Ao escolher uma corretora, deve avaliar não só quanto custa investir, mas também quanto poderá custar sair.
Mudar de corretora pode parecer uma decisão simples: basta transferir os investimentos de uma plataforma para outra, mantendo as mesmas ações. No entanto, quando essa carteira inclui vários títulos e diversos mercados, o processo pode envolver custos elevados, prazos distintos e limitações que nem sempre são evidentes à partida.
Neste artigo, analisamos o processo de transferência de uma carteira simulada composta por 40 posições em ações inteiras, distribuídas entre os mercados dos Estados Unidos e da Europa, nomeadamente Lisboa, Madrid e Amesterdão. Para isso, são comparadas seis instituições — DEGIRO, XTB, Interactive Brokers, Trade Republic, Trading 212 e Activo Trader — tendo em conta os custos de entrada e saída, os prazos, a burocracia, o tratamento das ações fracionadas e as principais limitações aplicáveis.
O objetivo é perceber até que ponto a escolha da corretora pode influenciar o custo e a facilidade de transferir uma carteira de investimentos.
Cenário de simulação
A carteira simulada tem 40 posições em ações inteiras:
- 20 ações cotadas nos Estados Unidos (NYSE/Nasdaq);
- 20 ações europeias, distribuídas por Lisboa (7), Madrid (7) e Amesterdão (6).
Premissas usadas em todos os cálculos:
- A transferência é feita em espécie, sem vender as ações
- As contas de origem e destino pertencem ao mesmo titular
- Custos de terceiros, custodiantes, impostos e outros encargos são identificados separadamente quando não estão incluídos
- A carteira usa apenas ações inteiras, mas há uma nota sobre o tratamento de frações em cada corretora
Tabela de custos estimados de transferência

Nota: valores estimados com base nas tabelas de preços publicadas pelas corretoras em 2025/2026. Podem acrescer custos de terceiros, custodiantes e impostos. A DEGIRO não publica valores para Madrid e Amesterdão. A Interactive Brokers não publica tarifa única para ações europeias. A Trade Republic e a Trading 212 indicam 0 € de comissão própria, mas podem existir custos de terceiros.
DEGIRO
Plataforma de investimento do grupo flatexDEGIRO; em Portugal opera através da sucursal neerlandesa do flatexDEGIRO Bank SE.
Entrada: gratuita
Saída: Os custos consistem em 20 € fixos juntamente com uma taxa externa da bolsa por posição, de acordo com opreçário. Os custos distribuem-se, por bolsa, da seguinte forma:
- Bolsas dos Estados Unidos: 66 € por posição
- Euronext Lisboa: 65 € por posição
- Bolsas de Londres: 64 € por posição
- Tradegate: 22,4 € por posição
Os 65 € e os 66 € resultam, respetivamente, de 20 € de comissão da DEGIRO mais 45 ou 46 € de taxa externa.
Como se processa: o cliente preenche, assina e envia o formulário para transferencias@degiro.pt. A assinatura pode ser física ou digital.
Prazo: até 3 semanas, sujeito a fatores internos e externos.
Frações: a DEGIRO não oferece ações fracionadas.
Limitações: não são transferidos preços de compra, saldos de caixa nem perdas acumuladas. Não pode existir mudança de titularidade beneficiária. Os produtos têm de estar disponíveis na corretora de destino.
Impacto na carteira:
No contexto desta simulação, estima-se que o custo total seja de cerca de 2620 €, distribuído da seguinte forma:
- 20 ações americanas: 20 * 66 € = 1320 €
- 20 ações de Lisboa: 7 * 65 = 455 €
A DEGIRO não divulga informação oficial no seu site quanto aos custos de transferência de ações de mercados espanhóis e holandeses, pelo que apenas conseguimos confirmar os 455 € de custos se as ações europeias forem portuguesas.
O custo total da transferência da carteira será igual ou superior a 1775 € (1320 € + 455 €), dependendo dos custos de Madrid e Amesterdão.
XTB
Corretora de origem polaca, com presença internacional. Disponibiliza ações, ETFs, derivados e outros instrumentos através de uma plataforma digital.
Entrada: a XTB não cobra comissão própria.
Saída: O site da XTB divulga o seguinte:
- Regra geral de 25 € por ISIN
- Ações cotadas em Espanha: 0,1% do valor da posição por ISIN, com mínimo de 100 € por ISIN
Como se processa: a comissão é debitada da conta de negociação onde os ativos estão registados. O cliente inicia o processo na aplicação, na opção “Transferir ações, ETFs para a XTB”, indica a corretora atual, o número de conta e os títulos, e informa também a corretora de origem.
Prazo: até 30 dias desde a apresentação do pedido.
Frações: direitos fracionários não podem ser transferidos para outra entidade.
Limitações: a transferência pode ser recusada pela XTB ou pela corretora de origem. Direitos fracionários e CFDs não são transferíveis. A tarifa de saída depende do ISIN e as ações espanholas seguem uma regra diferente.
Impacto na carteira:
No contexto desta simulação, estima-se que o custo total seja de cerca de 1525 €, distribuído da seguinte forma:
- 20 ações americanas: 20 * 25 € = 500 €
- 13 posições em Lisboa e Amesterdão: 13 * 25 = 325 €
- 7 posições em Madrid: mínimo de 7 * 100 € = 700 €
O custo da carteira completa totaliza, no mínimo, 1525 €. Se uma posição espanhola valer mais de 100.000 €, 0,1% ultrapassa o mínimo de 100 €.
Interactive Brokers
Corretora internacional de origem norte-americana, com acesso a mercados globais e diferentes métodos de transferência de posições.
Entrada: a IBKR aceita transferências de posições através do Client Portal. Para títulos americanos, o processo é gratuito do lado da IBKR (via ACATS, o sistema automático dos EUA). Para títulos europeus, o processo é feito manualmente entre as duas instituições e não tem tarifa única publicada.
Saída: para títulos americanos, a transferência é gratuita do lado da IBKR, desde que a corretora de destino seja membro da DTC (o sistema central americano). Para títulos europeus, o custo depende da corretora de destino, do mercado e do custodiante.
Custos: 0 € de comissão própria da IBKR para transferências americanas elegíveis. Para ações europeias, não existe tarifa única publicada — tem de ser confirmado caso a caso.
Prazo: para ACATS, a IBKR indica normalmente 4 a 8 dias para títulos americanos e dinheiro em USD. Títulos não americanos podem demorar mais. Para ações europeias, não há prazo normal único publicado.
Frações: a IBKR permite negociar frações de ações e ETFs elegíveis, mas não aceita transferência de frações.
Limitações: devido à falta de informação disponível, é difícil determinar de forma concreta os valores associados à transferência de posições para fora da IBKR. O ACATS pertence ao circuito americano e não se aplica automaticamente às ações europeias.
Impacto na carteira: 20 ações americanas = 0 € de comissão própria (se qualificar para ACATS). 20 ações europeias = tem de ser confirmado com a corretora.
Trade Republic
Plataforma de investimento e banco de origem alemã, orientada para operações digitais com ações, ETFs e outros produtos.
Entrada: a TR aceita transferências de uma conta de títulos. É possível transferir a conta inteira ou apenas posições individuais. O pedido é iniciado no centro de ajuda da aplicação, na área de património e transferência de títulos. A comissão própria publicada para a entrada é 0 €.
Saída: A TR cobra 25 € por título transferido (por ISIN), a que podem acrescer custos externos não discriminados. Fontes consultadas divergem quanto a esta comissão — a documentação de preços mais antiga da TR indicava transferência gratuita, mas fontes mais recentes (2026) confirmam de forma consistente os 25 € por ISIN, pelo que assumimos este valor como o atual.
Custos de terceiros: podem existir e dependem do tipo de título, dos depositários estrangeiros e das características do instrumento. Não está publicado um valor discriminado para NYSE/Nasdaq, Lisboa, Madrid e Amesterdão.
Prazo: uma transferência de saída deve normalmente demorar até três semanas depois da receção da ordem. O prazo também depende do custodiante de destino.
Frações: numa transferência total da carteira, só saem as unidades inteiras — as frações ficam na conta da TR.
Limitações: a TR não cobra comissão própria, mas podem existir custos de terceiros. O tratamento das frações numa saída não está claramente explicado na documentação consultada.
Impacto na carteira: para 40 ações inteiras elegíveis, a comissão própria é de 1000 € (40 * 25€), excluindo possíveis custos externos.
Trading 212
Plataforma digital de investimento de origem britânica, com entidades reguladas no Reino Unido e na União Europeia.
Entrada: a Trading 212 aceita transferências de ações e ETFs elegíveis. O cliente inicia o pedido na aplicação, seleciona “Portfolio transfers”, escolhe os ativos e assina o pedido eletrónico. A lista de corretoras suportadas aparece quando o pedido é iniciado. A comissão própria de entrada é 0 €.
Saída: a Trading 212 aceita transferências de ações e ETFs elegíveis para outra corretora. A conta de origem e a conta de destino têm de pertencer ao mesmo titular. A comissão própria de saída é 0 €. A corretora de destino pode cobrar.
Prazo: para contas Invest da Trading 212 EU GmbH e da Trading 212 UK Ltd., a plataforma indica como objetivo concluir a maioria das transferências em 21 dias. Para outras entidades Invest, indica até 30 dias.
Durante o processo: o cliente fica impedido de comprar, vender ou gerir os investimentos.
Frações: a Trading 212 só transfere ações inteiras. As frações não podem ser transferidas em espécie; têm de ser vendidas e o dinheiro é tratado separadamente.
Limitações: apenas ações e ETFs elegíveis podem ser transferidos. As frações não são transferíveis em espécie. A conta de origem e a conta de destino têm de ter o mesmo titular. A lista de corretoras suportadas só é confirmada quando o pedido é iniciado na aplicação. A entidade jurídica da conta portuguesa pode influenciar a disponibilidade e o prazo. Durante o processo existe bloqueio temporário da negociação.
Impacto na carteira: para 40 ações inteiras elegíveis, a comissão própria da Trading 212 é 0 €.
Activo Trader
O Activo Trader é a plataforma de negociação do ActivoBank, o banco português que disponibiliza acesso a ações e outros valores mobiliários.
Entrada: o ActivoBank disponibiliza um formulário de transferência de valores mobiliários. O preçário indica transferência para o ActivoBank isenta para títulos integrados e para títulos internacionais.
Para títulos não integrados, apresenta escalões por quantidade: 7,50 € até 100 títulos, 25 € até 1000 títulos, 75 € até 5000 títulos, 150 € até 10000 títulos e valores superiores para quantidades maiores.
Saída: Para transferências sem mudança de titularidade: 0,60% do valor, com mínimo de 48,50 € por ISIN. Levantamento de valores mobiliários: 7,50 € por ISIN.
Como se calcula: o mínimo de 48,50 € aplica-se por posição/ISIN até ao valor de posição de 8083,33 €, porque 0,60% de 8083,33 € corresponde aproximadamente a 48,50 €.
Prazo: não divulgado; a confirmar diretamente com o ActivoBank.
Frações: Não é possível transferir ações fracionadas diretamente de ou para o ActivoBank.
Limitações: a entrada e a saída têm regras diferentes. A entrada de títulos não integrados usa escalões por quantidade. A saída usa 0,60% por ISIN, com mínimo de 48,50 €. A aplicação cumulativa dos 7,50 € por ISIN de levantamento deve ser confirmada com o ActivoBank.
Impacto na carteira:
- 20 ações americanas abaixo do limiar = 20 × 48,50 € = 970 €.
- 20 ações europeias abaixo do limiar = mínimo de 970 €.
Total: 40 × 48,50 € = 1940 €. Adicionando o valor do IVA, obtém-se um custo total mínimo de 2386 €. Se alguma posição ultrapassar 8083,33 €, aplica-se 0,60% sobre o valor dessa posição.
Conclusão
A análise das seis corretoras mostra que o custo de transferir uma carteira de ações depende do mercado onde os títulos estão cotados e da própria corretora.
Um dos aspetos mais relevantes encontrados foi a diferença na informação disponível para ações dos EUA e da Europa. No caso da Interactive Brokers, por exemplo, as transferências de ações americanas elegíveis através de ACATS apresentam condições e prazos claramente definidos, enquanto para as ações europeias os custos dependem do caso concreto.
Apesar de esta diferença não permitir generalizar conclusões para todos os mercados, mostra que a transferência de uma carteira internacional pode ser mais complexa do que aparenta. A estes custos acrescem limitações que não se resolvem com dinheiro: frações não transferíveis, titularidade que tem de coincidir, produtos indisponíveis no destino e bloqueios temporários de negociação.
Comentário do César
Transferir uma carteira de ações de uma corretora para outra parece-me ser um pesadelo, por três motivos principais:
- Os custos
- A impossibilidade de transacionar os títulos durante o processo, que pode ser longo
- Os problemas que podem ocorrer
Parece-me mais simples e menos arriscado vender tudo na corretora de origem, transferir o dinheiro para a conta bancária, transferir o dinheiro para a corretora nova e voltar a comprar as ações todas. Este processo todo pode ser executado em cerca de uma semana.
Claro que podem existir exceções e já sei o que estão a pensar: “e se eu tiver uma ação em que estou a ganhar muito e não quero vender para não ter de pagar impostos sobre mais-valias?”
Nesse caso poderá fazer sentido transferir apenas esse título da corretora antiga para a nova.