Difícil avaliar a VALE

Boa tarde,

Cá estou para a segunda ação brasileira e escolhi a VALE (VALE5.SA), que vale cerca de €25 mil milhões e é a 5ª maior empresa do Brasil.

Começo por visualizar o gráfico de longo prazo:

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Vemos um bull market extraordinário desde 1992 até meio de 2008, seguido de uma “correção” de 65%, uma recuperação até um nível ligeiramente inferior e depois um bear market de -84%. Desde o mínimo atingido no dia 26 de janeiro a R$6,44 …

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… a ação disparou 162% em cerca de dois meses para um máximo de R$16,87. Neste momento a VALE está cotada pelos R$14,73.

Após ver a história da cotação, vou ler a história da empresa. A história da VALE é de tal forma antiga, interessante, complexa e controversa que vou optar por sair de fininho para o estudo dos fundamentais em termos históricos.

É curioso que a empresa prefere salientar os seus relatórios e contas divulgados sob o formato americano 20-F, um formato que conheço bem e que é muito organizado e transparente, por isso também vou utilizá-lo. Ainda que os relatórios estejam em português (do Brasil), a moeda utilizada é o USD.

Comecemos pela evolução do nº de ações e capitalização bolsista:

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Deu muito trabalho construir este gráfico por causa dos diversos stock splits e dos ajustes que tive de fazer tendo em conta a evolução do câmbio entre o BRL e o USD, pois usei o gráfico da ação em BRL e queria obter o Valor de Mercado em USD, para poder comparar com as Vendas e Lucros que estão em USD nos relatórios.

Em primeiro lugar, devo dizer que o nº de ações em 1997 era de 4 663 milhões e agora é de 5 153 milhões, ou seja, a taxa média anual de aumento do nº de ações foi de 0,53%. A VALE não sofre de um problema do género do BCP, o nº de ações tem crescido a um ritmo negligenciável.

O Valor de Mercado da empresa em 1998 era de $4,5 mil milhões (USD) e em 2010 fechou o ano a valer mais de $136 mil milhões, ou seja, trinta vezes mais. Em 2015 fechou a valer cerca de $16 billion e agora está avaliada pelo mercado em cerca de $28 billion.

Obviamente queremos saber se estas enormes oscilações tiveram a ver com a evolução das Vendas e de que forma os investidores têm avaliado a VALE em termos das suas vendas anuais:

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Sim, claramente existe uma correlação entre a evolução da cotação e as Vendas, ainda que desfasada no tempo. Por exemplo, a cotação atingiu um pico em 2008 e em 2009 é que as Vendas desceram (-38%). Como vimos o máximo do valor da empresa foi atingido no final de 2010, em cerca de $136 billion, mas o máximo das vendas foi só em 2011, em cerca de $60 billion. Depois houve uma quebra das vendas até aos $25,6 billion de 2015, quando a empresa fechou a valer apenas os tais $16 billion. Nunca na sua história a VALE tinha transacionado com um Price to Sales Ratio (PSR) de 0,6, esse foi o ponto mais barato de sempre. Neste momento, tendo em conta a estimativa dos analistas para 2016, o PSR está nos 1,2. A média histórica do PSR da VALE é de 2,4, portanto a VALE está bastante barata em termos históricos.

Estou curioso para saber se com esta quebra de mais de 50% das Vendas a VALE deu prejuízo ou conseguiu manter-se lucrativa, vejamos:

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Pois, não aguentou e após 18 anos consecutivos de Lucro (sem contar antes de 1997) a Vale deu um prejuízo de $12,6 billion em 2015.

Para os próximos anos os analistas esperam, em média, um Lucro de qualquer coisa como $2,4 billion ao ano daí que, com um valor de mercado de $28,3 billion, o PER 2016 está pelos 11. Vejamos como este indicador compara com a média histórica:

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Pois, tirando as anomalias de 2013, 2014 e 2015, verifico que a Vale é uma ação que, ao contrário da Ambev, é pouco valorizada pelos investidores. A média do PER é cerca de 11, que é o mesmo valor a que está agora.

Talvez este tipo de valorização aconteça porque, enquanto que a cerveja nunca mais acaba, o minério eventualmente acaba mesmo, será que a aparente subavaliação tem a ver com essa sensação de ser um negócio finito? Vejamos a maior do setor, a inglesa BHP Billiton … vale $74 billion, quase o triplo da Vale. E nos próximos quatro anos os analistas estimam um Lucro médio anual de cerca de $3 billion, com um forte crescimento ano após ano, o que confere à BHP Billiton um PER previsional de 25. Portanto o problema não é o setor mineiro em geral, o problema é mesmo a falta de confiança por parte dos investidores na Vale.

Quero dizer-vos que reparei que a Vale nos últimos anos deu muito mais em dividendos aos acionistas do que lucrou, vejamos que impacto é que isso teve nos principais rácios do Balanço:

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Pois, desde 2008/2009 que o Balanço tem vindo a deteriorar-se, com o current ratio a descer e o debt to equity ratio a subir (para compreender bem estes termos veja o glossário).

Perspetivas

A queda da Vale teve a ver com uma deterioração fundamental, não com desrespeito pelos acionistas, antes pelo contrário. Em 2013 e 2014 a Vale lucrou apenas $759 milhões e distribuiu $8 700 milhões pelos acionistas (ambos os números no conjunto dos dois anos). Claro que esses $8 700 milhões fizeram falta em 2015, quando perdeu $12 620 milhões – mesmo nesse ano de 2015 a Vale distribuiu $1 500 milhões em Dividendos (!)

Pessoalmente não gosto nada deste tipo de comportamento, dá-me a sensação que os sanguessugas controlam e chupam a empresa na atualidade, não tendo em conta a viabilidade e saúde do negócio a longo prazo.

Comparemos novamente com a BHP Billiton … fez a mesma coisa, lucrou $0,64 por ação e deu $1,24 por ação em Dividendos. Vejamos o gráfico desta ação, cotada em Londres …

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Um bocado menos extremada que a Vale, mas existe uma evidente correlação. Os analistas estão bem mais otimistas para a BHP Billiton para os próximos anos do que para a Vale, mas talvez essas diferenças sejam injustificadas.

Eu agora precisava de saber exatamente quais são os produtos que a Vale vende (sim, minério de ferro, algum ouro, mas que mais?), em que proporções, quanto é que ainda tem desses minérios nas suas minas, quanto custa a extrair, quais os preços de mercado dos produtos, quais os custos de transporte e as variáveis que influenciam a procura desses produtos, tudo coisas dificílimas de estimar.

Já estou a trabalhar nesta ação há cerca de cinco horas e quanto mais estudo, mais preciso de saber para chegar a uma conclusão. Estas empresas mineiras têm mesmo muito que se lhes diga. Uma vez comprei e li um livro inteiro sobre este setor e vi que o próprio autor do livro tinha muito que estudar.

Era preciso ter acesso aos analistas especialistas do setor, aqueles que falam frequentemente com a gestão das companhias e que desenvolvem rácios próprios. Já na altura da “febre do ouro”, lá para 2001, tive este problema. Sabem o que é que eu gostava? De fazer crescer o BorjaOnStocks de tal forma que pudesse subscrever o Thomson One Analytics, que custa uns €2 mil por mês e dá acesso a todos os analistas do mundo, para todas as ações. Mas só está disponível para quem tem pelo menos €2 milhões líquidos para investir, ou seja, não vendem a qualquer um, nunca venderiam a mim, pois saberiam que eu poderia disseminar a informação. Sim, porque os €2 milhões para investir, isso é fácil (ha ha ha) … já tive acesso a esse serviço, mas era porque o Miranda tinha um amigo que trabalhava na Reuters que lhe deu a password, mas depois mudaram-na 🙁

Talvez dê para comprar um research individual sobre a VALE. Ou então, podemos fazer como os ceguinhos que se guiam pela Análise Técnica, sempre a tremer.

Conclusão

Esta análise fica sem conclusão. Trabalhei muito, mas sei pouco e não posso concluir nada. Continuarei a estudar a Vale e o setor mineiro com interesse.

Disclaimer

Esta publicação é para efeitos meramente informativos e educacionais e nunca deverá ser entendida como uma recomendação de compra ou venda de ações. O BorjaOnStocks e a sua Equipa não assumem qualquer responsabilidade por eventuais perdas ou ganhos resultantes da informação obtida nesta publicação. Se necessitar de conselhos financeiros, procure sempre os serviços de um profissional devidamente autorizado e credenciado. 

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