Não quer perder nas ações? Invista durante pelo menos 10 anos!

Neste artigo calculei os retornos de 8 períodos de 10 anos e dei algumas dicas para ser um investidor bem sucedido em termos de longo prazo.

No artigo da semana passada…

…limitei-me a extrapolar as tendências dos últimos 10 anos de forma a “prever” os próximos dez.

Não se tratou exatamente de uma previsão, apenas da averiguação do que acontecerá se os próximos dez anos forem parecidos, em termos de performance bolsista, com os dez anos anteriores.

E a conclusão a que cheguei, através deste método simplista, é que as ações do índice PSI, em média, vão valorizar 3,5% ao ano, contando com os dividendos líquidos de impostos.

Houve quem ficasse “desconfiado” com esta “previsão”, dizendo que o futuro é imprevisível e que muita coisa pode mudar.

Ambas as afirmações são verdadeiras, de facto o futuro é imprevisível e muita coisa pode mudar.

Mas os retornos das ações têm uma consistência histórica admirável.

Repare na TMAR (Taxa Média Anual de Retorno) do índice PSI Geral em três períodos de 10 anos:

  • De março de 2015 a março de 2025: 4,8%
  • De março de 2005 a março de 2015: 1,3%
  • De março de 1995 a março de 2005: 9,9%

A TMAR do conjunto destes trinta anos foi 5,3%.

Se está pessimista relativamente à economia portuguesa lembre-se que várias empresas do índice PSI têm a maior parte das suas receitas no exterior, por exemplo a Altri tem 77%, a Corticeira Amorim 93%, a EDP Renováveis 78%, a Jerónimo Martins 78%, a Mota-Engil 78% e a Navigator 83%.

Portanto o hipotético pessimismo na economia portuguesa não serve de argumento para ignorar as ações do índice PSI.

Voltando ao índice PSI Geral (que dantes se chamava BVL Geral), infelizmente não é muito antigo, pois teve o seu início em janeiro de 1988, com uma base nos 1000 pontos:

Gráfico PSI Geral

Como se pode ver no gráfico acima, houve bastante volatilidade, mas a tendência de longo prazo é ascendente.

Gostaria de ver períodos de 10 anos mais antigos, por isso vou atravessar o Atlântico e verificar os retornos de um dos índices mais “idosos” e populares do mundo, o S&P 500.

A TMAR do S&P 500 foi:

  • Entre março de 1985 e março de 1995: 10,7%
  • Entre março de 1975 e março de 1985: 8%
  • Entre março de 1965 e março de 1975: -0.3%
  • Entre março de 1955 e março de 1965: 9%
  • Entre março de 1945 e março de 1955: 10,4%
  • Entre março de 1945 e março de 1935: 11,1%
  • Entre março de 1925 e março de 1935: -1,5%*

*neste último período utilizei o índice Dow Jones Industrial Average

A TMAR do conjunto destes 70 anos foi 6%.

O que importa realçar é o seguinte:

  • Nos 10 períodos de 10 anos considerados, os retornos das ações foram positivos em 80% dos casos
  • A TMAR do S&P 500 entre 1925 e 1995 foi 6% e a TMAR do BVL Geral de 1995 até 2025 foi 5,3%.

O corolário desta “investigação” é que o mais normal é que se espere um retorno médio anual entre 5% e 6% nos próximos 10 anos.

Afinal foi mais ou menos isso que aconteceu nos últimos 100 anos.

Se as ações têm retornos tão positivos e consistentes, porque é que a experiência de muitos investidores é negativa?

Principalmente por três motivos:

– Investem de forma ocasional e intermitente, comprando ações quando estão sobreavaliadas e vendendo quando estão subavaliadas. Ou seja, não investem durante um período mínimo de 10 anos;

– Não têm uma carteira bem diversificada de ações fundamentalmente atrativas. Se investem de forma concentrada em ações sobreavaliadas e/ou com fundamentais fracos, é natural que tenham retornos bem inferiores aos índices e potencialmente negativos;

– Vendem as ações vencedoras e reforçam nas perdedoras. Repare que os índices fazem exatamente o oposto: as ações que sobem vão ganhando peso e as que descem vão perdendo peso. E se desvalorizarem muito são retiradas do índice. É também esta caraterística que ajuda os índices a terem retornos tão positivos e consistentes: dão cada vez mais importância às ações boas e vão descartando as más. Sugiro que vá fazendo o mesmo na sua carreira de investidor em ações.

Resumindo, um investidor com uma mentalidade de longo prazo, razoavelmente diversificado, que saiba fazer alguma análise fundamental e que consiga manter as ações vencedoras e livrar-se das perdedoras, em princípio não terá como não ter um retorno bem positivo nos seus investimentos em ações.

O mais provável é que tenha um retorno médio anual superior à média, ou seja, superior ao dos índices e esses pontinhos extra de retorno fazem uma enorme diferença nos resultados a longo prazo.

É importante manter a tranquilidade nos momentos de stress, desligar-se um bocado das cotações no dia a dia e olhar com confiança para o futuro mais a longo prazo.

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César Borja

Licenciado em Economia pelo ISEG e investidor particular em ações desde 1998. Analista Financeiro registado na CMVM. Concluiu a Pós-Graduação em Análise Financeira no ISEG, tendo obtido a certificação CEFA. Também passou no exame CFA Level I.

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