Da necessidade de Feedback

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Antes mesmo de começarmos gostaria que dedicassem um minuto a ler a seguinte frase:

E já que estamos nisto, podem também ler esta:

Posto isto, devo dizer que comecei a investir há pouco mais de um ano e ainda não passei por um Bear Market, nem vi as minhas convicções serem testadas de forma profunda. Não sei como reagirei quando isso acontecer, não sei se a convicção que tenho nas empresas que detenho é suficiente para as ver cair 30% ou 50% e aguentar firme tais posições. Quero acreditar que sim, mas só o tempo o dirá. Referida a minha inexperiência e curta vida como investidor, há algumas coisas que quero partilhar com vocês.

Nestas férias estava eu sentado numa esplanada com uns amigos quando reparei numa criancinha dos seus 3 anos a andar por ali de um lado para o outro. Os pais estavam despreocupados na mesa ao lado da minha, bebiam uma cerveja enquanto conversavam com um amigo e a crianca ora ia, ora vinha ao sabor da sua curiosidade. Estava-se mesmo a ver que mais volta menos volta ia acabar por cair. Não demorou mais de dois minutos. Como qualquer outra criança que se estatela no chão, levantou a cabeça, olhou imediatamente para os pais à procura de uma reação, algo que lhe dissesse como se devia comportar. Os pais lançaram-lhe um olhar para ver se tinha sido grave, lá acharam que não havia motivo para preocupações e continuaram à conversa. Como o que a criança queria era continuar a brincar, e vendo a despreocupação dos seus pais, levantou-se e continuou a brincar.

A esta altura o leitor deve estar a pensar porque motivo estamos numa página dedicada ao investimento em ações a falar de crianças e de trambolhões, mas como já vai ver, existe um paralelismo entre a brincadeira desta criança e o mundo do investimento. Aguente só mais um pouco.

Quando somos crianças, a forma como encaramos o mundo é em grande parte moldada pela forma como os nossos progenitores veem o mundo. Tudo à nossa volta é novo, temos curiosidade em descobrir o que faz aquele copo, e aqueles óculos, existe até aquela fase em que descobrimos o mundo com a boca. Esta criança, ao olhar para os pais, buscava uma pista sobre como se devia comportar. Se os pais ficassem muito preocupados e corressem para a amparar, o mais provavel seria desatar num choro de mimo, mas como os pais não ligaram nenhuma e provavelmente assim o fizeram em outras situações parecidas, a criança achou que não seria necessário recorrer ao choro e o melhor era continuar a descobrir o mundo à sua volta.

Quando crescemos e vamos para a escola, temos aí ainda mais uma torrente de fontes de avaliação dos nossos conhecimentos e comportamentos. Os conhecimentos são constantemente avaliados, desde as ciências exatas ao desempenho físico, passando pelas Artes ou a História. Há os que têm boas notas a tudo, os que são muito bons numa coisa e um desastre noutra, os que são um desastre em tudo, etc, etc. Frequentemente temos testes que nos dizem o quão bons somos ou o quão preparados estamos em determinado assunto. Temos uma forma de medir no curto prazo se o nosso esforço em compreender e assimilar determinado conhecimento foi suficiente ou não.

E não é só dentro da sala de aula que temos este feedback. Lá fora, nos intervalos entre aulas existe outro mundo inteiro de teste e classificação. Seja nas relações amorosas, no desporto ou nas brincadeiras com os demais. Quando terminamos a escola, continuamos a ser avaliados pelos nossos pares ou superiores. Ou é um elogio porque acabámos o projeto no prazo limite, ou uma promoção porque superámos constantemente as expetativas, ou uma crítica porque não fomos capazes de cumprir um objetivo, etc, etc. Continuamos a ter constante feedback acerca das nossas capacidades e feitos. E isto continua pela vida fora, seja nos circuitos pessoais ou profissionais.

 Já no mundo do investimento isto nem sempre acontece. Quando somos investidores, especialmente os investidores a tempo inteiro, gestores de fundos, investidores privados, gestores de Family Offices entre outros, o feedback loop transforma-se completamente, ele estiiiiicaaaaaaaaaaaa. Deixamos de ter um superior a quem reportar e em muitos casos colegas a quem nos comparar. Para conseguirmos fazer melhor do que toda a gente (o Mr. Market do Ben Graham), temos que frequentemente tomar uma posição contrária aos demais. O que se chama na gíria do investimento como ser um contrarian. Temos que ter a convicção para aguentar as nossas próprias ideias, muitas vezes contra tudo e contra todos. Temos que estar preparados para manter uma opinião contrária aos demais por muito tempo. É frequente que uma determinada empresa/ação só seja reconhecida 1 ou 2 anos após a nossa decisão de a comprar.

A paciência extrema é um traço comum a todos os grandes investidores. Só quando esticamos o nosso horizonte temporal para anos em vez de dias ou meses é que conseguimos dar oportunidade a que os demais reconheçam algo que nós reconhecemos muito antes, ou que a empresa em questão atinja os objetivos a que se propôs. E alguns anos é muito tempo para se manter uma convicção contrária à da maioria das pessoas. O mundo do investimento está cheio de excelentes analistas que nunca chegaram a ser grandes investidores. Uma coisa é saber analisar um investimento/empresa, outra é ter a convicção para o manter durante anos, muitas vezes a perder dinheiro.

 Tal como na analogia da criança à procura da reação dos pais, nós estamos treinados para ter um constante retorno sobre as nossas ações. Não estamos treinados para uma privação de feedback. Tal como dizia o nosso Agostinho da Silva, as pessoas são treinadas para ter um emprego. Quando deixam de o ter não sabem o que fazer. Não foram ensinadas para simplesmente “ser”. Não vamos tão longe ao ponto de dizer que um investidor é igual a um desempregado, mas o paralelismo é grande. O pesar da incerteza sobre o futuro é similar. O facto de passarem muitas vezes anos para que uma convicção seja validada ou invalidada, é algo que obriga o investidor inteligente a muita disciplina comportamental. Como dizia Warren Buffett, este é um traço da personalidade que ou se tem, ou é melhor não ser investidor.

É necessário um controlo da mente muito grande para se conseguir sobreviver à inação. No seguimento do que dizia Buffett quando dizia que a bolsa é um mecanismo de transferência de riqueza dos impacientes para os pacientes, muitos investidores viram-se para o curto prazo. A inação é dificilima de suportar. É próprio da natureza humana procurar gratificação instantânea e confirmação dos seus pares. Por isso é que muita gente está constantemente a ver as cotações das ações, e é por isso que existem departamentos de research a fornecer opiniões sobre a mesma empresa todas as semanas, ou fóruns na internet onde vamos verificar a opinião dos outros para validar as nossas próprias convicções. O Homem não lida bem com o ficar quieto e esperar:

 

Agora, se perguntarem a qualquer bom investidor se ele ou ela preferia que toda a gente visse a coisa da mesma maneira, a resposta provavelmente seria Não! O que faz com que se encontrem pechinchas nos mercados é exatamente essa inquietude da mente humana. O receio de manter uma convicção quando está tudo assustado, a incapacidade de ir contra a maré quando o mundo parece desmoronar.

Assim sendo, o investidor inteligente deve estar perfeitamente consciente desta sua necessidade de ação, sendo necessário e fundamental saber contornar tais impulsos para seu beneficio. Manter a atividade elevada por forma a manter a guarda e não para a desfazer. Em vez de estarmos preocupados com as cotações, uma boa forma de nos mantermos despertos e saciarmos a necessidade de ação é focar-nos no negócio subjacente. Ter como objetivo conhecer as nossas empresas melhor do que a maioria das pessoas. Se possível, ir atrás da equipa de gestão, fazer-lhes perguntas, ir conhecer as fábricas, os clientes, a concorrência, estudar casos de sucesso na mesma industria, talvez mais importante, estudar casos de fracasso na mesma industria. Tudo isto vai-nos fazer atingir dois objetivos de uma assentada: Em primeiro lugar vai  ajudar-nos a saciar essa necessidade de ação de curto prazo e a não estarmos preocupados com coisas que não interessam. Por outro lado vai fazer com que conheçamos em profundidade a empresa em que investimos, levando a que não estejamos tão dependentes do feedback externo, conseguindo manter a convicção quando os demais se assustarem.

Manuel Feijão Maurício