Porque sobe o PSI 20?

O PSI 20, um dos índices que faz parte da Euronext Lisboa, continua a sua tendência de subida.

Há cerca de três meses atrás publiquei o seguinte artigo:

Nessa altura verifiquei que o PSI 20 era o índice de ações com a pior performance dos países da Zona Euro, pois estava a descer 4%, enquanto que em média os índices estavam a ganhar 13% (nos doze meses anteriores).

Porém, nesta semana que passou, o PSI 20 teve a sua segunda maior valorização de sempre, ao galgar 6,82%:

PSI 20 Gráfico de curto prazo cotação

Subitamente, uma série de catalisadores actuaram em simultâneo de forma a criar esta valorização de curto prazo estupenda.

Vejamos como compara agora o nosso PSI 20 com os outros índices dos países da Zona Euro, nos últimos 12 meses:

Bolsas da zona euro comparativo

Bom, já não somos os últimos classificados, mas ainda assim continuamos muito aquém da valorização média, que continua nos 13%. No dia 30 de março de 2016 o PSI 20 fechou nos 5 021 pontos, e na sexta fechou nos 5 008:

PSI20 Gráfico cotação 12 meses

Desceu 0,26%, portanto.

Mas, se considerarmos apenas esta última semana que passou, o PSI 20 foi de longe o índice mais forte da Zona Euro:

Bolsas da zona euro comparativo última semana

O PSI 20 subiu 6,8% e a variação média foi de “apenas” 1,2%. É muito interessante verificar que a Grécia também se destacou claramente, com uma subida de 4,8%. Esta informação faz-me suspeitar que houve um fluxo internacional de capital para os países que mais sofreram com a crise das dívidas soberanas de 2011/12.

Interessa-me encontrar explicações para a grande subida do PSI 20 esta semana, para tentar perceber se a tendência bullish é para continuar ou não. Vou dividir estas explicações em fatores macro e micro.

Fatores Macro

Em termos macroeconómicos costumo procurar ver a situação com os olhos dos investidores internacionais que olham para Portugal.

A semana começou com as seguintes flash news:

Influência do défice no PSI20

Internos

Ou seja, apesar de nós cá dentro já darmos o défice de 2,1% como adquirido (até já há cartazes nas rotundas), só quando houve mesmo o dado oficial é que surgiu o flash nos ecrans dos investidores estrangeiros.

Depois de na semana anterior o PCP ter levado à discussão no Parlamento a reestruturação da dívida e do PS ter negado essa hipótese (tendo como principal argumento o facto da dívida pública ser agora detida em 65% por portugueses, contra os 15% de 2009), mais a previsão de que o défice público de 2017 seria de apenas 1,6% do PIB …

Gráfico Yield das Obrigações do Tesouro (OT) a 10 anos

… trouxe mais confiança aos investidores em dívida pública portuguesa, trazendo o yield das OT a 10 anos novamente abaixo dos 4%.

Externos

Na Europa, analistas do Saxo Bank chegaram a falar numa queda iminente da Geringonça (porque o PCP e BE queriam uma reestruturação da dívida e um défice público mais elevado), mas – não que eu tenha estado muito atento à política – parece-me que pelo menos por enquanto o barco da união das esquerdas continua a navegar.

Em paralelo, houve a “venda” de 75% do Novo Banco à Lone Star, um private equity fund norte-americano, por €1 000 milhões, com a Lone Star a injectar €750 milhões imediatamente no Novo Banco e mais €250 milhões num prazo até três anos. Coloquei “venda” entre aspas porque na verdade foi uma doação: o Estado, através do Fundo de Resolução, não vai receber nada pelo Novo Banco e ainda vai dar garantias de cerca de €3 500 milhões. Toda esta história está explicada aqui pelo Jornal de Negócios. Mas a headline que foi passando para os media internacionais foi que o Governo vendeu o Novo Banco, fazendo um bom negócio:

E ainda: na quarta feira, num fórum de investidores organizado pela Bloomberg, Mário Centeno terá dito que o Governo está a trabalhar para encontrar uma solução que sirva os interesses de todos na questão dos €2 200 milhões que foram perdidos quando cinco linhas de obrigações do Novo Banco passaram para o BES mau.

Os principais perdedores nessa troca foram os maiores fundos de investimento do mundo, a BlackRock e a PIMCO, que boicotaram a emissão de obrigações da CGD e que na semana anterior tinham pressionado o Governo a encontrar uma solução. Esses fundos depois vieram desmentir Centeno, disseram que não estavam a haver negociações e que o valor de €600 milhões para um acordo era um “nonsense“.

Mas, novamente, a grande headline nos media internacionais foi que o Governo de Portugal e os maiores investidores em activos financeiros do mundo estão prestes a chegar a um acordo que devolva a credibilidade aos mercados e ativos financeiros nacionais.

O PSI 20 deverá ter beneficiado destas headlines e movimentos de capitais internacionais, mas penso que talvez as melhores explicações se encontrem ao nível micro, ou seja, ao nível de cada ação que compõe o índice.

Fatores Micro

Fiz uma tabela que indica o peso de cada ação no PSI 20, a sua variação esta semana e finalmente a sua contribuição percentual para a valorização do PSI 20:

Empresas cotadas no PSI20, peso no índice

Verifico que a subida de apenas cinco ações explica mais de 80% da valorização do PSI 20: BCP, EDP, EDPR, GALP e JMT.

Vou então analisar sucintamente os fatores intrínsecos que terão motivado os investidores a comprar estas ações:

1º – BCP

O BCP subiu 13,9% esta semana …

influência do BCP no PSI20

…e como vimos contribuiu com cerca de 26% para a valorização do PSI 20.

Penso que terá sido no BCP que as questões macro mais terão tido influência. Com o défice público de 2,1%, a previsão de 1,6% para 2017, a subida do valor das OT (descida das yields) – o BCP está carregado delas – e ainda a questão da “venda” do Novo Banco e potencial acordo com grandes investidores internacionais, tudo isto, terá atraído investidores para o BCP.

Este fluxo de capital também fez com que a cotação tenha ultrapassado certos níveis de resistência técnica o que terá atraído também compradores que se baseiam na Análise Técnica.

Agora o BCP está com uma capitalização bolsista de €3 mil milhões. Eu penso que se o Novo Banco vale zero e o Fundo de Resolução ainda tem de dar garantias de €3 500 milhões para alguém ficar com ele, parece-me altamente improvável que o BCP valha cerca de €3 mil milhões. Tenho ainda muito mais motivos para suspeitar desta valorização, mas este artigo não é sobre o BCP, é sobre o PSI 20 e pessoalmente considero que é um risco para o PSI 20 que o BCP seja a ação com mais peso no índice.

2º – EDP

A EDP subiu 8,7% esta semana e representou 15,2% da subida do PSI 20:

Peso da EDP no índice PSI20

Naturalmente, esta semana, analisei com detalhe a EDP para os Subscritores do Borja on Stocks (saiba mais sobre esta subscrição aqui).

Quando a EDP lançou a OPA sobre os 22,5% do capital da EDP Renováveis os holofotes dos media viraram-se para essa notícia. Simultaneamente a EDP lançou outro press release que teve muito mais impacto no seu valor fundamental, uma vez que a EDPR já pertencia ao perímetro de consolidação da EDP. Essa outra notícia foi a venda da Naturgas por €2 591 milhões:

Provavelmente era esta a notícia que o espanhol Fernando Massaveu Herrero estaria a antecipar quando recentemente comprou 265 milhões de ações da EDP.

3º – EDP Renováveis

A EDPR subiu 11,8% e representou 17,9% da subida do PSI 20:

EDP Renováveis no PSI20

A empresa foi opada pela EDP:

Penso que esta OPA a €6,8 por ação acabará por ter sucesso, apesar da cotação neste momento estar ligeiramente acima do preço proposto para a aquisição.

4º – GALP

A GALP valorizou 6,3%, um pouco abaixo do PSI 20:

Gráfico da GALP influência no PSI 20

Deverá ter beneficiado da subida de 4% do barril de Brent esta semana.

5º – Jerónimo Martins

JMT valorizou 6,3% e explica 10,6% da subida do PSI 20, fazendo um belo bullish breakout:

Quando os investidores estrangeiros pensam em investir mais dinheiro em ações da Euronext Lisboa quase automaticamente direcionam-se para a Jerónimo Martins. Uma vez que é das três empresas nacionais que valem cerca de €10 mil milhões, aquela que tem mais qualidade em termos das suas tendências fundamentais de longo prazo. Não está de todo barata, mas aparentemente os fundos de investimento não se importam de pagar múltiplos mais elevados pelos fundamentais de qualidade e pela expetativa de passagem das operações da Ara na Colômbia de deficitárias a lucrativas. Também existem rumores que a JMT vai avançar para a Roménia, um país da União Europeia desde 2007, com cerca de 20 milhões de habitantes.

Conclusão

Penso que daqui para a frente o PSI 20 não poderá contar com o BCP e a EDP Renováveis para continuar a valorizar e que o BCP pode mesmo contribuir para uma correção do índice.

Que a EDP, a GALP e a JMT poderão continuar a valorizar, mas de forma bastante mais moderada.

Em suma, acho que, apesar da tendência de médio prazo do PSI 20 ter invertido de lateral para ascendente, que será preciso consolidar este novo nível e que no futuro poderão ser outras ações, com um peso mais reduzido no índice, a beneficiar da onda de otimismo que invadiu Portugal na última semana.

César Borja

Analista de Ações Independente

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