Previsão do Mercado em Geral 3

Bom dia!

A pedido de muitas famílias, aqui vem o terceiro artigo da série Previsão do Mercado em Geral, não sem antes rever os dois primeiros:

Neste artigo acertei na correção do S&P500 (mas não na velocidade do movimento – corrigi no 2º artigo) e no intervalo em que se iria estabelecer o PSI20, os 4 000 – 4 500 pontos (mais de 20% abaixo do que estava na altura). Também acertei na direção do yield das OT a 10 anos.

Neste artigo acertei praticamente ao milímetro no fundo do preço do barril de petróleo e das commodities em geral. Também acertei no fundo do S&P500. Mas falhei na previsão de que o PSI20 iria ter uma outperformance face ao S&P500.

A minha expetativa de outperformance do PSI 20 tinha bastante a ver com a previsão de subida do preço do barril de petróleo, pois isso supostamente iria afetar positivamente a economia de Angola e isso iria por sua vez beneficiar Portugal, por duas vias:

  • Melhorar os fundamentais das empresas portuguesas com exposição a Angola
  • Manter ou até aumentar os fluxos de capital de Angola para Portugal, que tradicionalmente iam em boa parte para as empresas cotadas na Euronext Lisboa

Só que a subida do preço do barril de petróleo, que de facto aconteceu, não inverteu a situação macro-económica de Angola, que continua a deteriorar-se porque … já não há assim tanto petróleo para extrair a preços competitivos em Angola.

Portanto, a peça Angola falhou no meu puzzle para os mercados. Em vez de ajudar o PSI20, como eu esperava, continuou a prejudicar.

E agora?

Vejamos uma perspetiva de curto prazo:

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Como sabem eu tenho algum desprezo por aquelas análises que dizem “se passar dali”, “se quebrar aqui”, porque acho que essas pessoas passam a vida nos “ses” e nunca chegam a conclusão alguma. Não arriscam, portanto nunca acertam (ou, na sua própria perspetiva, nunca falham) porque são subjetivos. Para já, na maior parte dos casos, “passar dali” ou “quebrar aqui” não significa nada. Claro que, olhando para um gráfico que é uma imagem do passado, dá a sensação que há níveis que são cruciais, mas esses níveis só se reconhecem depois de terem acontecido 🙂 Por exemplo, vejamos ali o nível dos 4 500 pontos. Parecia crucial, mas quando foi quebrado não foi o fim do mundo (foi antes uma boa oportunidade de compra) e quando voltou acima desse nível não foi o início de um novo bull market … quer dizer, isso só saberemos daqui a uns anos. Se o PSI 20 agora subir e nunca mais voltar aos 4 175 pontos que foi o mínimo de 24 de junho de 2016 (Brexit), vamos dizer que aquele movimento não foi um ressalto, mas antes o início do Bull Market.

Por tudo isto, eu não vou escrever que é crucial o PSI 20 ultrapassar aquela linha de tendência descendente, com a qual tem vindo a marrar desde abril de 2015. Pode passar e mesmo assim depois descer, não é assim tão importante.

Agora que Angola está a falhar e que a Esquerda está no Governo, restam apenas três esperanças aos investidores nas empresas da Euronext Lisboa:

– Que os fundamentais intrínsecos de certas empresas individuais continuem a melhorar. Por exemplo, quer a Corticeira Amorim, quer a Jerónimo Martins, são em grande medida independentes do andamento da economia nacional. Mas há mais empresas que são fortemente exportadoras, ou muito internacionalizadas, que podem crescer em receitas e lucros mesmo que a economia portuguesa continue na morte lenta em que tem estado;

– Que o vácuo de capital referido no segundo artigo seja finalmente preenchido. Este argumento continua a ser válido. Neste momento todo o free float do conjunto de todas as empresas da Euronext Lisboa está a valer apenas €21 mil milhões. Depositados nos bancos a operar em Portugal estão cerca de €143 mil milhões, ou seja, há quase 7 vezes mais capital nos depósitos bancários do que aquilo que seria necessário para comprar TODAS as ações em free float da Euronext Lisboa. Qualquer ventinho positivo que mova, digamos, um décimo do capital dos depósitos para a bolsa fará com que o PSI 20 duplique. Agora, falta a motivação.

Historicamente essa motivação vem de fora, como por exemplo no Bull Market de 1993-98.

Enquanto que o S&P 500 recuperou rapidamente do crash de 1987 e continuou a sua tendência histórica que existe – podemos dizê-lo – desde sempre …

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… o PSI 20 demorou 6 anos a arrancar para um novo Bull Market, que mesmo assim só o levou até mais ou menos o nível pré-crash (ainda que tenha subido 400%), ou seja, o nível do mercado nacional em 1998, em 2000 e em 2007 era mais ou menos o mesmo que no topo de 1987. E agora está 70% abaixo desse nível!

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Tivemos o azar de ter nascido no país com a Bolsa com a pior performance histórica do mundo, aliás, desafio qualquer um a dar um exemplo de uma bolsa ainda pior do que a nossa … talvez exista, mas vai ser muito difícil encontrar. Quer dizer, talvez contando com as desvalorizações cambiais haja outros exemplos também muito negativos.

Bom, naquela altura o vento positivo da América demorou 6 anos a cá chegar e agora já vamos em 7 anos desde que começou o novo bull market na América e … nada. Nem uma brisa.

Mas, se o S&P500 continuar a subir (o que espero que aconteça) em termos de longo prazo e se os principais mercados europeus também continuarem a valorizar (como tem acontecido: quer o DAX, quer o FTSE100 atingiram novos máximos históricos recentemente), penso que, algures no tempo, virão puxar pelas ações nacionais. Como digo, basta um ventinho, bastam uns €20 mil milhões (uma brisa no mercado global) para o PSI 20 mais do que duplicar.

3ª – Um perdão da dívida ao nível do BCE e/ou Parlamento Europeu

Desde que Portugal abandonou a austeridade – em março de 2015 – que os juros da Dívida Pública Portuguesa têm vindo a subir:

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Se virmos os juros numa perspetiva histórica …

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… podemos pensar que a situação está completamente controlada, por outro lado, se considerarmos quer a evolução do montante global da dívida …

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… que está agora em cerca de €239 mil milhões, ou cerca de 133% do PIB de Portugal, ou se virmos a questão em termos comparativos com outros países, como Espanha, França e Alemanha …

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… vemos que há razões para preocupação.

Por acaso devo assinalar que, nos últimos dias, o yield de Portugal tem descido, enquanto que os yields de França e Alemanha têm subido, ou seja, o spread diminuiu nas últimas sessões, o que pode ser um sinal de alguma mudança, ou apenas uma correção técnica, o tempo o dirá.

Uma coisa parece-me correta: caso haja algum perdão de dívida, ou reestruturação de dívida, ou o lançamento de EuroBonds que tornem os yields na Europa mais homogéneos, isso será bastante benéfico para Portugal e para as empresas cotadas na Euronext Lisboa. Mas, a iniciativa tem de partir da Europa! Se for Portugal a falar grosso, a dizer “não pagamos”, ou a começar com ameaças … aí a consequência prática é que os juros da dívida portuguesa sobem, os spreads alargam e a situação tornar-se-á ainda mais incomportável.

No início, o Governo do PS – apoiado pelo BE e PCP no Parlamento – começou a levantar cabelo na Europa, mas dá-me ideia que ultimamente o nosso Primeiro Ministro (ainda me custa dizê-lo), António Costa, está a movimentar-se na Europa de forma mais discreta e construtiva e ter a França, a Itália e a Espanha como aliados nesta questão dos “Países do Sul” é muito importante. Parece-me que começa a haver alguma abertura dos países do Norte – principalmente a Alemanha – para uma solução de consenso que envolva e una todos os países, depois do Reino Unido sair da UE.

Penso que a questão das EuroBonds será a mais importante da próxima década na Europa, em que o Centro (Alemanha e França) poderá partilhar das condições da sua dívida (e quiçá perdoar uma parte a países como Portugal, com a ajuda do BCE), mas ao mesmo tempo quererão também ditar de que forma essa dívida será aplicada, não tenhamos a mais pequena dúvida sobre isso.

Se calhar está a começar a ser cozinhada qualquer coisa nesse sentido, daí a diminuição dos spreads nos últimos dias, mas estou apenas a especular, não tenho estado atento a estas matérias, estou mais focado nos fundamentais intrínsecos das empresas, pois, apesar do PSI 20 estar 70% abaixo do máximo de 2007, no mesmo período, a Corticeira Amorim fez isto:

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Portanto, o que mais importa são os fundamentais intrínsecos das empresas e algumas têm vantagens competitivas tais que sobem em qualquer ambiente macroeconómico em Portugal.

A macroeconomia e as questões da dívida são importantes para empresas como a EDP, a Sonae SGPS, a NOS e muitas outras, mas também existem bastantes que não dependem assim tanto destes fatores intrinsecamente portugueses.

Conclusão

A conclusão que retiro disto tudo é simples: já lá vai o tempo de estar pessimista no mercado português. Sim, pode cair mais um pouco, pode contorcer-se, pode levar tempo, mas algum dia vai estar num valor que será mais do dobro do que está agora. E não pode cair mais de 100%. Aliás, se caísse uns 30% do valor atual … não sei, se calhar aqui o nosso vizinho dono da Zara, num passeio qualquer que desse a Portugal era capaz de lhe apetecer comprar as empresas todas. Ele tem uma riqueza avaliada em €70 mil milhões e só teria de investir cerca de €33 mil milhões para comprar as 48 empresas cotadas na Euronext Lisboa, pois seria esse o seu valor de mercado total, caso o PSI20 caia mais 30% (atualmente é de €47 mil milhões).

Acho que a valorização do tecido empresarial do país, das nossas maiores empresas, está mesmo super deprimida e está num ponto que enfim, é barato demais, chega a ser ridículo. Não há ainda um catalisador para que haja pelo menos uma correção que eleve o valor das empresas cotadas nacionais a um patamar superior à riqueza de um único homem em Espanha, mas como disse, por vezes basta uma brisa.