Depois de Warren


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Já muita gente se preocupou com o fim dos dias de Warren Buffett, que com 87 anos não caminha para novo, e certamente ele próprio já pensou muito nisso, mas como comentou há algum tempo atrás, “Tudo tem funcionado bem, por isso não houve necessidade de mudança”. O tema da sucessão daquele que é considerado por muitos o maior investidor de todos os tempos, é abordado cada vez com maior frequência, seja em blogs, imprensa da especialidade, entrevistas ao próprio, ou nas suas famosas Conferências de Acionistas. Recentemente foi escrito na Barrons (uma das revistas mais antigas e prestigiadas do sector) um artigo muito incisivo e provocador em que o autor idealiza uma conversa unilateral com Warren Buffett, em que lhe diz tudo o que acha que está mal e podia ser melhorado no que toca à passagem de testemunho da Berkshire Hathaway ao fim de 52 anos.

Antes de prosseguirmos, uma coisa deve ficar clara. Se Warren Buffett parasse de trabalhar hoje, a Berkshire Hathaway continuaria a ganhar MUITO dinheiro. As operações das subsidiárias trazem cerca de 600 milhões de dólares por dia para a Berkshire Hathaway. Buffett sempre pensou no longo prazo e comprou excelentes empresas capazes de lhe sobreviver e de continuar a encher os bolsos dos seus acionistas.


Pacto de Não Agressão

Ao longo dos tempos Warren Buffett e o seu sócio de longa data Charlie Munger, (94) foram sempre respondendo às perguntas sobre a sua sucessão (a de Buffett, não a de Munger que há muitos anos que pouco faz) com respostas genéricas e pouco claras e conseguiram sempre safar-se. Quem vir as várias entrevistas dadas ao longo dos tempos conseguirá ver que existe uma espécie de pacto de não agressão entre Buffett e os jornalistas. Warren Buffett escolhe a dedo a quem dá entrevistas (mais recentemente a jornalista Becky Quick da CNBC) e os jornalistas nunca forçam muito Buffett porque sabem que é melhor jogar pelas regras dele e conseguir entrevistá-lo, do que ter um estilo mais agressivo e nunca mais o entrevistar.

Warren Buffett entrevistado por Becky Quick

Warren Buffett entrevistado por Becky Quick


A Pessoa Errada

Buffett diz que as três qualidades que procura numa pessoa a contratar são a integridade, a inteligência, e a energia, sendo que sem a primeira, as outras duas juntas vão acabar mal. Na verdade, foi exatamente isso que se passou com David Sokol em 2011, que era na altura referenciado pelo próprio Buffett como o seu sucessor. Sokol era o CEO da Netjets e da MidAmercian Energy (duas subsidiárias da Berkshire) quando Buffett lhe pediu para procurar potenciais alvos de aquisição. Numa jogada muito pouco em linha com a cultura da Berkshire Hathaway, Sokol, sem o conhecimento de Buffett, contratou uma equipa de banqueiros do Citi para lhe apresentarem um conjunto de potenciais empresas a adquirir. Das várias empresas apresentadas pelos banqueiros, surgiu uma que se evidenciava como sendo material para a Berkshire, a Lubrizol Corp. uma empresa dedicada à produção de químicos para as mais variadas aplicações. Ao estudar a empresa, Sokol entendeu que tinha ali uma vencedora e comprou ações em nome próprio, ocultando a jogada a Buffett. Depois foi apresentar a empresa a Buffett, que também gostou dela e decidiu comprá-la pagando um prémio de 30% relativo à cotação da ação. Ao ouvir as noticias da aquisição, John Freund, um banqueiro do Citi e acionista da Berkshire ligou a Buffett a dar-lhe os parabéns e, para espanto deste, demonstrou a sua satisfação em o Citi ter podido ajudar a Berkshire naquela aquisição. Buffett que até então não sabia de nada, começou a desenrolar o novelo, o que o levou à descoberta da compra de ações por parte de Sokol. Escusado será dizer que a demissão de Sokol foi imediatamente anunciada num press release, escrito pelo próprio Buffett, e que, não bastando o escândalo, lhe viria a trazer ainda mais celeumas por ter atribuído a saída de Sokol a questões do foro pessoal.

Warren Buffett e os escândalo Sokol


Prata da Casa

Os possíveis sucessores de Warren Buffett: Ajit Jain e Greg Abel

Ajit Jain e Greg Abel

No que toca às operações do dia a dia da Berkshire e das suas subsidiárias, há já algum tempo que Buffett delegou essas tarefas aos seus braços direitos. Já raramente é Buffett a falar com os seus mais de 60 CEO’s, deixando esse apoio para o Ajit Jain (66) no caso das seguradoras (diz-se que é um génio dos seguros e Buffett diz que já trouxe mais dinheiro para a Berkshire do que ele próprio) e o Greg Abel (55) em todas as outras empresas. Mais recentemente Buffett promoveu ambos a Vice-Presidente e admitiu que um dos dois será o seu substituto. Qual dos dois vai ser? A aposta mais recente tem estado no Greg Abel dado o perfil muito reservado e direcionado para as seguradoras do Jait, mas também se fala numa liderança bicéfala. De qualquer modo, o dia-a-dia das operações já está a ser gerido por estes dois há muito tempo. Na ultima Conferência de Acionistas, Buffett dizia em tom de brincadeira que já está semi-retirado há anos e Charlie Munger comentava que “O Warren é muito bom a fazer nada“.


Em Equipa Vencedora …

Só é possível que a Berkshire funcione como funciona graças ao seu modelo de descentralização, segredo da sua longevidade. Ao contrário de muitos conglomerados em que, para serem tomadas decisões existem múltiplos níveis de autoridade, na Berkshire essa estrutura está simplificada e é dada a maior autonomia possível aos CEO das diferentes subsidiárias. Só têm que enviar as contas das suas empresas mensalmente para a sede e só falam com a sede se quiserem. Não existem reuniões pré-agendadas, não existem telefonemas obrigatórios, nada da frequente burocracia empresarial encontrada nos grandes conglomerados. Só com um modelo baseado na autonomia e confiança é possível que apenas 25 pessoas consigam gerir apartir da sede da Berkshire um conglomerado de 460 mil milhões com 377 mil funcionários. Como comenta Jim Clayton da Clayton Homes, se Buffett interferisse nos assuntos diários das suas empresas, estaria a diminuir a responsabilização de cada um dos seus CEO´s. Aliás, uma das raras vezes em que Buffett se aventurou em meter-se no dia-a-dia das suas empresas foi quando convenceu os administradores da GEICO (a sua famosa agência de seguros automóveis low-cost) a lançar um cartão de crédito para os seus segurados. A administração demonstrou-se contra tal ação, alegando que o resultado provável seria terem mais negócio vindo de maus clientes e menos negócio vindo dos clientes mais fiáveis. Em 2009 a GEICO perdeu mais de $6 milhões no negócio dos cartões de crédito e levou uma pancada de $44 milhões quando teve que vender o seu portfólio de Receivables com desconto. Salvo este raro caso de intervenção, Munger dizia que “a supervisão da Berkshire roça a abdicação”.

As únicas coisas que Buffett pede aos seus CEO’s, além das contas mensais são:

  1. salvaguardem a reputação da Berkshire;
  2. informem das más noticias cedo;
  3. informem sobre alterações a planos de reforma e grandes gastos (incluindo aquisições, que são encorajadas);
  4. adoptem um horizonte temporal de 50 anos;
  5. informem a Sede de qualquer oportunidade de aquisição;
  6. submetam recomendações para sucessores por escrito.

 

Buffett só há um

Do lado dos investimentos, podemos dizer que dificilmente aparecerá alguém capaz de substituir Warren Buffett. Desde pequeno que é um prodígio nos negócios, tendo referido várias vezes que comprou a sua primeira acção aos 11 anos e que até então andou a perder tempo. Há já alguns anos que se encontra numa fase da sua vida profissional onde muito poucos investidores estiveram, se é que algum chegou a estar. Durante a crise de 2008 os seus investimentos tornaram-se em casos de Profecia Auto-Realizável quando entra no Bank of America e no Goldman Sachs com condições a que mais ninguém teria acesso, e a sua mera presença nestes bancos dá a estas instituições o seu selo de aprovação levando outros investidores e clientes a pensar “Se o Warren entrou, é porque é seguro!”. Nestes casos extremos, o próprio Buffett tornou-se no “Moat” que tanto procura, na vantagem competitiva que garante a longevidade e sobrevivência das empresas que compra. Se o seu sucessor vai conseguir o mesmo? Certamente que não. Mesmo que tivesse a oportunidade de fazer tais negócios, a aura de Buffett é única e ele conseguiu estes negócios não só porque tinha muito capital disponível, mas acima de tudo por causa da sua marca.

Muito se falou também sobre os gestores Ted Weshler e Todd Combs, cada um gerindo o seu portfólio de 13 mil milhões dentro da Berkshire. São os responsáveis por algumas aquisições menos ao estilo de Buffett, e supõe-se que tenham sido os influenciadores que o levaram a investir na Apple. Muitos rumores já correram sobre um dos dois tomar o lugar cimeiro, mas ultimamente e especialmente depois de Buffett anunciar que seria Ajit ou Greg a suceder-lhe, estes rumores têm-se ouvido cada vez menos. Se vão continuar a gerir “pequenas” fatias ou se vão dar o salto e passar a gerir o bolo todo, ainda está por ver.


42 Mil Milhões na Apple

Warren Buffett compra a Apple

Entretanto, Warren não pára. Recentemente investiu 42 mil milhões na Apple, e está em fase de lançamento de uma joint venture revolucionária com Jeff Bezos (Amazon) e Jamie Dimon (J P Morgan Chase & Co) com o intuito de satisfazer as necessidades de saúde dos mais de 1 Milhão de empregados das três empresas a preços justos e sem fins lucrativos (note-se que os custos ligados à saúde nos USA são muito superiores aos europeus). A liderar esta joint venture estará o cirurgião e autor Atul Gawande, alguém que não tendo experiência em gestão, é um excelente profissional e um forte critico das práticas da sua industria. Como dizia Jeff Bezos, para esta posição iria ser necessário o conhecimento de um especialista, uma mente de principiante e um horizonte a longo prazo.

Coincidência ou não, Atul Gawande é também o autor do livro Checklist Manifesto, que serviu como inspiração para muitos Value Investors famosos criarem as suas próprias checklists de investimentos. Como se esta aventura não fosse suficiente nos seus tardios anos de vida, o sócio Charlie Munger ainda lhe diz, em plena Conferência de Investidores, que deviam investir mais na China, e ao que parece pela reação de Buffett, esta possibilidade está a ser equacionada, mas sem grandes pressas. (Buffett já tinha feito muito dinheiro com o investimento na PetroChina).

Como será a Berkshire Hathaway sem Buffett? Decididamente não será a mesma, mas arrisco-me a afirmar que não vai ficar mal. Se há pessoa que viu, comprou, e soube manter empresas a prosperar muito tempo depois dos seus fundadores se afastarem, foi Warren Buffett. Seguramente saberá planear as coisas para que se passe o mesmo com a sua própria empresa.


O Record a Bater

A titulo de curiosidade, se pensarmos que Buffett será tão competitivo no que toca à sua longevidade como nos investimentos, terá que bater o record de longevidade da sua mais velha CEO “Mrs. B”. A famosa emigrante Russa fundadora da Nebraska Furniture Mart chegou a ser a maior vendedora de mobiliário dos Estados Unidos. Morreu aos 104 anos e aos 103 ainda dirigia as operações da empresa. Podem ver aqui o vídeo da senhora já com a sua idade passeando pela loja e negociando com os clientes.

Manuel Feijão Maurício