Reminiscências da bolha do ano 2000

Caros Investidores,

Uma das histórias que mais gosto de contar remonta a 1998, quando entrei na “sala de mercados” da Fincor da Duque de Palmela, em Lisboa (atualmente é a Patris Investimentos). Como era costume, estava apinhada.

Eu tinha lido o livro Ganhar em Bolsa pelo menos cinco vezes nos dois anos anteriores e com o fervor económico em torno da Expo 98, estava, naturalmente… bearish.

A certa altura, no meio da multidão de investidores otimistas, eu diria mesmo eufóricos a olhar para os ecrans, disse baixinho para um amigo que me acompanhava: “acho que a EDP vai descer 50%”.

Um homem, dos seus 50 anos, vira-se para mim com os olhos esbugalhados e em órbita e berra na minha cara, lançando perdigotos: “se a EDP vier novamente aos 4 vendo a casa e o carro e meto TUDO na EDP!!!”

Nos anos seguintes a EDP não só foi aos 4 €…

…como desceu 72% até ao mínimo de 1,3 €, pelo que espero que o senhor não tenha cumprido aquela intenção.

É preciso ver que eu quando fiz aquela afirmação não sabia qual era a capitalização bolsista da EDP, nem quanto vendia, nem quanto lucrava, nem qual era a saúde do seu Balanço. Fi-la por uma questão de market timing e acertei.

Avançando um ano até 1999, eu continuava bearish, à espera do próximo bear market e recessão económica e nessa altura tinha uma following bastante interessante, quase tão grande como agora, vá-se lá imaginar. Só que a bolha da internet finalmente chegou a Portugal e ações como a PT Multimédia, Pararede, Inparsa e Reditus começaram a disparar… os IPOs da Sonaecom, Impresa e Novabase estavam no horizonte e toda a gente estava muito entusiasmada.

Eu, que era apenas um macroeconomista e market timer que não percebia nada de Análise Fundamental de ações individuais, entrei na onda com um artigo cujo título era qualquer coisa deste género:

  • É preciso ganhar asas e acreditar na Nova Economia

Esta foi a “licença” que muitos dos meus seguidores pediam para finalmente atacar as ações da “nova economia” com fúria, que ainda subiram muitíssimo nos dias e semanas seguintes. Mas o CC, que tinha mais de 20 anos de experiência no mercado de ações, ligou-me logo e disse: “César, gosto muito de si e de ler o que escreve, mas este artigo foi o pior de sempre. Você está a recomendar ações cujas valorizações não têm o mínimo fundamento ou racionalidade económica. Vai ser um desastre!”

Eu não liguei muito ao CC, porque não compreendia o que ele dizia e porque o mercado, esse senhor soberano que tem sempre razão, provava que eu estava certo em estar otimista naquelas ações, pois se estavam a subir… havia um mundo novo à nossa frente, completamente dominado pela internet e os velhotes não percebiam nada da cena.

O pai de um colega meu no BolsaInvest era um milionário que tinha começado a investir recentemente em ações. Penso que ele acumulou a sua fortuna no ramo imobiliário, pois tinha um prédio inteiro junto ao Marquês de Pombal, em que alugava cada escritório por 2.500 €/mês e estavam todos arrendados.

A certa altura já ninguém estava contente com as ações nacionais e foi tudo para o Nasdaq… era o tempo da Cisco Systems, da Dell Computer, da JDS Uniphase e mais uma série de blue chips da moda. O bear market já estava em marcha, por isso as ações desciam mais do que subiam, pelo que o pessoal se virou para o day trading, longos e shorts, opções, futuros, etc.

Lembro-me especialmente de um dia em que a Cisco abriu em gap down e caiu abaixo dos $30 e toda a gente foi “obrigada” a comprar Cisco, pois era a mais blue de todas as blue chips, tinha sido recentemente a maior empresa do mundo. Toda a gente falava nisso e toda a gente comprou (eu não comprei, porque estava nos futuros). A ver se encontro esse dia no gráfico…

A Cisco ainda tinha mais 73% para cair até ao mínimo nos $8,12. Também me lembro que nessa zona dos $8 havia muita gente que receava a falência da empresa e não aguentou a pressão.

O pai do meu colega e amigo perdeu a maior parte da sua fortuna e ficou com uma depressão difícil de recuperar. Nos anos seguintes, quando falava com ele, dizia-me: “se eu algum dia voltar a investir em ações, vai ser em empresas de fundamentais sólidos, com PER baixo”. Eu fiquei um bocado… “eh pá, essas ações são tão aborrecidas, que seca”.

Fast forward até dezembro de 2020… ontem tivemos o IPO da DoorDash repleto de irracionalidade e hoje vamos ver o que irá acontecer na Airbnb (uma empresa pela qual nutro mais simpatia).

Ontem abri a possibilidade de eventualmente vir a investir em large caps norte-americanas e ações europeias de fora dos nossos core markets (Lisboa, Madrid, Paris e Amesterdão) quando analisei a FlatexDEGIRO, a dona da corretora online DeGiro:

Este artigo poderá ser o equivalente, mais de vinte anos depois, ao…

  • É preciso ganhar asas e acreditar na Nova Economia

…pelo que quero ressalvar que “abrir a possibilidade” não quer, de todo, dizer para investir agora. Significa apenas que me estou a disponibilizar para estudar muitas novas ações nos próximos anos.

É curioso que o S&P 500…

…está menos de 1% acima do que quando publiquei o Roteiro do próximo Bear Market, exatamente há um mês…

…mas parece que está muito mais acima, porque ações que eu tinha em carteira e recomendei a venda por uma questão de market timing continuaram a subir e algumas subiram mesmo muito no último mês. Isto só prova que essas ações estavam bastante subavaliadas e que teriam de subir muito mais do que a média para atingirem um estado de sobreavaliação.

Eu deveria ter tido mais paciência com essas ações, mas enfim, ficou a lição.

Conclusão

O mercado oscila entre a procura de growth e value e também é isso que causa os grandes bulls e bear markets.

Neste momento os investidores só procuram uma coisa: growth!

E estão dispostos a pagar qualquer preço, como se o preço fosse irrelevante. Mas, o preço não é irrelevante e até as ações da mais alta qualidade podem cair 50%, 60%, 70%, ou mesmo 80%, para corrigirem enormes estados de sobreavaliação.

Quando aqueles que procuram growth se esgotarem, ficarão os value investors para amparar a queda das cotações. Mas esses tipos estão sempre a gritar SHOW ME THE MONEY, que é o mesmo que dizer SHOW ME THE PROFITS e são muito exigentes em relação aos preços que estão dispostos a pagar.

Portanto, eu e os meus colaboradores vamos certamente analisar centenas de ações nos próximos anos, mas não vamos entrar, nem recomendar que se entre, em ações com preços irracionais.

Era só para esclarecer este ponto.

Atenciosamente,

César Borja

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