Desobrigo-me de Combater o Forex

Boas,

O nosso ex-Primeiro Ministro, Pedro Passos Coelho, teve (há quem diga “finalmente”) uma ideia brilhante, que foi inventar, ou pelo menos relembrar, o verbo “desobrigar”.

Ele usou o verbo para afirmar que o jornalista José António Saraiva o tinha “desobrigado” de apresentar um livro polémico, mas eu vou mais longe e uso o verbo para me desobrigar a mim mesmo de combater o Forex.

Este verbo dá imenso jeito para aqueles que, como eu, prometem mais do que fazem, mas ainda assim, fazem muito mais que a média. Não mais teremos de pedir desculpa por ficar aquém das expetativas por nós indevidamente empoladas. E já não é preciso – este é o modus operandi da maioria – ignorar vergonhosamente o assunto a ver se os outros se esquecem. Agora, caros companheiros, podemos desobrigar-nos!!! Obrigado PPC!

Uma das minhas missões na vida era combater as corretoras de Forex e CFDs. Ninguém me mandatou para esta missão e certamente nunca ninguém me pagou pelos serviços prestados. Fazia-o como uma espécie de serviço público, pois são incontáveis os relatos de pessoas que tudo perderam, e a sua Família arruinaram, às mãos desta indústria das corretoras de Forex e CFD. E nunca, nem por uma vez em 20 anos de Bolsa e contactos com milhares de traders, conheci um que tenha transacionado Forex ou CFD por mais de um ano e que tenha ganho. Nem um, antes pelo contrário, TODOS perderam!

Coitados, não leram ou não compreenderam os contratos de abertura de conta, onde diz que as corretoras actuam como contraparte dos trades e como tal têm um flagrante conflito de interesses com os seus clientes. O modelo de negócio destas corretoras baseia-se na expetativa – e no facto – dos seus clientes perderem. Quanto mais clientes forem angariados e quanto mais dinheiro esses clientes perderem, mais a corretora ganha – pois se actua como contraparte dos trades – aquilo que os clientes perdem é o ganho da corretora. Daí o avultadíssimo investimento publicitário destas organizações: tudo o que entra na casa, fica na casa.

Por isso estas corretoras têm todo o interesse em prestar um mau serviço: são os spreads que alargam em situações especiais de mercado, são os stops que só são despoletados nas cotações internas da corretora – mas não no mercado real – é o aliciamento para posições que depois são contrariadas no mercado real (como ainda há pouco tempo aconteceu ao Xavi Valente), é a falsificação de track records e o patrocínio de websites fraudulentos como o MyForexBook, etc. Um sem fim de instrumentos para tramar os incautos que confiam as suas poupanças nas corretoras de Forex e CFD.

Antes de prosseguir devo dizer que eu nunca negociei Forex ou CFD porque desde o início me apercebi que o modelo de negócio destas corretoras era contrário aos meus interesses como investidor/trader. Negociei apenas futuros (entre 1998 e 2015) e inclusive fui um Commodity Trading Advisor credenciado pela National Futures Association de Chicago. Desprezo o Forex e CFD não por desconhecer estes produtos financeiros complexos, mas sim por conhecê-los bem demais.

Agora, a minha filosofia de vida é baseada no laissez-faire. Por princípio, acredito numa liberdade económica quase total. Agora, isso não quer dizer que se possa roubar, que no meu entender é o que as corretoras de Forex e CFD fazem, pelo menos aquelas que não colocam as ordens dos clientes no mercado real. Agora, se os reguladores permitem (só na Europa, nos Estados Unidos não), se a Lei permite, quem sou eu para combater esta indústria? Que interesse tenho eu em fazer isso? Pessoalmente, nenhum.

Se as pessoas querem pôr dinheiro em corretoras de Forex e CFD, pois que o façam, o dinheiro é delas e o problema é delas. Se as pessoas querem acreditar em track records de sítios como o MyForexBook -supostamente independentes e fidedignos – mas que são patrocinados pelas seguintes corretoras de Forex …

 track records de trades em forex - MyForexBook

Corretoras de forex

… entre outras, pois que acreditem.

Aliás, eu agora decidi suspender por momentos a minha desconfiança e vou analisar os sistemas que estão a ser avaliados pelo MyForexBook. Em 44 sistemas em AutoTrading, 44 lucrativos. Em 225 Signal Start Systems … 225 lucrativos! Em 1 882 sistemas encontrados no MyForexBook … 1 882 lucrativos, é fantástico! Acabei de descobrir que afinal, contrariamente ao que todas as pessoas que comigo contactaram nos últimos 20 anos, nunca ninguém perdeu no Forex e toda a gente ganha! E alguns ganham, deixem ver … 3 932%! 25 000%! Milhões de %!

Eh pá, afinal isto é uma mina de ouro, vou já deixar as ações e juntar-me aos homens de sucesso nas corretoras de Forex. Pois se o MyForexBook diz e se é “verified“, não há qualquer dúvida! Vou comprar um sistema com um track record verificado pelo MyForexBook, pôr o robot a trabalhar e vou para a praia. Finalmente terei todo o tempo do mundo para a minha família! Ficarei rico sem fazer nada, é brilhante!

HA HA HA HA HA

Seria preciso ser um completo imbecil, ou vá lá, uma pessoa muito ignorante ou ingénua, para acreditar nisto, desculpem lá os que acreditam, alguns com uns 15 anos de Bolsa. Na realidade, o que acontece é gastar o dinheiro no “robot” (na verdade umas fórmulas matemáticas da treta) e depois perder tudo na corretora de Forex.

Fim da história.

Faço no entanto uma ressalva: as corretoras de Forex reguladas pela CFTC dos Estados Unidos. Penso que eventualmente toda a gente perde tudo nas corretoras de Forex porque não consegue controlar a alavancagem, mas admito a existência de corretoras que não têm evidentes conflitos de interesse com os seus clientes, embora sejam muito poucas.

Conclusão

Este é o primeiro e último artigo do Borja on Stocks que dedico a coisas hediondas como Forex e/ou CFD. Pessoalmente desobrigo-me de combater esta indústria. Desobrigo-me de seguir, criticar ou avalizar quem promove esta indústria, pois ninguém me mandatou para tal e tenho coisas mais interessantes para fazer. As pessoas que quiserem abrir contas e confiar nas corretoras de Forex e CFD são livres de o fazer. Também são livres de pegar num molho de notas e distribuí-las na rua (a não ser que sejam declarados incapazes para gerir o seu património por um Tribunal).

Como diriam os franceses, laisser faire et laisser passer.