Quatro exemplos de dupla recessão

Caros investidores,

Várias vezes referi, em artigos, análises e comentários no Fórum do Borja on Stocks, que espero um double dip macroeconómico, sem explicar cabalmente o que isso significa. Neste texto vou tentar esclarecer esta temática, dando quatro exemplos históricos. No final vou escrever também um pouco sobre a reunião da Reserva Federal de ontem.

Uma recessão económica significa dois trimestres consecutivos de diminuição do PIB real e um double dip é uma dupla recessão, com uma expansão efémera pelo meio:

double dip ou uma dupla recessão

Neste momento estamos, no meu entender, na brief recovery.

Esta é uma visão contrária à da maioria e ao senso comum, pois a pandemia terá sido um choque exógeno que, com as vacinas, se dissipará naturalmente. Esta também foi a minha visão até maio de 2020, porém nessa altura, mesmo prevendo que o S&P 500 ainda iria a novos máximos históricos (como efetivamente veio a acontecer), tendo em conta o endividamento brutal de famílias, empresas e Estados, comecei a considerar que uma segunda recessão seria inevitável.

A contrabalançar esta visão temos os bancos centrais, nomeadamente o BCE e a FED, que mais não fazem do que acomodar a emissão de mais dívida, proporcionando liquidez ao sistema financeiro. Mas liquidez não é o mesmo que capital.

Esse é outro tema que abordarei no final, agora quero apenas mostrar quatro duplas recessões da história, para que os meus leitores encarem essa possibilidade.

1ª –  Zona Euro

A Zona Euro teve uma recessão brutal em 2008/9 (que foi sentida em praticamente todo o mundo)…

Dupla recessão na Zona Euro - 2010/2012

…a que se seguiu uma recuperação alimentada por gastos orçamentais, o que levou a uma segunda recessão em 2012, desta vez menos pronunciada.

2ª – Estados Unidos

Os Estados Unidos entraram em recessão em 1980 e, após uma recuperação bastante fulgurante…

Dupla recessão nos Estados Unidos - 1980/1982

…caíram novamente em recessão em 1981/82.

3ª – Pandemia de 1918

É curioso que na pandemia anterior, a Spanish Flu de 1918, houve uma dupla recessão:

Coincidentally, the shortest period of time between recessions occurred in the aftermath of the 1918 Spanish Flu pandemic. There was a short recession caused in part by the end of the war and in part by the pandemic from the summer of 1918 through the spring of 1919.

This was followed up 10 months later with the depression of 1920-1921 which lasted a year and a half (which in turn was followed by the Roaring 20s).

Nessa ocasião o índice Dow Jones também fez um padrão Irregular Expanded Flat, quebrando primeiro o máximo…

…e depois o mínimo, antes de continuar a sua ascensão de longo prazo.

Poderá o S&P 500, caso venha aí uma segunda recessão, ir novamente lá abaixo e quebrar o mínimo do corona crash?

Poderá o S&P 500, caso venha aí uma segunda recessão, ir novamente lá abaixo e quebrar o mínimo do corona crash?

É pelo menos uma possibilidade, com precedente histórico.

4º – Japão

O Japão, apesar de ter taxas de juro perto de zero e mesmo negativas há muitos anos…

Evolução das taxas de juro no Japão que estão perto de zero e mesmo negativas há muitos anos...

…e do Bank of Japan ter desenvolvido fortes programas de compras de títulos (quantitative easing) ao longo de mais de 15 anos…

…teve três recessões duplas nos últimos vinte e cinco anos:

três recessões duplas no Japão nos últimos vinte e cinco anos:

Portanto, lá porque o Jerome Powell ontem disse o que disse…

…não quer dizer que não haja uma segunda contração económica.

É curioso que agora são poucos os que falam de défice orçamental…

…quando este está nos $3,13 Trillion, ou seja, 15% do PIB dos Estados Unidos em 2020, o défice mais elevado de sempre.

No statement de ontem o FED disse que iria continuar a comprar $80 B de Treasury Securities (obrigações do Estado) e $40 B de agency mortgage backed securities (títulos de crédito hipotecário) por mês, o que dá $120 B por mês, ou $1,44 T por ano. Ainda fica a faltar um bom bocado para tapar o buraco, mas o mais importante é que este dinheiro tem de ser pago de volta ao FED, tal como seria a qualquer outro investidor.

Apesar destas compras, desde junho de 2020 que o Balanço do FED não está a expandir-se, provavelmente porque ao mesmo tempo que compra $120 B de títulos por mês, também vai recebendo mensalmente uns $120 B de títulos que chegam à maturidade:

Balanço do FED

Na press conference de ontem, o FED Chairman Jerome Powell diz, entre muitas outras coisas, o seguinte:

Portanto, pensar-se que estes empréstimos do FED irão impulsionar a economia e o mercado de ações no médio/longo prazo é algo falacioso. A liquidez serve para atenuar os problemas económicos no curto prazo. Mas não resolve o problema de longo prazo, neste caso até o agravou, pois permitiu uma acumulação de dívida sem precedentes:

Evolução da dívida dos US desde 2012

Perspetivas

Nos próximos meses teremos um fator positivo, que é a campanha de vacinação contra a Covid-19, que em princípio trará mais confiança aos agentes económicos.

Por outro lado a eventual baixa do n.º de casos e óbitos de covid-19 fará com que haja menos justificação para os estímulos fiscais e monetários. Algures no tempo o foco deverá voltar à necessidade de baixar o défice orçamental, controlar a dívida pública, parar com os cheques estímulo e terminar as moratórias.

Nessa altura uma segunda recessão não me parece apenas possível, mas provável. E o mercado antecipa a economia em 6 a 12 meses, pelo que pode começar a descontar esse cenário a qualquer momento.

Entre cá e lá temos vários confinamentos na Europa e não sabemos se uma das primeiras medidas de Biden, quando tomar posse a 20 de janeiro, não será anunciar um confinamento geral nos Estados Unidos. Isso não sei, pois é algo imprevisível… sabe-se lá o que os políticos vão fazer.

Conclusão

A reação inicial do mercado à reunião da Reserva Federal de ontem não me diz nada. As perspetivas são sombrias e o S&P 500 está extremamente sobreavaliado e vulnerável a um drawdown muito significativo.

É necessário continuar com uma percentagem elevada de Cash, investindo uma percentagem não muito expressiva em ações contra-cíclicas ou de indústrias de refúgio, como as mineiras de Ouro e Prata. Por falar em Prata, está bem bonita:

Evolução do preço da prata

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