Quatro motivos para estar mais otimista

Bom dia caros Investidores,

Gostaria de começar por dar um pouco de contexto. Eu fui o analista de ações que publicou os seguintes e-books:

Resumidamente, os e-books defenderam que o topo do bull market atual teria sido entre os 3.600 e os 3.700 pontos do S&P 500, que ontem fechou nos 3.969 pontos:

Passaram quatro meses e o S&P 500 está 8,9% mais alto, pelo que é perfeitamente legítima a seguinte questão:

É altura dos bears como eu deitarem a toalha ao chão, ou faz sentido continuar a ter paciência?

Antes de mais, devo dizer que, apesar de ter estado bearish no mercado em geral, continuei a ter o Portfolio de ações americanas perto de fully invested, sendo que neste momento está mesmo 100% investido em small caps fundamentalmente atrativas. Isto acontece porque nós produzimos tantas análises que acabamos sempre por encontrar ações que são irresistíveis, por mais pessimistas que estejamos na economia e no mercado em geral.

Há uma batalha constante entre o micro e o macro e o micro tem acabado por prevalecer. É curioso que tenho estado a ler o Beating the Street, do Peter Lynch e a ele aconteceu-lhe o mesmo à saída da primeira Guerra do Golfo, em 1991. Ele – e os outros analistas – estavam muitíssimo preocupados com as dívidas geradas pela guerra e pensavam que o mercado fosse voltar a cair… porém, ao nível das ações individuais, o Peter continuou a investir em ações fundamentalmente atrativas e por causa disso salvou-se de uma severa underperformance.

Nós também nos salvámos, pois o TOP20 Small Caps US, que reúne as 20 ações cotadas na NYSE e Nasdaq que consideramos mais atrativas, está no máximo histórico, com uma clara outperformance em relação ao Russell 2000:

Nota: o S&P 500 subiu “apenas” 36,6% desde 15 de abril de 2019

Desde que publiquei o Roteiro do Próximo Bear Market, o S&P 500 subiu os 8,9% já referidos, mas o TOP20 Small Caps US valorizou 20,2%.

Isto não quer dizer que aquela tentativa de market timing não nos custou bastantes pontos em termos de performance. Custou, porque as ações fundamentalmente atrativas que eu tinha recomendadas e que foram vendidas por causa do market timing subiram muito mais do que aquelas que as substituíram.

Foi mais uma lição…

Mas a questão põe-se: “e agora?”

Agora, em primeiro lugar, há que reconhecer que o Stock Picking venceu novamente o Market Timing e que provavelmente mais vale mesmo ignorar a possibilidade de fazer Market Timing. Eu já levo 25 anos de experiência de Market Timing e aparentemente acabei de falhar, pelo que a probabilidade de um novato acertar é efetivamente baixa e mesmo acertando, poderá ser contraproducente, se o novato for atraído para produtos financeiros exóticos.

Em segundo lugar, há umas duas semanas que venho pensando em quatro fatores que me têm voltado a tornar mais otimista, ou pelo menos, não tão pessimista. São os seguintes:

1º – O PIB dos Estados Unidos deverá crescer entre 6% e 10% este ano

A passagem do pacote de estímulos da Administração Biden ($1,9 Trillion, com um cheque de $1.400 para cada americano) e a velocidade com que estão a administrar as vacinas contra a Covid-19 nos Estados Unidos têm levado os economistas a subir as suas previsões para o crescimento económico em 2021.

O Bank of America aponta para um crescimento de 6,5% e a Goldman Sachs de 6,8%, sendo que no 1º trimestre o crescimento anualizado deverá exceder os 10%.

Isto não significa que o S&P 500 irá subir – normalmente os topos do mercado são em fases de forte crescimento económico – mas não há qualquer perspetiva de recessão no horizonte a médio prazo. Os receios – que eu tinha – de double dip macroeconómico estão cada vez mais afastados.

2º – A dívida é astronómica. Mas, e a riqueza?

É interessante que no início de 2019 esperavam que a dívida pública dos Estados Unidos atingisse os $27 Trillion em 2023:

Porém, com o combate à pandemia, esse valor foi atingido no final de 2020 e agora já está acima de $28 T:

Não contando que uma parte desta dívida é detida por organismos também eles estatais ($6,1 Trillion), são 129,82% do PIB.

É um nível assustador, porém há o reverso da medalha, que é a riqueza em ativos que é detida pelo conjunto dos norte-americanos:

$130 Trillion. Se consideramos também o valor dos ativos detidos por entidades públicas, sobe para $158,6 Trillion:

Portanto, temos uma dívida pública devida a organismos não estatais de $22 Trillion e ativos totais no valor de $158,6 Trillion.

É esta relação que dá confiança à Reserva Federal para continuar a comprar a dívida emitida pelo Governo, mantendo as taxas de juro, apesar de tudo, controladas:

Afinal de contas, teoricamente, seria possível, com uma taxa de 13,9% sobre a riqueza, abater toda a dívida pública dos Estados Unidos.

3º – Aumento da produtividade na economia pós-Covid

Ainda é cedo para afirmar isto, mas a sensação que tenho tido é que a economia pós-Covid é mais produtiva. Há aqui uma série de tendências que possivelmente terão vindo para ficar:

  • O teletrabalho
  • O comércio eletrónico
  • As reuniões digitais
  • Comunicações e vendas por meios digitais, em vez de presencialmente

Estas tendências levarão, a meu ver, a um produto por hora trabalhada superior, o que levará a menos custos para as empresas e salários mais elevados para os trabalhadores. Já se começou a notar uma decalage entre as horas trabalhadas e o output:

Depois há aquela fatia do salário que cada trabalhador alocava aos custos de transporte (e, por vezes, estacionamento), que subitamente passou a ser rendimento disponível.

4º – Ações que eram só fugazzi tiveram drawdowns de 50%

Uma das razões que me deixava pessimista era ver ações sem qualquer base fundamental a subirem muitíssimo, apenas por causa de um elevator pitch simples e potente, que ecoava bem nos ouvidos do público investidor. Essa situação denotava a presença de uma multidão de recém-chegados ao mercado e quando esses inexperientes chegam, normalmente, estamos perto do topo.

Porém, nas últimas semanas, essas story stocks tiveram drawdowns bastante violentos, o que me diz que a racionalidade económica está de volta ao mercado. A bolha não estoirou, mas desinchou.

Conclusão

Não deixei de recear um novo bear market, mas tenho encontrado estes motivos para ficar mais otimista em relação à direção do mercado em geral. Na realidade o que eu gostaria de ser era agnóstico e focar-me apenas nos fundamentais intrínsecos de cada empresa, pois esses é que podem dar segurança aos investidores.

Independentemente das perspetivas que cada um tiver para o mercado em geral – e todas são respeitáveis – penso que o mais importante é manter-se no mercado de ações e continuar sempre à procura de boas oportunidades de investimento, daquelas que são tão irresistíveis que superam o pessimismo que nós, portugueses, muitas vezes temos.

Cumprimentos a todos e desejos de bons investimentos!

César Borja

This Post Has 2 Comments

  1. maraujo

    Olá César,
    Mais uma vez, um artigo excecional e a coragem de justificar com grande clareza os pontos de vista de um grande analista que te considero. Tenho e não me canso de o dizer, aprendido todos os dias mais e mais com o BoS.
    Obrigado pelos teus insights, que me fazem estar na bolsa até morrer!
    Um grande abraço

  2. ruimarreiros

    Eu compartilho da tua opinião, mesmo em bear market existem sempre empresas a fazer dinheiro, contudo a dificuldade é encontrar essas empresas e ai espero que faças o teu trabalho, analisar empresas e encontrar empresas com bons fundamentos. Continua com o teu bom trabalho que estamos cá para te apoiar.

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