A economia portuguesa é muito maior do que a bolsa portuguesa deixa transparecer.
Portugal tem dezenas de empresas de grande dimensão que dominam os seus setores, faturam centenas de milhões de euros e, em alguns casos, são autênticos embaixadores da economia nacional. No entanto, ao contrário do que acontece noutros países europeus, muitas destas empresas continuam inacessíveis aos investidores.
Apesar do crescimento de 44% da capitalização bolsista do PSI em 2025 e em 2026 (até agosto), a capitalização bolsista das 16 empresas, nos 91,4 B€, ainda só corresponde a 30% do PIB nacional:

Esta é uma das percentagens mais baixas da Europa e do mundo!
O objetivo deste artigo é identificar 10 empresas portuguesas que deveriam estar cotadas em bolsa, mas não estão.
Tentei reunir empresas de diferentes setores que, pela sua história, volume de negócios ou mesmo importância estratégica, poderiam acrescentar valor à Euronext Lisboa e criar novas oportunidades para os investidores.
Estas são as 10 empresas portuguesas que já justificavam uma presença na bolsa.
Nota: Os valores de vendas das empresas não cotadas são estimativas baseadas na informação pública disponível. As posições estimadas no PSI assumem, para efeitos deste artigo, que as empresas cumprem todos os critérios de admissão e integram diretamente o índice.
1. TAP Air Portugal
Volume de negócios: > 4000 M€ | Colaboradores: ~9700 | Sede: Lisboa
Foi um voo para Madrid que iniciou a atividade comercial da TAP, em setembro de 1946. A TAP foi pioneira nas ligações Europa-Brasil — uma posição estratégica que mantém até hoje, com 30% de quota no Aeroporto de Lisboa. Após anos de dificuldades financeiras e uma injeção de 3200 M€ de dinheiro público, a empresa encontra-se em processo de reprivatização, com o Estado a manter o controlo e a alienar até 49,9% do capital.
Posição no PSI por vendas: Com mais de 4100 M€ de receitas estimadas, a TAP seria a 6.ª maior empresa portuguesa por faturação, abaixo da Mota-Engil. Uma listagem parcial levaria o setor da aviação comercial para a bolsa portuguesa, onde atualmente não está representado.
2. Lactogal
Volume de negócios: 1200 M€ | Colaboradores: ~2.500 | Sede: Porto
A Lactogal nasceu em 1996 da fusão de três cooperativas leiteiras do Norte de Portugal — a AGROS (1949), a LACTICOOP (1962) e a PROLEITE (1973) — quando a abertura do mercado único europeu exigia escala para competir. A aposta resultou: tornou-se líder ibérico em laticínios com marcas que todos conhecemos, como a Mimosa, Agros, Gresso, Vigor e Leche Celta.
=> A marca Mimosa, que pertence à Lactogal, é a marca de leite mais vendida em Portugal há mais de uma década, e uma das marcas mais escolhidas pelos portugueses
Posição no PSI por vendas: Com 1200 M€ de volume de negócios, a Lactogal seria a 12.ª maior empresa portuguesa por vendas, logo abaixo dos CTT, e acrescentaria um novo setor, o agroalimentar, ao PSI.
3. Logoplaste
Volume de negócios: ~1000 M€ | Colaboradores: ~2600 | Sede: Cascais
Em 1976, Marcel de Botton vendeu a sua fábrica de plásticos por um dólar simbólico e recomeçou do zero com o modelo “wall-to-wall”, em que a fábrica de embalagens é instalada dentro das instalações do cliente. Hoje, a Logoplaste opera mais de 70 fábricas em 20 países para clientes como Nestlé, Unilever, Danone, Diageo e L’Oréal.
=> A primeira embalagem produzida pela Logoplaste foi para os iogurtes Yoplait e para tampas da Nestlé, em 1976
Posição no PSI por vendas: Com cerca de 1000 M€ de faturação estimada, a Logoplaste seria, igualmente, a 12.ª maior empresa portuguesa por faturação, acima de empresas como a REN e a Corticeira Amorim.
4. CUF
Volume de negócios: 940 M€ | Colaboradores: 16750 | Sede: Carnaxide
A história da CUF começa em 1865 com a fundação da Companhia União Fabril (CUF), mas foi sob a liderança de Alfredo da Silva, a partir de 1898, que se tornou o maior grupo industrial da Península Ibérica. O grupo foi nacionalizado em 1975 e a família Mello reconstruiu o império a partir do zero, fazendo com que, com o tempo, a marca CUF se dedicasse exclusivamente à saúde, aquilo pelo que a conhecemos.
Atualmente, é uma das maiores redes privadas de saúde em Portugal, com dezenas de hospitais e clínicas espalhados pelo país.
=> A CUF não tem ações em bolsa, mas tem obrigações cotadas na Euronext Lisboa desde 2024. Além disso a Farminveste, cotada na Euronext Access Lisbon, detém 30% do capital da CUF
Posição no PSI por vendas: Com 940 M€ de volume de negócios, a CUF seria a 13.ª maior empresa do PSI por vendas e traria para a bolsa um setor ainda por exploração no PSI, a saúde privada.
5. Delta Cafés (Grupo Nabeiro)
Volume de negócios: 650 M€ | Colaboradores: ~4000 | Sede: Campo Maior
Rui Nabeiro cresceu em Campo Maior, numa zona raiana do Alentejo onde o próprio recordou, “nasci pobre, fiz contrabando, tratei bem as pessoas”. Em 1961, com 30 anos, fundou a Delta Cafés num armazém de 50 m² com três funcionários e duas bolas de torra. Décadas depois, a Delta tornou-se a maior torrefatora da Península Ibérica, com presença em mais de 50 países. À frente da empresa continua a Família Nabeiro.
=> Apesar de liderar uma empresa com milhares de colaboradores, Rui Nabeiro era conhecido por tratar muitos deles pelo nome. Foi esta cultura de proximidade que se tornou numa das marcas que distinguem a Delta
Posição no PSI por vendas: Com 650 M€ de volume de negócios, a Delta seria a 16.ª maior empresa portuguesa por vendas, acima da Ibersol.
6. Grupo Pestana
Volume de negócios: 559 M€ | Colaboradores: >5000 | Sede: Funchal e Lisboa
O império começou em 1972, quando Manuel Pestana inaugurou o Pestana Carlton Madeira, o primeiro hotel do grupo. Sob a liderança do filho, Dionísio Pestana, o grupo tornou-se a maior multinacional hoteleira de origem portuguesa e, ao longo dos anos, passou a gerir também as Pousadas de Portugal e criou, mais tarde, a marca Pestana CR7 em parceria com Cristiano Ronaldo.
=> A marca Pestana CR7 nasceu de uma parceria entre o Grupo Pestana e Cristiano Ronaldo, combinando hotelaria e a marca pessoal do jogador. Atualmente existem hotéis CR7 em várias cidades
Posição no PSI por vendas: Com 559 M€ de receitas, o Grupo Pestana seria a 16.ª maior empresa do PSI por vendas, entre a Altri (703 M€) e a Ibersol (530 M€). A eventual cotação faria entrar na bolsa portuguesa um dos setores mais importantes da economia nacional: o turismo e a hotelaria.
7. Parfois
Volume de negócios: >300 M€ | Colaboradores: >3000 | Sede: Porto
Manuela Medeiros tinha 42 anos quando, em 1994, abriu a primeira loja Parfois na Rua de Santa Catarina, no Porto, com uma ideia simples: tornar acessórios de moda sofisticados acessíveis a todas as mulheres. A expansão foi impressionante e hoje, a Parfois tem mais de 1000 lojas em mais de 70 países, com equipas de design no Porto e em Barcelona a desenvolver milhares de artigos por estação.
=> A Parfois abriu a sua primeira loja internacional em Espanha apenas dois anos após a fundação, em 1996. Cerca de 80% da equipa é composta por mulheres, em todos os níveis hierárquicos.
Posição no PSI por vendas: Com mais de 300 M€ de volume de negócios, a Parfois ficaria, também, abaixo da 16.ª posição do PSI por vendas — a segunda mais pequena desta lista, mas com uma presença internacional que justifica a sua inclusão.
8. CP – Comboios de Portugal
Volume de negócios: 280 M€ | Colaboradores: ~3800 | Sede: Lisboa
Nota: O valor das receitas refere-se apenas aos proveitos de tráfego, pelo que o valor total será superior, podendo alterar a sua posição no PSI por vendas
As raízes remontam a 1856, quando foi inaugurada a primeira linha ferroviária portuguesa entre Lisboa e o Carregado; a CP foi nacionalizada em 1975 e passou por décadas de desinvestimento. A viragem chegou com o Alfa Pendular em 1999 e acelerou com a pandemia, que relançou o interesse pelo comboio. Em 2023 transportou 173,3 milhões de passageiros, e está em curso a maior renovação de frota da sua história: 153 novas automotoras, num investimento superior a 1000 M€.
Posição no PSI por vendas: Com 283 M€ de receitas, a CP ficaria abaixo da última posição atual do PSI por vendas, a Ibersol.
9. Riberalves
Volume de negócios: 200 M€ | Colaboradores: ~500 | Sede: Torres Vedras
Nos anos 60, João Alves começou a vender bacalhau porta a porta com o pai pelas ruas de Lisboa. Em 1985, fundou a Riberalves — nome que combina os dos seus filhos, Ricardo e Bernardo Alves. A fábrica da Moita, inaugurada em 2002, é hoje a maior do mundo dedicada exclusivamente à transformação de bacalhau, produzindo mais de 30.000 toneladas por ano — 8 a 10% de todo o bacalhau pescado no mundo.
=> A Riberalves é a maior do mundo em transformação e processamento de bacalhau
Posição no PSI por vendas: Com 200 M€ de volume de negócios, a Riberalves ficaria abaixo da 16.ª posição — uma small cap em termos de dimensão, mas sem dúvida uma líder mundial no seu nicho.
10. Tekever
Avaliação do valor de mercado: 1200 M€ (2025) | Colaboradores: >800 | Sede: Lisboa
Fundada em 2001 por antigos alunos do Instituto Superior Técnico, a Tekever começou por desenvolver software antes de redefinir a estratégia para os drones em 2008. Essa mudança permitiu à empresa tornar-se uma referência europeia em tecnologia de defesa e vigilância. Hoje, os seus drones são utilizados em missões de monitorização marítima, controlo de fronteiras e apoio à Ucrânia, sendo a empresa reconhecida pelo desenvolvimento de sistemas inteligentes que descreve como “computadores com asas”.
Posição no PSI: Embora a faturação exata não seja pública, a Tekever teve uma avaliação de 1200 M€ em 2025 — mais um unicórnio português! Com esta capitalização bolsista, entraria diretamente para o meio da tabela do PSI, valendo mais do que algumas empresas históricas. Mais importante, traria o setor da defesa aeroespacial para a bolsa de Lisboa!
Conclusão
A verdade é que a ausência destas empresas da bolsa não é um indicador de falta de dimensão ou relevância, pelo contrário. Muitos são os grupos familiares que preferem manter o controlo acionista em vez de abrir o capital ao mercado. Já outras, como a TAP e a CP, pertencem ao Estado e a sua entrada em bolsa está dependente de decisões políticas e ideológicas.
Ainda assim, é difícil “ignorar” o impacto que a cotação destas empresas teria na Euronext Lisboa. Além de aumentar a dimensão do mercado, introduziria novos setores, mais diversificação e uma melhor representação da economia portuguesa.
Por enquanto, algumas das melhores histórias de sucesso empresarial de Portugal continuam fora do alcance dos investidores.