O Confronto entre o Curto e o Longo Prazo

Em termos gerais, à partida, deve-se ter um Portfolio diversificado de ações fundamentalmente atrativas, que pertencem a vários setores e de empresas com dimensões distintas: nem só small caps, nem só large caps, pois é assim que se diminui o risco de investir em ações e se maximiza o potencial a longo prazo.

Após o Corona Crash – em que os mercados de ações europeus e americano caíram mais de 35% em menos de dois meses – existem naturalmente muitíssimas oportunidades para os investidores, especialmente aqueles que são versados na Análise Fundamental de Ações e que têm capital disponível para investir.

De entre o conjunto de investidores e analistas que procuram novas oportunidades de investimento há duas grandes correntes de pensamento:

A – Aqueles que investigam e procuram investir nas empresas que foram MENOS afetadas pela Crise, ou que de alguma forma podem beneficiar com ela;

B – Aqueles que investigam e pretendem investir nas empresas que foram MAIS afetadas pela Crise

À primeira vista a corrente A parece ser a mais sensata e útil, porém, após uma reflexão mais profunda, podemos chegar a uma conclusão diferente.

Partindo das componentes do S&P500, vejamos quais foram as 12 indústrias que subiram mais nos últimos 12 meses…

…e as 12 indústrias que desceram mais no mesmo período:

Podemos fazer aqui algumas distinções sobre aquilo que são tendências estruturais de longo prazo e aquilo que são tendências conjunturais que tenderão a inverter.

Nas 12 maiores subidas considero que as seguintes são tendências estruturais: Technology Hardware, Storage & Peripherals, Software e Semiconductors & Semiconductor Equipment. Estas 3 indústrias já estavam em crescimento antes do aparecimento do novo Coronavírus e assim continuaram.

Porém as outras 9 indústrias estão com procura mais elevada porque se apresentam como setores defensivos ou que podem beneficiar de alguma forma com o novo Coronavírus: Food & Staples Retailing, Health Care Technology, Household Products, Biotechnology, Internet & Direct Marketing Retail, Beverages, Food Products, Pharmaceuticals e Electric Utilities

Eu teria algum cuidado com estas 9 indústrias neste momento, porque estão a beneficiar de um efeito que não é duradouro em termos de longo prazo.

Em relação às 12 indústrias que mais desceram, também temos tendências estruturais e conjunturais.

As estruturais são: Energy Equipment & Services, Oil, Gas & Consumable Fuels, Distributors e Banks

Estas 4 indústrias já iriam cair de qualquer maneira… as que são relacionadas com o petróleo por causa da substituição por energias limpas e renováveis, as distribuidoras porque as suas margens são cada vez mais esmagadas pelas produtoras e retalhistas e os bancos porque, enfim, prestam serviços indiferenciados que estão a sofrer um processo de desintermediação e ainda não adaptaram a sua estrutura de custos às reais necessidades e procura.

As outras 8 são conjunturais e são as seguintes: Airlines, Automobiles, Diversified Consumer Services, Auto Components, Consumer Finance, Independent Power and Renewable Electricity Producers, Hotels, Restaurants & Leisure e Leisure Products

Os automóveis enfrentam um problema conjuntural que já vinha de trás e que foi agravado com o novo Coronavírus, que tem a ver com a passagem dos carros a gasóleo/gasolina para os elétricos e cada vez mais autónomos. Os investidores têm considerado que os consumidores iriam acabar por atrasar a compra de automóvel, à espera dos novos modelos elétricos e mais autónomos, até porque os automóveis a gasolina/gasóleo podem perder muito valor no mercado de usados (há opiniões divergentes sobre isto). Por isso os PERs desta indústria já estavam a ser bastante comprimidos e colapsaram com o Coronavírus porque as vendas de automóveis naturalmente caíram a pique. De qualquer modo são dois problemas conjunturais que deverão ser ultrapassados pela indústria automóvel nos próximos anos.

Em relação aos Serviços Diversificados aos Consumidores (pensemos em cabeleireiros, estiticistas, massagistas, etc), aos Hotéis e Restaurantes e aos serviços e produtos de lazer, parecem-me evidentemente situações conjunturais, que passarão com o eventual regresso à normalidade da economia e da sociedade.

Existem ainda duas situações muito específicas que me parecem proporcionar excelentes oportunidades nesta altura: as Airlines e as Cruise Lines.

Para as Airlines já temos um exemplo, o 11 de setembro de 2001. Apesar das restrições colocadas na altura (check in muito mais demorado), o tráfego aéreo continuou a aumentar quase ininterruptamente nos anos seguintes:

Infelizmente não tenho dados mais antigos, mas se me lembro corretamente, o tráfego aéreo também aumentou em 2002 e 2003. Entretanto enviaram-me um gráfico com mais dados, houve um ligeiro recuo em 2002 e regresso à tendência de crescimento em 2003:

Tudo indica que esta tendência de longo prazo irá continuar nos próximos anos/décadas, independentemente de 2020 ser um ano catastrófico para a indústria da aviação. Volto a afirmar que, na minha opinião, nenhuma airline cotada em Bolsa atualmente com um Valor de Mercado superior a $1 B irá à falência. Ainda hoje o Governo Britânico deu a mão à EasyJet, confirmando o que venho defendendo.

E a indústria dos Cruzeiros estava com uma tendência de crescimento sustentável…

…que não vejo motivos para não continuar no médio/longo prazo. Na realidade foram muito poucos os navios afetados pelo Covid-19 e os consumidores têm memória curta. Se assim não fosse, com os aviões que já caíram na história (em que quase sempre todos os passageiros morrem), ninguém quereria andar de avião e não é essa a realidade.

Em termos de curto prazo a solução para estas duas indústrias pode ser a que o nfsrod partilhou no Fórum:

Bastaria testar cada passageiro antes de entrar no avião ou navio e dessa forma assegurar que não havia nenhum infetado com o Covid-19 a bordo. Desta forma os passageiros iriam viajar com segurança e os destinos iriam aceitá-los sem problemas. Pode ser uma forma de acelerar o retorno à normalidade destas duas indústrias, que foram das mais afetadas. Indiretamente esta solução iria ajudar também a indústria dos Hotéis a regressar a uma semi-normalidade.

No BoS US estamos mais interessados em investir em ações destas indústrias mais afetadas do que das mais protegidas, porque procuramos a outperformance face ao mercado em geral em termos de longo prazo, sendo que o nosso benchmark é o índice Russell 2000.

Não nos interessa bater o mercado num determinado mês, trimestre ou mesmo ano, mas sim fazê-lo no longo prazo, ou seja, nos próximos 10 a 20 anos. Porque entendemos que andar a surfar cada onda, a saltitar de moda em moda, o que provoca é underperformance no longo prazo.

Neste caso houve um evento negativo extraordinário, uma externalidade, que provocou um efeito muitíssimo nefasto (para a saúde pública e particular de cada um dos infetados, é evidente, mas aqui estamos a escrever sobre ações) em bastantes empresas/indústrias, mas no longo prazo o mundo em termos económicos voltará ao que era antes, mas um pouco maior e melhor.

Tal como aconteceu após o Crash de 1987 e o 11 de setembro de 2001. Tal como aconteceu após a Grande Recessão de 2008/9. Numa tendência lenta de crescimento existem choques temporários que geram drawdowns e oportunidades, mas os investidores de longo prazo não perdem a seguinte referência: a tendência lenta de crescimento a longo prazo:

César Borja

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