a 5, sendo que 1 é o risco mais baixo, e 5 é o mais alto:

3. Conclusão

A Basic-Fit (símbolo: BFIT.AS) vai entrar no Portfolio Ação do Mês, à cotação de fecho de hoje, com 1 000 € (valor meramente indicativo). Não vai ser necessário aumentar o capital do Portfolio porque está com um capital inicial de 7 000 € e apenas 6 holdings. 

É verdade, perguntam-me sempre estes códigos, vou passar a incluí-los nas análises:

César Borja

Licenciado em Economia pelo ISEG e investidor particular em ações desde 1998. Analista Financeiro registado na CMVM. Concluiu a Pós-Graduação em Análise Financeira no ISEG, tendo obtido a certificação CEFA. Também passou no exame CFA Level I.

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