A Obsessão com as Cotações

Escrevo este artigo porque há duas décadas que vejo os investidores cada vez mais concentrados num único dado: as cotações!

As cotações dos ativos mobiliários – ações, câmbios, obrigações, commodities, etc – mudam a cada instante e são transmitidas e divulgadas de uma forma frenética por vários meios de comunicação. Como com cada novo tick os investidores estão um bocadinho mais ricos ou um bocadinho mais pobres, é natural que estejam interessados nessa informação.

As corretoras também estão imensamente interessadas em transmitir as cotações aos investidores, porque dessa forma aumentam a emoção e o volume de transações. Quer as corretoras cobrem por transação, ou através de um spread, ou pela mera aposta contra os próprios clientes, interessa-lhes que estes façam transações, quantas mais melhor, o que não quer dizer que isso interesse aos clientes!

Por outro lado, qual é a primeira informação que alguém recebe quando pensa em investir no mercado de capitais?

Naturalmente, as cotações. Alguns são mesmo muito iniciados e pensam que estão no supermercado … compraram BCP porque, entre as ações, era a “mais barata”. Outros ultrapassaram esta fase e, pasme-se, compram as ações que sobem mais, que ultrapassam um certo nível, ou seja, mais ou menos o inverso dos iniciados. Aquele “pasme-se” foi com a intenção de chocar, porque estas ideias não são nada de pasmar, são absolutamente comuns e estão imersas na mente dos investidores um pouco mais experientes. São relativamente evoluídos, vêem gráficos, traçam linhas, calculam indicadores … mas, basicamente, continuam focados no mesmo dado: a cotação.

Toda a Análise Técnica se baseia no estudo da cotação. Sim, podem-se introduzir outros dados como por exemplo o volume de transações (uma segunda variável ótima para os que procuram excitação e liquidez – não necessariamente valor) e uma miríade quase infinita de indicadores, mas no fundo, praticamente todos esses indicadores são derivados da cotação. Os sistemas de trading automáticos baseiam-se quase exclusivamente na cotação.

Há pessoas que passam muitos anos, até décadas, a estudar uma única coisa: a cotação. Compram e vendem não porque tenham alguma ideia, mas porque a cotação lhes manda. Não são senhores do seu destino, não comandam as suas ações, nem as suas reações, na verdade nem sequer os seus sentimentos: quem manda é a cotação.

A cotação é o seu senhor, a sua obsessão.

Eu próprio passei anos concentrado na cotação. De um único ativo, o futuro do S&P500. Estudei a cotação do S&P500 até ao mais ínfimo pormenor, conhecia-a e vivi-a, muitas vezes 24 sobre 24 horas … nada mais interessava senão aquele número. Era uma obsessão levada ao extremo, mas em agosto de 2015 curei-me. Percebi que nada daquilo fazia sentido, que era uma competição de emoções sem racionalidade económica e que não me levaria a lado algum no longo prazo. A única coisa que trazia era alguma excitação (que deu lugar a imunidade) e algum dinheiro nos meses bons, que só muito ligeiramente compensavam os meses maus. E passaram cinco anos. Cinco anos que estive sem investir verdadeiramente.

Nos últimos 16 meses nunca mais toquei nos futuros e voltei a uma paixão antiga, as ações. Mas, porque no período de 2005-2008 e 2009-2010 tinha aprendido Análise Fundamental de Ações individuais, decidi ir mais por aí e progressivamente fui abandonando a Análise Técnica. E agora não tenho dúvidas que, quem quer ser investidor, se deve focar na Análise Fundamental e deixar o estudo das cotações para os outros. Há vida na Bolsa para além das cotações, há todo um mundo super interessante, muito motivante e com um retorno que, não sendo garantido – nada é garantido nos mercados – ao menos é lógico!

É lógico que uma empresa que vende mais e lucra mais, valha mais que uma que venda menos e lucre menos. E na verdade, salvo raras exceções, é assim que acontece. As ações são pedaços de empresas, representam a sua propriedade. E as empresas valem mais ou menos de acordo com os seus fundamentais, ou, sendo simplista, de acordo com o rendimento que obtém. E se os fundamentais melhorarem, as cotações sobem … se piorarem, descem. As cotações não passam de uma consequência, de um espelho, daquilo que verdadeiramente interessa: os fundamentais.

Os analistas fundamentais estão na origem dos movimentos.

Os analistas técnicos são meros seguidores. Os analistas fundamentais sabem o que fazem e porquê que o fazem. Os técnicos estão à espera que lhes digam o que fazer. Os fundamentalistas lideram, os tecnicistas seguem e são vítimas de uma série incontável de armadilhas. Além disso os técnicos não podem deixar de estar atentos e ser influenciados pelas cotações. Quando querem saber mais e evoluir vão estudar ainda mais essas cotações (padrões técnicos, suportes e resistências, indicadores que são meras operações sobre a cotação, linhas de tendência, médias móveis, candlesticks, sistemas de trading, optimizações de parâmetros, etc, etc), mas o caminho não é por aí … o caminho está em compreender a ligação entre as cotações e as empresas e depois estudar a fonte, ou seja, as empresas. As cotações vêm por arrasto, nem vale a pena dar-lhes atenção.

Pelo menos é isto que Warren Buffett, o investidor mais bem sucedido de todos os tempos, faz. Só vê as cotações uma vez por semana (ou aquando de alguma informação fundamental), pois não quer perder produtividade naquilo que mais lhe interessa: o estudo das empresas. Sem olhar para as cotações (um ceguinho, diriam muitos), bateu os traders todos ao longo de seis décadas … não se deixou emocionar nem influenciar por aquilo que os outros faziam, pensou e agiu sempre pela sua própria cabeça, seguindo as suas próprias ideias.

Após 20 anos de Bolsa, finalmente vi o caminho do desenvolvimento.

Como muitos outros, vivi obcecado com as cotações, mas encontrei a saída do labirinto, para nunca mais voltar.

Desejo agora difundir esta mensagem, dizendo às pessoas para voltarem a focar-se nas empresas e deixarem de lado as cotações, para que sejam investidores mais felizes e com um retorno superior a médio/longo prazo.

Por isso escrevi este pequeno texto, que espero que tenham gostado, ou que no mínimo, vos tenha posto a pensar e a colocar algumas questões.

Grato pela atenção,

César Borja