Mohnish Pabrai! … Quem?


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O comum dos mortais fica contente quando encontra um investimento que rende 8% ao ano. Provavelmente, o mesmo comum dos mortais, torcerá o nariz quando alguém lhe fala de investimentos que podem duplicar ou triplicar o seu dinheiro. Mas há investidores que acham que 8% é muito aborrecido, e procuram investimentos que rendem 15%, 20%, 50% ao ano. Um deles é Mohnish Pabrai, um dos investidores mais acarinhados do mundo. Qual a razão pela qual as pessoas gostam tanto de Mohnish? Primeiro, porque faz o investimento parecer tão simples que passamos a acreditar que é fácil. Segundo, porque é um excelente orador que não perde a oportunidade de explicar a simplicidade da sua filosofia.

De Engenheiro a Gestor de Milhões

Mohnish é natural da India e emigrou para os EUA na década de 80 para estudar Engenharia. Trabalhou uns tempos no sector de IT até que decidiu fundar a sua própria empresa. Começou a direcionar as suas energias para a criação da sua empresa enquanto ainda trabalhava por conta de outrém. Já aqui se notava a sua aversão ao risco. Nessa altura de transição “Trabalhava apenas o necessário para não ser despedido”, admite sorridente. Avançando uns anos, Mohnish vende a sua empresa e encaixa cerca de 1 Milhão de dólares. Acidentalmente, como acontece com muitas das coisas boas da vida, foi na mesma altura que descobriu o livro que iria mudar o seu mundo:  “Buffett – The making of an american capitalist“. Terminado o livro, passa para as “Buffett Partnership Letters“, as cartas que Warren escrevia aos seus investidores ainda antes de ter comprado a Berkshire Hathaway. Nunca mais parou. Mohnish ficou tão impactado com esta nova “filosofia” que perguntou a si mesmo como seria possível que Buffett e outros conseguiam juros compostos acima de 15% consistentemente ao longo de mais de 30 anos. Sorte não poderia ser, porque a sorte não bate à porta ano após ano durante décadas. Teria que ser um conjunto de princípios, conceitos e estratégias passíveis de serem aprendidos. Bem dito bem feito. Pouco tempo depois Mohnish criava o Pabrai Funds.

O Suborno

Até aqui Mohnish não era conhecido do público em geral. Foi em 2008 quando se juntou ao seu amigo e também ele investidor Guy Spier (autor de The Education of a Value Investor) para licitar 650 mil dólares por um almoço com Warren Buffett, que começou a ter cobertura mediática e a ser reconhecido como investidor de sucesso. Na altura Mohnish em tom brincalhão disse que Buffett aceitou um suborno para almoçar com um desconhecido. Mas desenganem-se os que pensam que o valor que estes dois “jovens” investidores pagaram foi uma exorbitância. Antes de mais, os fundos revertem para uma associação de caridade, o que por si só é excelente, por outro lado, também ajudam a aliviar os impostos no fim do ano. Mas talvez a razão mais importante para os dois terem pago tal valor seja a publicidade e popularidade que garantiram daí para a frente. O rótulo de “discípulo” de Warren Buffett atrai muita gente e muito dinheiro. Foi a partir desse almoço que se começou a ver Mohnish a dar conferências um pouco por todo o lado, promovendo a sua filosofia, fundo e Fundação. Convenientemente foi também por essa altura que Mohnish lançou o seu livro “The Dhandho Investor“.

Cara, eu ganho. Coroa, eu não perco muito!

Traduzida à letra, a palavra indiana Dhando poder-se-á traduzir simplesmente como “negócio”. Num sentido mais lato, significa um elevado potencial de as coisas correrem bem, com uma baixíssima probabilidade de correrem mal. Este é o tema central do seu livro. Um livro sobre investimento muito fácil de ler, e por isso acessível ao publico em geral, em que Mohnish explica a sua filosofia de investimento. Fala-nos dos Patel, que décadas após chegarem aos USA com uma mão à frente e outra atrás, acabaram por dominar a industria de Motéis. Fala-nos de como Sir Richard Branson levantou vôo no negócio aéreo quando decidiu alugar um avião e pintá-lo com as cores da Virgin Airlines. Fala-nos de como Lakshmi Mittal veio a comprar inúmeras siderúrgicas numa altura em que ninguém queria ouvir falar delas. Todas histórias simples, e todas histórias com um fio condutor. Baixo risco, elevado potencial de retorno. É esta a forma de Mohnish investir. Como investidor, Mohnish tenta sempre encontrar as oportunidades com maior assimetria entre risco e recompensa. Nada disto é novo nos manuais de investimento, e é até bastante intuitivo, mas ainda assim o ser humano tem muita dificuldade em seguir tais princípios. Por algum motivo, uma grande maioria das pessoas acha que para conseguir retornos elevados, precisa de correr mais riscos.

Clonador desavergonhado

É pelo facto de não gostar de correr riscos que Mohnish decidiu copiar Warren Buffett, ou como ele próprio diz, clonar desavergonhadamente Warren Buffett.

Mohnish Pabrai e Warren Buffett

Mohnish Pabrai e Warren Buffett

Mohnish brinca frequentemente comparando Buffett a Deus e ele próprio ao seu primeiro apóstolo. Quando abriu o seu fundo, seguiu exatamente a estrutura das primeiras Buffett Partnerships. Sem comissões fixas, ficando apenas com 1/3 dos lucros acima dos 6%. Na verdade Mohnish segue alguns dos princípios de Buffett à risca: (1) Não deves cobrar muito aos teus co-investidores; (2) Não deves ter uma equipa (de analistas); (3) Não deves fazer parte de uma equipa; (4) Não deves usar o Excel, são apenas alguns dos mandamentos que enumera em algumas das suas palestras.

Apesar de ser um clonador desavergonhado de Buffett, Mohnish não compra empresas para ficar com estas para sempre. Compra empresas sempre na expetativa da sua valorização e não pelos lucros que estas lhe vão proporcionar eternamente. A sua filosofia de investimento, na sua base fundamental, é igual à de qualquer outro value investor: Comprar barato e vender caro. Mas Mohnish não quer comprar barato, Mohnish quer comprar estupidamente barato e vender exageradamente caro. Mohnish é um caça baggers, ou seja, um investidor que só compra uma empresa quando tem a certeza que ela vale no mínimo dos mínimos o dobro do que paga para a comprar. Apesar de não ter uma equipa de analistas Mohnish depende em grande parte de análises que lhe enviam. Na verdade sempre que pode faz publicidade a este meio de “pesquisa” e pede para lhe enviarem ideias de investimento para o seu e-mail com o já célebre lema “mp@pabraifunds.com, Keep them coming”. Até nesta estratégia Mohnish segue aquilo que professa. Com uma equipa de 1, tem acesso a virtualmente todas as ideias do mundo sem as chatices inerentes a ter uma equipa de analistas. Se têm uma boa ideia para ele, Mohnish pede que, no mínimo, lhe enviem empresas que valham o dobro daquilo a que estão cotadas. “Be unreasonable” diz. Não o façam perder tempo.

O Processo

Tal como o Warren quando lia o Moody’s Manual de uma ponta à outra duas vezes num só ano, Mohnish analisa muito rapidamente muitas empresas. (o Moody’s Manual é como uma enciclopédia com letra miudinha).

Página do Moody's Manual

Página do Moody’s Manual

Tal como Warren, Mohnish demora segundos em cada uma delas. Nas suas próprias palavras, tem que dizer Não muitas vezes e muito rápido. Mais ou menos como o que se chama hoje em dia de screening. Procura padrões muito específicos nos números. Mohnish diz que este padrão tem que lhe bater com tanta força como uma “barra de ferro pela cabeça abaixo“. Um padrão que o faça querer perder mais 5 minutos nessa empresa. E depois desses 5 minutos, mais 5 minutos. E por aí fora até ter a certeza de quem tem uma óbvia vencedora, uma “No Brainer” como lhes chama Charlie Munger.

Keep them Coming

Nos dias que correm, depois de tanta auto-promoção  (” mp@pabraifunds.com, Keep them coming” ), tem acesso a inúmeras análises da mais alta qualidade. Por isso diz que a primeira coisa para que olha quando lhe enviam uma análise, são apenas 2 números. O preço da ação e quanto é que a pessoa diz que a ação vale. Lê muitas em que a ação está a 12 e a pessoa diz que vale 16. Nesses casos, acabou. Não se dá ao trabalho de ler mais. Sabe que pode estar a perder uma excelente ação, mas diz que é um dos poucos riscos que corre. Se não lhe bater com muita intensidade nos primeiros segundos ou minutos, ele segue para a próxima. Aquelas em que ele fica preso podem ser as grandes vencedoras. Foi o caso da Rain Industries em 2015, uma empresa indiana de derivados do petróleo. Alguém lhe enviou a análise, Mohnish leu a análise, viu que o preço correspondia ao lucro projetado para daí a três anos (PER 2018= 1), e em duas horas tinha comprado a ação. Desde que a comprou a Rain Industries já multiplicou o seu valor por 10x, uma tenbagger. Na verdade, à data deste artigo, já não é uma tenbagger, mas apenas uma sixbagger. Mas Mohnish comprou-a tão barata e tem tanta confiança no futuro da empresa que não está minimamente importado com esta “pequena” oscilação de curto prazo. Aliás, está a comprar mais e agora detém quase 10% da empresa. Engraçado que Mohnish nunca conheceu a pessoa que lhe enviou a análise, e que em ultima instância lhe deu milhões a ganhar.

Mas este caso é um caso raro. E talvez seja melhor entender que quando diz que “em duas horas tinha comprado a ação“, provavelmente não comprou toda a sua posição imediatamente. Uma estratégia comum a muitos value investors. Compram uma pequena posição (tracker position) para eventualmente não perderem o barco, e só depois é que vão analisar em profundidade a empresa e aumentar a posição à medida que aumentam a sua convicção.

Foi o caso da Fiat Chrysler, uma das maiores posições do seu fundo. Mohnish afirma que passou dois meses e meio a entender o setor automóvel e todos os pequenos detalhes da empresa antes desta se tornar num investimento significativo para o seu fundo.

Portfolio Ultra Concentrado

Bebendo inspiração dos primeiros anos da carreira de Buffett, em que este chegou a ter 40% do capital investido numa única ação, e de Ben Graham que conseguiu os retornos que conseguiu porque a dada altura investiu 75% do seu portfólio na seguradora Geico, Mohnish não se dispersa por 100 empresas, nem por 50. Admite que tem cerca de 20 empresas no seu portfólio, mas quando chegamos à 6ª posição, já passámos 75% do portfolio. O valor investido entre a 6ª e a 18ª posição é de apenas 1/4. Normalmente, as 2 ou 3 posições principais representam 50% do bolo. Mais uma vez tal como Buffett, Mohnish raramente está completamente investido. Gere um portfólio de quase mil milhões de dólares mas tem apenas investidos cerca de 400 milhões (40%). Gosta de ter pólvora seca para quando surgirem oportunidades óbvias, No Brainers.

O Bom Filho à Casa Torna

Quando lhe perguntam porque é que no momento quase não tem investimentos nos EUA, afirma que não tem uma visão macro, apenas que nos EUA as ações não estão a preços exageradamente atrativos.

É na India, o seu país natal, que tem encontrado estas ações.

Monhish Pabrai investe na India, o seu país natal, onde tem encontrado grandes oportunidade nas ações

Afirma que “uma pessoa tem que ir pescar onde está o peixe“. É cada vez mais frequente ver Mohnish nos media indianos, ou ao lado de outros grandes investidores daquele país. É também na Índia que Mohnish dobra as suas regras. Enquanto nos EUA, Mohnish nunca visita as empresas que compra, nem nunca conhece a administração das mesmas, diz que na Índia existe uma história muito longa de fraude. Por isso, voa regularmente para confirmar in situ a situação das empresas que estuda. Chegou a encontrar empresas que diziam que tinham fábricas aqui e ali e quando lá chegou, não existia nada. É também graças à Índia que tem aumentado a sua já longa checklist de investimento. Mohnish usa a checklist de mais de 90 questões como último filtro para a sua tomada de decisão. Se não consegue responder a alguma questão, volta ao estudo até ter a certeza de que tem uma bagger.

Não deixa de ser curioso que Mohnish esteja tão interessado na Índia. A Índia também está muito interessada em Mohnish. Com 80% da população abaixo dos 30 anos, a Índia parece fabricar aprendizes de value investors como nenhum outro país. Existem várias escolas com milhares de alunos, milhares de seguidores de Buffett. E à falta de Deus, contentam-se com o seu primeiro apóstolo.

Mohnish é facilmente encontrado no Twitter, no Youtube, na Conferência anual da Berkshire Hathaway e em muitos media online. Gosta de aparecer, gosta de falar, e a julgar pela sua audiência, as pessoas gostam de o ouvir. Ao ouvir Mohnish Pabrai, facilmente achamos que ele segura o mundo na palma das suas mãos. Mohnish é um depurador, um minimalista. Reduz a sua análise ao mais essencial possível. Tenta chegar a uma lógica tão fundamental que se torna óbvia. É quase como um artista quando cria algo tão simples que nos ouvimos a nós próprios a dizer “aquilo também eu fazia“.  Mas para chegar lá é preciso mestria, muito trabalho, muito esforço e uns nervos de aço. Durante a crise de 2008 o seu fundo estava a cair 60% e a única coisa que Mohnish fazia era procurar mais dinheiro para aproveitar a oportunidade.

Manuel Feijão Maurício