Relatório Aprofundado: Personalis

Índice:

  1. Introdução
  2. Apresentação
    • História da Personalis
    • Personalis na Atualidade
    • Estrutura Acionista
    • Equipa de Gestão
      • Chairman
      • CEO
      • CFO
  3. Fontes de Informação e Ferramentas de Análise
  4. Dados Históricos
    • Gráfico da cotação desde o IPO
    • Evolução do N.º de Ações, Capitalização Bolsista e Enterprise Value
    • Evolução das Receitas e Price to Sales Ratio
    • Evolução do EBITDA e Múltiplos do EBITDA
    • Margens EBITDA, EBIT e Líquida
    • Resultado Líquido e Price to Earnings Ratio
    • Evolução do Cash, Dívida Financeira e Dívida Líquida
    • Rácios do Balanço: Current Ratio, Debt to Equity Ratio e Net Debt to EBITDA
    • Capital Próprio e Price to Book Value
  5. Análise Setorial e Mercado Potencial
  6. Análise da Concorrência
  7. Estimativas dos Analistas Especializados
  8. Fatores de Risco
  9. Perspetivas
  10. Tipo de Play
  11. Preço Ao Qual Venderia Hoje
  12. Retorno Potencial
  13. Visão a Longo Prazo
  14. Conclusão
  15. Códigos de Negociação

1. Introdução

No dia 19 de novembro lancei as 20 ações que iriam ser analisadas este mês, iniciando um processo de seleção que me levou a eliminar 15 e ficar com apenas 5 para uma análise mais profunda. Essas 5 ações que passaram à segunda fase foram a Tilray, a OrganiGram, a Akerna, a Personalis e a Levi Strauss & Co.

Numa segunda ronda de análises/comentários, cujos links estão aqui…

…escolhi a Personalis para o Relatório Aprofundado.

A decisão foi por um lado racional, no sentido que toda a indústria da cannabis está infestada de concorrência (leal e desleal) e a Levi’s é uma empresa demasiado madura, por outro lado foi uma decisão emocional, pois investir em empresas que lutam contra o cancro é apelativo para mim em termos pessoais.

2. Apresentação
2.1. História da Personalis

A Personalis foi fundada em 2011, através de um spin off da Universidade de Stanford, levando consigo especialistas de renome internacional em NGS, ou Next Generation Sequencing. Eu sou relativamente ignorante em relação a estes temas, pelo que procurei educar-me um pouco, começando por ver este vídeo sobre o Human Genome Project:

Neste link da Thermo Fisher Scientific (uma $127 B cap) “descobri” que NGS é uma metodologia que proporciona uma sequenciação rápida com base em pares de amostras de DNA e RNA (informação aqui). Esta sequenciação permite conhecer os genes de cada indivíduo e está a abrir as portas para a medicina personalizada. As aplicações mais imediatas têm a ver com a luta contra o cancro e doenças raras.

Desde 2012 que o Million Veteran Program recorre aos serviços da Personalis e tem sido esse apoio estatal continuado que tem permitido à empresa investir fortemente em R&D e desenvolver os seus serviços, que nos últimos anos têm sido contratados também por grandes farmacêuticas como a Merck & Co. e a Pfizer.

2.2. Personalis na Atualidade

Atualmente a Personalis detém uma plataforma avançada (NeXT) de estudo do genoma humano, que serve para desenvolver terapias personalizadas de luta contra o cancro:

A gestão nesta apresentação procura traduzir por miúdos, incluindo até desenhos infantis…

…aquilo que é extraordinariamente complexo. Simplificando, a Personalis presta serviços de análise, informação e dados a outras empresas farmacêuticas e de biotecnologia, que são depois utilizados para aumentar a eficácia e taxa de aprovação de terapias e medicamentos que procuram ser mais eficazes (através da personalização) no combate a doenças cancerígenas:

2.3. Estrutura Acionista

Os dez maiores acionistas da Personalis são os seguintes:

Com 19,52% do capital temos a Lightspeed Venture Partners, que como o nome indica é uma firma de venture capital, que tem no seu track record investimentos em empresas como o Snapchat ($19,7 B de market cap), DoubleClick (adquirido pela Google após o IPO), AppDynamics (adquirida pela Cisco por $3,7 B), Brocade, Blue Nile, Riverbed, etc, num total de cerca de 350 empresas apoiadas até à data.

Em segundo lugar, com 17,45% do capital, temos a Abingworth que, baseada em Londres, investe em empresas bio-farmacêuticas da Europa e dos Estados Unidos. Espero mesmo que eles tenham o conhecimento que dizem ter…

…e que eu não tenho.

A Mohr Davidow Ventures também tem uma boa lista de sucessos no seu repertório, estando lá plasmada a Personalis, da qual tem 8,37% do capital.

Em quarto lugar está um fundo da Universidade de Stanford, onde a Personalis nasceu, que conserva 4,58% do capital.

Finalmente gostaria de destacar o oitavo maior acionista, John Stephen West, que tem 1,61% e é o fundador e CEO da Personalis.

2.4. Equipa de Gestão
2.4.1. Chairman

O Chairman é Jonathan MacQuitty, PhD. Está no Board of Directors desde a fundação da Personalis em 2011 e parece ser o elo de ligação entre a gestão e os maiores acionistas/financiadores. Isto porque ele exerce ou já exerceu cargos na Lightspeed Venture Partners, na Abingworth e também tem um MBA da Stanford University.

2.4.2. CEO

O CEO é John West, que desde 1982 estuda a sequenciação e interpretação do DNA.

Na década de 80 liderou o desenvolvimento de um sistema automatizado de sequenciação de DNA baseado no reconhecimento de padrões de auto-radiografias e licenciou software do laboratório Roger Staden na MRC Cambridge, Reino Unido, para a montagem e análise de sequências de DNA.

Na década de 90, John West foi diretor geral e subsequentemente presidente da Princeton Instruments, uma empresa focada em imagens científicas de baixa luminosidade. Esta tecnologia foi usada em vários desenvolvimentos relacionados com a automatização da sequenciação de DNA.

Em 2001 juntou-se à líder de mercado Applied Biosystems (pertence à Thermo Fisher Scientific) como vice-presidente do segmento de Genetic Analysis. Mais tarde foi promovido a vice-presidente do segmento de DNA Platforms. Enquanto trabalhava na Applied Byosistems, a equipa de John West introduziu o modelo Genetic Analyzer 3730xl e esta máquina passou a estar presente em praticamente todos os grandes centros de investigação do genoma humano do mundo.

Em 2004 assumiu o cargo de CEO da Solexa Ltd, uma empresa de venture capital inglesa focada principalmente na sequenciação de DNA, que foi adquirindo tecnologias transformativas relacionadas com o DNA. Em 2005 liderou a reverse merger da Solexa com a Lynx Therapeutics, que era cotada no Nasdaq, e depois angariou $100 M em PIPE financings. A empresa introduziu o seu primeiro sistema a meio de 2006 e em janeiro de 2007 John West negociou a venda da Solexa à Illumina, por aproximadamente $600 M, tendo ficado na Illumina como vice-presidente do segmento de sequenciação de DNA até 2008. Durante este período a Illumina tornou-se na líder mundial na sequenciação de DNA de nova geração.

Nota: atualmente a Illumina está com um Valor de Mercado de $47.333 M.

Desde 2009 até meio de 2011 John West foi CEO da ViaCyte, que é uma empresa relacionada com células estaminais. No final de 2009 a Família de John West, constituída por ele, a esposa e dois filhos, foi a primeira família saudável a ser sequenciada em termos de genoma. A experiência dele com a equipa de interpretação do genoma humano de Stanford levou à fundação da Personalis.

Em termos académicos, John West tem um Masters Degree em engenharia do MIT e um MBA da University of Pennsylvania’s Wharton School of Business.

2.4.3. CFO

Aaron Tachibana juntou-se à Personalis como Chief Financial Officer em março de 2019 e tem mais de 15 anos de experiência como gestor financeiro, tendo trabalhado em empresas de várias dimensões, desde pequenas empresas privadas a grandes empresas cotadas.

Antes de integrar a Personalis, Tachibana foi CFO da Lumentum, uma empresa cotada que surgiu de um spin off da JDSU.

Nota: a Lumentum está neste momento com um Valor de Mercado de $5.793 M

Em termos de graus académicos Tachibana tem um bacharelato em Business Administration and Finance da San Jose State University e é graduado pelo General Electric’s Financial Management Program.

3. Fontes de Informação e Ferramentas de Análise

4. Dados Históricos
4.1. Gráfico da cotação desde o IPO

As ações da Personalis foram vendidas no IPO a $17 por ação e entraram no Nasdaq no dia 20 de junho de 2019 à cotação de $23,7. O máximo foi estabelecido três dias depois, nos $31,88…

…e depois houve uma tendência fortemente descendente que a trouxe até aos $8,48 em novembro de 2019. Neste momento, sexta-feira, dia 13 de dezembro, às 16:30, a Personalis está cotada nos $9,85 por ação.

4.2. Evolução do N.º de Ações, Capitalização Bolsista e Enterprise Value

A Personalis emitiu e vendeu 9.109.725 ações no seu IPO, recebendo cerca de $140 M de financiamento. A 30 de setembro de 2019 tinha 31.142.643 ações emitidas e neste momento terá, segundo informação da Refinitiv, 31.233.959 ações emitidas, pelo que, à cotação atual de $10,18, a Capitalização Bolsista é de cerca de $318 M.

Numa empresa de biotecnologia é sempre muito difícil antecipar qual vai ser o ritmo de emissão de novas ações… no caso da Personalis podemos ter algum conforto no facto da empresa, a 30 de setembro de 2019, ter $127,3 M em Cash e Equivalentes e $0 de Dívida Financeira:

Enquanto o dinheiro do IPO durar, em princípio não existirão grandes emissões de novas ações, mas seria importante que a empresa se tornasse lucrativa no entretanto, porque senão, antes do dinheiro acabar, é certo que irão emitir mais ações e diluir as posições dos acionistas anteriores. É evidente que esse é sempre o maior risco de investir em empresas de biotecnologia que dão prejuízo, como é o caso da Personalis.

4.3. Evolução das Receitas e Price to Sales Ratio

Pesquisei bastante mas, pelo menos por enquanto, só consegui encontrar dados de Receitas dos anos de 2017, 2018 e dos primeiros nove meses de 2019, que podemos anualizar para o total do ano:

A boa notícia é que a Personalis não é uma daquelas biotechs sem Receitas. Uma segunda boa notícia que podemos dar é que as Receitas estão com uma tendência crescente. A má notícia é que grande parte destas Receitas, mais propriamente entre 49% e 75% (dependendo dos períodos), advém de uma única entidade estatal:

O US Department of Veterans Affairs, através do seu Million Veterans Program (MVP), tem sido o grande financiador da Personalis, tendo contratado serviços no valor de $145 M no passado e estando já previstos $82,5 M para os próximos 18 meses:

Outros dois clientes relevantes são a Pfizer e a Merck & Co, sendo que a Pfizer contribuiu com 17% das Receitas dos primeiros nove meses de 2019.

Tendo em conta a previsão de Receitas de $62,7 M em 2019 e o Valor de Mercado nos $318 M, concluímos que o Price to Sales Ratio está nos 5,1.

4.4. Evolução do EBITDA e Múltiplos do EBITDA

A Personalis tem tido EBITDA negativo e as previsões dos analistas apontam para que continue a ser negativo no futuro:

A única coisa boa disto é que, sendo as expetativas tão baixas, é possível que a Personalis surpreenda pela positiva. No Bloomberg não havia qualquer peça de research que servisse de suporte a estas estimativas, por isso não sei de onde elas vêm. É algo estranho que os analistas esperem que as Receitas vão aumentando a bom ritmo…

…e que isso não tenha qualquer reflexo em termos de bottom line. Só se for porque já se sabe que a gestão planeia investir tudo o que tiver de Receitas (e mais ainda), pois a sua missão tem um imenso benefício potencial para a Humanidade: o desenvolvimento de vacinas personalizadas para prevenir o cancro.

Tal como dizia o Bill Clinton no final daquele vídeo do início, “I dream of the day when every young mother brings a young girl or a young boy home from the hospital with a little gene card that says… this is the way you should prepare this child’s healthcare. It’s exhilarating.

4.5. Margens EBITDA, EBIT e Líquida

As margens da Personalis têm sido, e prevê-se que continuem a ser, negativas:

A Personalis parece contabilizar os investimentos em Research & Development como Custos Operacionais que são levados imediatamente à Demonstração de Resultados, pelo que tem muito poucos custos de Amortizações e Depreciações, o que faz com que o EBITDA e o EBIT sejam praticamente iguais. Descendo mais na Demonstração de Resultados, a empresa também não tem custos financeiros (porque não tem Dívida), nem paga impostos sobre Lucros (porque não os tem, mas mesmo quando tiver, deverá ter alguns anos de isenção), o que faz com que o Resultado Líquido seja sensivelmente igual ao EBIT.

Nota: no prospecto, na página 55, diz o seguinte: «As of December 31, 2018, we had federal and state net operating loss carryforwards of approximately $87 million and approximately $48.6 million, respectively. Certain of our federal and state net operating loss carryforwards will begin to expire, if not utilized, beginning in 2031»

Resumindo, em termos aproximados, na Personalis temos EBITDA = EBIT = RL, o que implica que as respetivas margens também são bastante semelhantes. Esta situação poderá facilitar os trabalhos de previsão, pois basta prever o EBITDA para ter uma ideia relativamente segura do que será o Resultado Líquido.

4.6. Resultado Líquido e Price to Earnings Ratio

A Personalis reportou um Prejuízo de $18,4 M nos primeiros nove meses de 2019

…ligeiramente mais do que nos primeiros nove meses de 2018, ainda que as Receitas tenham sido praticamente o dobro. Para o total do ano de 2019 os analistas que seguem a empresa esperam um Prejuízo de $26 M:

Parece que o nível de Prejuízo é independente das Receitas, pois entre 2019 e 2023 os analistas esperam que as Receitas aumentem dos $65 M para os $215 M e mesmo assim o Prejuízo se mantenha na zona dos $20 M/ano. Claramente a prioridade da gestão não é dar Lucro a curto/médio prazo… não é fácil analisar e investir em empresas do setor da biotecnologia, pois as redes de segurança habituais não estão presentes.

Em relação ao Price to Earnings Ratio, a fórmula é…

PER = Valor de Mercado / Resultado Líquido

…e mede o n.º de anos que demoraria a recuperar um investimento, no caso de se comprar uma empresa por inteiro (é sempre desta forma que deve ser analisada a compra de uma parte de uma empresa, ou seja, algumas ações). Não faz sentido calcular PERs negativos, da mesma forma que não faz sentido falar em anos negativos.

4.7. Evolução do Cash, Dívida Financeira e Dívida Líquida

O financiamento de cerca de $140 M no IPO permitou à Personalis pagar toda a sua Dívida Financeira (também não era muita)…

…e ficar com uma posição de Net Cash de $127,3 M.

Estes $127 M darão para financiar uns cinco ou seis anos de Prejuízos na casa dos $20 M a $25 M.

4.8. Rácios do Balanço: Current Ratio, Debt to Equity Ratio e Net Debt to EBITDA

Neste pós-IPO o Balanço é naturalmente muito saudável, com o Current Ratio nos 3 (significa que as disponibilidades de curto prazo são o triplo das responsabilidades a curto prazo), o Debt to Equity Ratio nos 0,4 (o Passivo é 40% do Capital Próprio) e nem sequer há Dívida, pelo que não faz sentido calcular o Net Debt to EBITDA.

4.9. Capital Próprio e Price to Book Value

O Capital Próprio era ligeiramente negativo…

…mas a injeção de capital no IPO mudou completamente o panorama. No dia 30 de setembro de 2019 o Capital Próprio da Personalis era de $111,4 M.

Em relação ao Price to Book Value, cuja fórmula é…

PBV = Capitalização Bolsista / Capital Próprio <=> $318,9 M / $111,4 M = 2,9

…o valor está em 2,9.

5. Mercado Potencial

Segundo a apresentação aos investidores de dezembro de 2019, o mercado potencial da Personalis é o seguinte:

Isto tem a ver com o uso que será dado à informação que vai sendo reunida na plataforma NeXT. Se for apenas para análise de tecidos e sequenciação de DNA, o mercado potencial é de cerca de $5 B. Se a informação for usada para diagnósticos, passa para $14 B. Finalmente, se a plataforma for usada para prescrição de terapêuticas personalizadas, o mercado potencial sobe para mais de $40 B.

Estes dados do TAM são algo subjetivos e devemos olhar para eles com uma boa dose de cepticismo.

Do que eu percebi da apresentação, parece-me que, quanto mais dados de pacientes são recolhidos e quanto mais antigos são esses dados, mais valor, em termos de capacidade de diagnóstico, têm. O plano para passar para a segunda fase, a do Diagnóstico, é o seguinte:

Depois temos dois fins últimos, sendo que o primeiro é prescrever uma terapia personalizada para cada doente de cancro, tendo em conta os seus 20.000 genes:

E o segundo é prevenir o cancro, através de vacinas, tendo em conta também os cerca de 20.000 genes de cada indivíduo:

6. Análise da Concorrência

O 5º tópico dos Risk Factors presentes no prospecto do IPO fala sobre a concorrência da Personalis e o risco que representa para o sucesso deste investimento.

São mencionadas as seguintes empresas concorrentes: Guardant Health, Foundation Medicine, NanoString Technologies, Personal Genome Diagnostics e Adaptive Biotechnologies.

Fiz uma tabela com alguns dados sobre estas empresas, de forma a podermos compará-las com a Personalis:

Algumas notas sobre esta tabela:

  • As empresas desta indústria da Biotechnology & Medical Reasearch são muito valorizadas pelos investidores e grandes farmacêuticas, sendo que a Roche adquiriu recentemente a Foundation Medicine com uma valorização final de $5,3 B;
  • Todas as empresas dão Prejuízo logo ao nível do EBITDA, sendo que a Personalis até é a que perde menos dinheiro;
  • A Personalis está avaliada por 1/3 da NanoString Technologies, cerca de 1/12 da Adaptive Biotechnologies e cerca de 1/22 da Guardant Health, que é a maior da indústria, com um Valor de Mercado de $7 127 M;
  • Nenhuma das empresas tem Dívida Financeira, todas elas têm Net Cash positivo e a Personalis é a que tem menos Net Cash;
  • O Price to Sales Ratio da Guardant Health é de 35, da NanoString é de 7,5 e o da Adaptive Biotechnologies é de 45! O PSR da Personalis, nos 4,9, compara favoravelmente com a concorrência;
  • O Price to Book Value da Guardant é de 8,7, da NanoString é de 12,5, da Adaptive Biotechnologies de 6,4 e da Personalis de 2,9. Novamente, na comparação com as empresas da mesma indústria, a Personalis parece subavaliada.

Aqui estão os gráficos com a evolução em Bolsa das quatro concorrentes cotadas:

É possível que a fraqueza mais pronunciada da Personalis a seguir ao IPO tenha a ver com ser uma empresa mais pequena e por tal menos conhecida dos investidores. Ou talvez porque alguns dos acionistas pré-IPO da Personalis tenham tido mais necessidade ou urgência em vender.

7. Estimativas dos Analistas Especializados

Já escrevi bastante e coloquei gráficos com as estimativas dos analistas para os próximos anos, mas aqui fica a tabela de dados completa com as previsões dos analistas contactados pela Refinitiv, para a Personalis:


Uma linha que surpreende pela negativa, tratando-se de uma empresa do setor da Biotecnologia, é a do Cost of Goods Sold, que faz com que a margem bruta da Personalis ande pelos 33% em 2019 e vá crescendo lentamente. Fui ver a mesma informação para a maior da indústria, a Guardant Health (Valor de Mercado de $7.127 M, versus $319 M para a Personalis), e tem uma margem bruta que é cerca do dobro:

E os analistas esperam que a Guardant Health comece a dar Lucro já em 2022. Estive a estudar um pouco a Guardant Health e é uma empresa semelhante à Personalis, com a seguinte diferença:

A Guardant Health faz testes partindo de amostras de sangue, enquanto que a Personalis precisa de uma amostra de tecido, o que deve ter um custo bastante superior, mas penso que dá resultados mais profundos. A Personalis também está a desenvolver a capacidade de fazer biopsias a partir do sangue, para complementar as que faz a partir do tecido:

Efetivamente, nesta apresentação aos investidores, a Guardant Health faz muita gala da sua liquid biopsy.

Comparando as duas, a Personalis invoca a profundidade da sua informação (20.000 genes, versus 50 a 500 das outras), enquanto que a Guardant invoca mais a rapidez dos seus testes, levando 7 dias a fazer uma biopsia a partir de uma amostra líquida (sangue). É realmente muito importante que a Personalis consiga também fazer biopsias líquidas, pois nessa altura poderá ser rápida (com o sangue) e profunda (com o tecido).

A gestão da Personalis diz que lançará a liquid biopsy já em 2020:

8. Fatores de Risco

No tal prospecto de 706 páginas, 45 são a enunciar e explicar os fatores de risco. Comecei por fazer copy/paste dos títulos dos riscos, mas isso iria ocupar para aí 50% da análise e provavelmente ninguém iria ler esta parte. Da página 13 à 61 estão cinco grandes grupos de risco:

  1. Risks Related to Our Business and Strategy
  2. Risks Related to Government Regulation
  3. Risks Related to Our Intellectual Property
  4. Risks Related to Being a Public Company
  5. Risks Related to This Offering and Our Common Stock

Não vi ali nada que pudesse considerar inesperado ou um alerta vermelho para estas ações.

9. Perspetivas

Eu tenho obviamente bastante dificuldade em analisar empresas da indústria da Biotecnologia, devido às minhas limitações em termos de conhecimentos desta área, porém há três fatores na Personalis que me dão alguma confiança:

– Tem Receitas significativas e um fundo de maneio que chega para financiar para aí cinco ou seis anos de Prejuízos semelhantes aos que tem tido e àqueles que são previstos pelos analistas especializados;

– Parece ter algo de especial, que a diferencia dos seus pares, nomeadamente o conhecimento e estudo profundo dos 20.000 genes do corpo humano;

– Há outras empresas na mesma indústria e os múltiplos de valorização da Personalis comparam favoravelmente com essas empresas, indicando que está subavaliada.

A iniciativa da biopsia líquida, que está previsto ser lançada em 2020, parece que a vai aproximar da oferta da maior da indústria, a Guardant, que vale 22 vezes mais do que a Personalis.

Como as previsões dos analistas apontam para Prejuízos nos próximos cinco anos, penso que o contexto está mais favorável a surpresas positivas do que negativas. Se as Receitas aumentarem mais do que o previsto, ou se as biopsias líquidas baixarem os custos de certos serviços, a Personalis pode tornar-se lucrativa mais cedo do que se espera e poderá não haver lugar a mais emissões de ações significativas, embora aqui, tratando-se de uma biotech, é mais seguro dizer que é provável que existam emissões de novas ações.

As biotechs têm bastantes fatores negativos, mas um fator positivo que têm é que podem voar com o vento, isto é, ter valorizações incríveis baseadas exclusivamente em expetativas. Olhe-se por exemplo para a competidora Guardant, $206 M em Vendas, EBITDA negativo em $80 M e vale uns incríveis $7.127 M… apenas por causa das expetativas para o futuro e porque caiu no goto dos investidores. A Personalis tem sido um patinho feio desde o IPO, mas não são necessários resultados reais para que a tendência inverta, apenas que a história seja mais bem contada, ou chegue aos ouvidos certos 😉

10. Tipo de Play

A Personalis, pela taxa de crescimento das suas Receitas e perspetivas para o futuro, é uma growth play, tal como todas as plays que estão atualmente no TOP20 Small Caps US. Eu não iria estudar ações americanas apenas para comprar por 0,5 X aquilo que supostamente vale X, para isso já temos muitas plays na Europa.

Nos States estamos somente à procura e disponíveis para investir em empresas que tenham potencial para serem multibaggers, se possível tenbaggers. Das 3.000 ações do índice Russell 3000, 1.186 já foram pelo menos tenbaggers, pelo que não será assim tão difícil encontrá-las.

Difícil será provavelmente segurá-las por todos os altos e baixos até que se tornem tenbaggers (ou mais). No estudo de multibaggers que estou a realizar, verifico que, em média, o n.º de anos que decorre entre o ano do mínimo e o ano do máximo de uma multibagger é 21 anos e o retorno médio é de 29.980%, ou cerca de 300 bags. Até estive a confirmar várias vezes a fórmula porque parece inacreditável… penso que este número está influenciado por algumas outliers que tiveram retornos de milhões de %, ou muitos milhares de bags. O estudo ainda está no início, de qualquer forma aqui está um excel com a informação que já recolhi:

Ah, um “erro” que inflaciona aquela percentagem de retorno médio das ações que no mínimo foram tenbaggers é que a tabela está a considerar o mínimo histórico e o máximo histórico de cada ação para os cálculos e evidentemente é impossível comprar no mínimo histórico e vender no máximo histórico de cada ação… as odds disso acontecer serão certamente inferiores às de acertar no EuroMilhões. Na realidade, na prática, só será possível “sacar” uma parte, provavelmente não a maior parte, dos movimentos ascendentes das multibaggers.

11. Preço Ao Qual Venderia Hoje

Numa parte desta análise fui comparar a underdog, a Personalis, com a top dog, a Guardant. À partida o que me deixaria satisfeito seria que, já que ambas as empresas estão no mesmo mercado a desenvolver soluções para os mesmos problemas, que tivessem rácios de valorização semelhantes… dêem-me um Price to Sales Ratio de 35 ou um Price to Book Value de 8,7 (rácios da Guardant) e eu teria de me dar por satisfeito, porque na Biotecnologia tenho de reconhecer que sou um ignorante que não sabe mais do que fazer contas de dividir e comparar rácios.

Se a Personalis tivesse um PSR de 35, estaria cotada nos $72,93 e se tivesse um PBV de 8,7 estaria cotada nos $30,63. A média entre os dois dá $51,78, o que comparando com a cotação de fecho de sexta-feira, que foi $10,21, diz-me que estou a atribuir um potencial de fivebagger à Personalis. Mas esta é apenas uma análise inicial, que me indica que o potencial de retorno compensa o risco, mas que é muito pouco precisa em relação a esse potencial de retorno… é extraordinariamente difícil prever o futuro em qualquer empresa, mas ainda mais numa empresa de Biotecnologia.

De qualquer modo, à partida, fixo o PAQVH nos $51,78, depois logo se vê como os fundamentais se desenvolvem e o nível de conhecimento que poderei adquirir acerca da Personalis e das suas concorrentes.

12. Retorno Médio Anual

Admitindo que a Personalis valoriza mesmo até aos $51,78 e que demora dez anos a lá chegar, a taxa de retorno médio anual seria de 17,6%.

13. Visão a Longo Prazo

Se efetivamente, no futuro, tal como diz o ex-Presidente Bill Clinton, uma criança for vacinada contra os tipos de cancro que, segundo os seus 20.000 genes, será mais provável desenvolver na idade adulta isso realmente será uma vitória incrível na batalha contra o cancro, que como todos sabemos é um flagelo terrível da Humanidade.

Pensando nos $40 B de TAM e considerando que a Personalis é uma de cinco empresas a disputar este espaço, considerando que fica com 15% de quota de mercado, as suas Receitas seriam de $6 B, com uma margem líquida de 20% (normal nas biotechs), isso daria $1,2 B de Lucro anual. Aplico-lhe um PER médio de mercado de 18 (nessa altura a Personalis já seria uma empresa madura) e obtenho um Valor de Mercado de $21,6 B.

Considerando que o n.º de ações emitidas duplica (será preciso capital para aproveitar esta oportunidade), a cotação final seria de $345,6 e a Personalis teria dado uns 34 bags de lucro aos investidores de agora que a segurassem para o longo prazo.

Claro que estas visões a longo prazo são extremamente subjetivas e a realidade pode ser completamente diferente (tipo, muito pior) do que o imaginado. Mas, ainda que a incerteza seja quase total, prefiro pensar em grande, assim a 10 ou a 20 anos, do que fazer como os outros analistas, que dão price targets a 12 meses que invariavelmente são uns 10 ou 20% acima da cotação atual. Isso é para quê, para comprar a X e vender a 1,15 X, se tudo correr bem? E perder quanto, se correr mal?

Se tudo correr bem eu quero ganhar muitos bags, sem pagar qualquer imposto ou comissão no entretanto. Já que o risco é elevado, a recompensa potencial também deve ser elevada e numa play como a Personalis podemos sonhar com uma recompensa elevada.

A ideia do BoS US é investir em 20 ações diferentes com muito potencial de subida a longo prazo, acertar em algumas e não falhar completamente nas outras. A diversificação mantém o risco relativamente controlado, mas é preciso manter as ações enquanto as histórias de investimento se mantiverem válidas… especialmente as que sobem.

14. Conclusão

A Personalis vai entrar, com 5% do capital como é hábito, à cotação de fecho de amanhã, dia 16 de dezembro de 2019, no TOP20 Small Caps US

15. Códigos de Negociação

Disclaimer

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