O Peso da Bolsa de Lisboa na Euronext

Bolsa de Lisboa: da BVL à Euronext Lisbon

A vulgarmente conhecida Bolsa de Lisboa, que hoje em dia designamos por “Euronext Lisbon” já teve vários nomes.

O primeiro, que vigorou desde o seu nascimento em 1769 até 1999 foi Bolsa de Valores de Lisboa (BVL). Em 1999 houve uma fusão da BVL com a Bolsa de Derivados do Porto (BDP) que originou a Bolsa de Valores de Lisboa e Porto (BVLP). Finalmente, em 2002, a BVLP juntou-se à plataforma internacional Euronext, tendo passado a designar-se oficialmente por Euronext Lisbon. 

Atualmente a Euronext é constituída pelas bolsas de quatro países, França, Holanda, Bélgica e Portugal. A Euronext também contém uma bolsa de derivados no Reino Unido. 

Antes da BVLP se juntar à Euronext havia uma grande expetativa junto dos investidores portugueses que essa fusão das bolsas traria mais liquidez e valorização às ações das empresas nacionais, mas essas expetativas saíram frustradas, sendo que a liquidez e valor dos títulos negociados hoje em dia na Euronext Lisbon é bastante inferior ao que era na altura da BVL, em 1998, por exemplo. Pode argumentar-se que este facto não tem a ver com a fusão com a Euronext, que foi por outros motivos que a Euronext Lisbon se desvalorizou e tornou menos líquida (o fraquíssimo desempenho da economia portuguesa desde o ano 2000, por exemplo). Concordo com estes argumentos, porém também deverá ser dito que a Euronext pouco contribuiu para o crescimento do mercado de capitais em Portugal.

As empresas novas que surgiram no mercado de ações nacional desde que se chama Euronext Lisbon: 

1 –  Altri (spin off da Cofina em 2005)

2 – Benfica SAD (OPV em 2007)

3 – CTT (privatização em 2013)

4 – EDP Renováveis (cisão da EDP em 2008)

5 – F. Ramada (cisão da Altri em 2008)

6 – Galp Energia (OPV em 2006)

7 – Luz Saúde (OPV em 2014)

8 – Martifer (cisão da Mota-Engil em 2007)

9 – Grupo Media Capital (OPV em 2004)

10 – Montepio (“OPV” em 2013)

11 – REN (privatização em 2007)

12 – Sonae Capital (OPV em 2008)

Apenas 12 novas ações em 14 anos parece-me pouco. Dá uma média inferior a uma por ano. E nos últimos 7 anos, apenas duas novas ações surgiram no mercado, quer dizer, apenas uma, os CTT, porque no caso do Montepio não se podem considerar os títulos do banco como ações. Ou seja, nos últimos 7 anos, só uma nova empresa cotou as suas ações na Euronext Lisbon. 

Poderia dizer-se que é por causa da crise, ou porque “os portugueses não têm capital para investir em ações”, mas, como vimos no artigo de ontem, Ações versus Depósitos, os portugueses têm €138 mil milhões em Depósitos bancários por isso o argumento de que não há dinheiro não colhe. 

Penso que o problema é diferente e tem a ver com a negligência da Euronext em relação à praça de Lisboa. Porquê?

Porque o peso da Euronext Lisbon no conjunto da Euronext (nem vou falar no conjunto da NYSE Euronext, aí é uma gota de água no oceano) é muito reduzido.

Peso da Euronext Lisbon no conjunto da Euronext

Vejamos alguns indicadores:

Bolsa de Lisboa: Volume em euros nas bolsas da Euronext

Tomando como exemplo a sessão de ontem, a Euronext Lisbon representa apenas 1,76% do volume total em euros da Euronext. 

Bolsa de Lisboa: Número de empresas cotadas nas bolsas da Euronext

Em termos do n.º de empresas cotadas a Euronext Lisbon (contando também com o Alternext e o Easynext Lisbon) tem 64 empresas, 4,44% do total da Euronext. O problema é que 27 dessas 64 ações não tiveram qualquer transação ontem. Se retirarmos as ações que não transacionaram ontem o nº de cotadas na Euronext Lisbon cai para 37, menos de 3% do total da Euronext. 

Bolsa de Lisboa: Capitalização bolsista das bolsas da Euronext

Em termos da Capitalização Bolsista, ou Valor de Mercado, é que a coisa se torna mesmo desequilibrada, com o conjunto das empresas cotadas na Euronext Lisbon a valer apenas €50 mil milhões, ou 1,28% do total das empresas cotadas na Euronext, que no seu conjunto valem qualquer coisa como €3.900 mil milhões. 

Paris é obviamente a grande bolsa da Euronext, com um peso que vai dos 65% aos 75% nos diversos indicadores, seguida de longe por Amesterdão, com um peso de 25% no volume negociado ainda que tenha apenas cerca de 10% das empresas cotadas. Bruxelas e especialmente Lisboa são os pequenotes desta União. 

A bolsa de Lisboa, que se juntou mais tarde que as outras três à Euronext, é tão pequena que provavelmente estará algo negligenciada ou esquecida nos esforços de promoção da administração da Euronext, que é uma empresa privada cotada em bolsa e que naturalmente tem como objetivo o Lucro. É muito mais fácil e tem mais impacto para a Euronext aumentar a dimensão de mercados como Paris e Amesterdão, por exemplo, do que ir aumentar o valor da praça lisboeta, que pela sua muito reduzida dimensão, não teria um impacto relevante na Euronext como um todo. 

Esta situação é injusta para Portugal e deveria merecer a atenção e ação do Governo. Porquê que é uma situação injusta? 

Vejamos o peso das respectivas economias:

Bolsa de Lisboa: Peso das economias das bolsas da Euronext

Como vemos na tabela e gráfico acima, Portugal tem um peso económico de 5,2% no conjunto dos 4 países. Isto compara com 1,76% do volume da Euronext e 1,28% da capitalização bolsista. Por outras palavras, o volume da Euronext Lisbon deveria ser 195% mais elevado e o valor de mercado das nossas cotadas deveria ser 306% mais alto para que a realidade bolsista de Portugal correspondesse à sua realidade económica. 

Conclusões práticas deste artigo:

– O Governo de Portugal deverá ter em atenção estas assimetrias no acesso ao mercado de capitais e procurar pressionar ou legislar de forma a que sejam corrigidas;

– Os investidores franceses podem dar atenção apenas à Euronext Paris, que é imensa e repleta de oportunidades. Mas nós, os pequenos investidores portugueses, temos de procurar mais oportunidades no estrangeiro porque as que temos cá não são suficientes. 

César Borja