Trabalhar na Taxa Média Anual de Retorno

1. Introdução

No artigo…

…vimos a importância da variável n, o n.º de anos de investimento e a da variável r, a taxa média de retorno anual.

Hoje vou identificar quatro estratégias que poderão contribuir para aumentar o r ao longo de uma vida de investimentos no mercado de ações.

2. Eventos Inesperados

Antes de mais, devo dizer que a reação dos Governos à ameaça do novo Coronavírus e o respetivo impacto económico, nas empresas e nos mercados, abalou os alicerces que vinha construindo ao longo dos últimos 10 anos.

E a queda do WTI Crude a valores muito negativos?

queda do WTI Crude a valores muito negativos

Nos 17 anos em que transacionei futuros nunca tinha visto preços negativos, nem imaginei que tal fosse possível!

A possibilidade de eventos inesperados – cisnes negros – que alteram por completo as perspetivas de empresas, de setores e de economias inteiras é algo que, infelizmente, temos de considerar nas estratégias de investimento.

A ideia de que o investidor Conhecedor precisa ser muito paciente e rígido numas situações e extremamente flexível e rápido noutras saiu reforçada.

3. Market Timing

O Market Timing pode ser utilizado, mas com algum distanciamento, no sentido que só mesmo em momentos de grande unanimidade é que funciona… em sentido contrário. Passo a explicar…

Os mercados, no médio prazo, não dependem dos Fundamentais macroeconómicos, mas sim do Potencial de Money In e Money Out do público investidor, que pode investir diretamente nas ações ou através de ETFs e/ou fundos de investimento em ações.

Quando o público está otimista e confiante, compra ações, pelo que já tem o dinheiro investido, ou seja, o dinheiro está dentro do mercado, está In. Nesta situação o potencial de money in é baixo e o potencial de money out é alto, portanto o mercado está vulnerável a quedas.

Inversamente, quando o público investidor está pessimista e corre a vender as ações e ETFs e a resgatar as suas unidades de participação nos fundos de investimento (como aconteceu em março de 2020), o potencial de money out é baixo e o potencial de money in é alto, ou seja, o mercado está propício a valorizações expressivas nos períodos seguintes.

Os Bancos Centrais têm também um papel considerável nesta dinâmica, pois podem aumentar em maior ou menor medida a massa monetária em circulação. Quando a Reserva Federal entra no mercado a comprar Trillions de dívida do Estado e das empresas (inclusive junk bonds), quem vende esses ativos financeiros fica com capital disponível para investir. Onde? Uma parte é canalizada para o mercado de ações, inflacionando o mercado e criando o wealth effect que tem um efeito reparador na confiança dos investidores e, em última análise, na economia.

O Potencial de Money In e Money Out é avaliado pelo Sentimento de Mercado e a atitude correta é a Opinião Contrária, isto é, em momentos em que o sentimento de mercado é muito otimista compensa ser pessimista (ainda que se possa ser incompreendido) e quando o sentimento é muito pessimista provavelmente será boa ideia ser otimista. A palavra chave aqui é “muito”, pois existe bastante subjetividade neste tipo de análise e só pode ser usada em momentos de grande extremismo.

Existem indicadores, como o VIX e o put/call ratio que em teoria trariam mais objetividade a este género de análises, mas por experiência própria não os aconselho, pois podem dar uma sensação de segurança e certeza que na realidade não existe.

Outros indicadores que medem o sentimento de mercado são os de valorização do mercado em geral, por exemplo o PER do índice, o Dividend Yield, o Price to Book Value e o Market Cap to GDP.

Nunca mais me esqueço quando, no final de 1999, fui jantar, no Clube Portuense, com o Fernando Braga de Matos, autor do livro Ganhar em Bolsa (a primeira edição é de 1993). Durante o jantar reparei que ele – apesar de ter lido muitos livros sobre Bolsa em inglês – só investia em ações nacionais e nunca tinha sequer olhado para o Nasdaq… quando eu lhe disse que o PER do Nasdaq estava em mais de 200 (era a bolha da internet) ele praticamente saltou da cadeira e exclamou: “isso vai ser um estoiro!!!”

E foi:

Gráfico do Nasdaq Composite (Bolsa Americana) na Bolha da Internet

Algumas empresas cotadas foram à falência (inclusive aquela em que eu trabalhava, a alemã T-Online, que fechou as suas operações em Portugal), mas as que ficaram cresceram, tornaram-se lucrativas e no dia 15 de janeiro de 2021 o Nasdaq estava a subir 1.084% desde esse mínimo de 2002:

Trabalhar na Taxa Média Anual de Retorno 1 - Borja On Stocks

4. Análise Fundamental de Ações Individuais

Para lá destes grandes ciclos de mercado existem ações subavaliadas e sobreavaliadas, empresas que crescem muito e outras que vão minguando…

A Análise Fundamental de Ações é muitíssimo útil para distinguir as ações que são fundamentalmente atrativas e aquelas que, nem mesmo numa fase ascendente do mercado em geral, têm boas possibilidades de valorização.

Por exemplo, foi no mesmo mercado – a Euronext Lisboa – e no mesmo período, que a Corticeira Amorim valorizou mais de 2.300% enquanto que as ações do BCP desceram 92%:

A melhor e a pior ação da bolsa portuguesa, Euronext Lisboa, dos últimos 10 anos

A Análise Fundamental de Ações é uma matéria complexa cuja explicação não cabe neste artigo, mas tenho um e-book publicado que é uma boa introdução:

Estive a reler o e-book, que tem 26 páginas e, modéstia à parte, contém bastante conhecimento valioso!

O grande desafio do analista fundamental, ou stock picker, é selecionar e investir em pelo menos algumas ações com um enorme potencial de valorização a longo prazo, as chamadas Tenbaggers, ou ações que valorizam mais de 1.000%. Se é daqueles que não acredita em Tenbaggers, apresento-lhe aqui um estudo que demonstra a existência de 1.186 Tenbaggers do passado nos mercados norte-americanos e se elas existiram em tal abundância no passado, é provável que continuem a existir no futuro.

Neste sítio tenho vindo a estudar qual era a situação fundamental de cada uma destas 1.186 ações quando estavam no fundo e no topo, de forma a descobrir padrões que me possam ajudar a identificar as tenbaggers do futuro, como por exemplo esta.

5. Reforços nas Correções

Selecionadas as ações fundamentalmente mais atrativas e construída a sua carteira de investimentos, uma forma de aumentar o seu é fazer reforços nas correções, ou seja, aproveitar os retrocessos de curto prazo para comprar mais ações a preços atrativos. 

Pode ter uma de duas estratégias:

– Reforçar mensalmente aos preços que estiverem: se forem mais baixos, melhor, se forem mais altos, enfim, a posição anterior foi valorizada;

– Pode poupar mensalmente, mas ir guardando o dinheiro em liquidez de forma a investir numa altura propícia, ou seja, quando o mercado em geral ou uma ação que considera atrativa vem significativamente abaixo.

O Warren Buffett utiliza esta 2ª hipótese, com a Berkshire Hathaway a ir guardando os lucros chorudos que recebe das empresas que detém integralmente para depois, quando o mercado vem muito abaixo, colocar o capital a funcionar adquirindo ações fundamentalmente atrativas, das que já detinha antes, ou de novas oportunidades.

Curiosamente neste evento negativo do novo Coronavírus, pelo menos por enquanto, ainda não há indicações de que Warren tenha investido uma parte da grande almofada de capital da Berkshire, provavelmente porque também os negócios da Berkshire precisam de preservar liquidez para sobreviverem nesta fase do grande confinamento, que não tem paralelo na História.

Nota: no dia 5 de julho Warren finalmente se decidiu a fazer mais uma grande aquisição, comprando os ativos de gás natural da Dominion Energy por $10 Billion.

6. Conclusão

Este artigo introduz algumas nuances na estratégia que vinha sendo aplicada no BoS nos últimos 5 anos. Como referi no início, o impacto económico do grande confinamento e a perplexidade de futuros com cotações negativas abalaram um pouco os meus alicerces e convicções, pelo que fiz uns ajustes ligeiros, já preparando o futuro a médio prazo.

No final das contas o que interessa não é se eu tenho ou não tenho razão nas posições que defendo, não é se me mantenho estrategicamente imutável ou não, mas sim que os Subscritores consigam preservar e valorizar o seu capital em termos de médio/longo prazo. Isso é que é importante.

César Borja

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