Ações versus Depósitos

Este artigo marca o regresso da rubrica Homo Economicus, que foi a génese da minha escrita sobre Bolsa, já lá vão 18 anos!

Comecei por construir uma tabela muito simples, que contém a lista de todas as cotadas na Euronext Lisbon, a percentagem de capital em free float (free float é o capital que não é detido por entidades estratégicas e que por isso pode ser negociado a qualquer momento na Bolsa) e a capitalização bolsista total à cotação atual:

Free float e capitalização bolsista empresas Bolsa de Lisboa

Valor das empresas cotadas na Bolsa de Lisboa

Free float e capitalização bolsista empresas Bolsa de Lisboa

Algumas notas acerca da tabela acima:

1 – Quando não havia informação disponível para a cotada considerei que o free float era de 100%. Isso aconteceu apenas em empresas muito pequenas, a Compta, a Estoril Sol, o Montepio (aqui não se trata de uma empresa, nem sequer de ações), a Sporting SAD e o Sporting de Braga SAD, pelo que a influência nas conclusões do estudo será muito diminuta;

2 – Em média, as empresas cotadas têm apenas 38,3% do seu capital disperso em Bolsa. Existem 7 empresas com uma dispersão inferior a 10% do capital: Cimpor, Grupo Media Capital, Lisgráfica, Luz Saúde, Sonaecom, Sumol+Compal e Toyota Caetano. Na minha opinião as entidades estratégicas que controlam estas empresas deveriam ser obrigadas a fazer uma de duas coisas: ou vendiam uma parte da sua posição a outros investidores para aumentar a liquidez dos títulos ou faziam uma OPA potestativa às ações que ainda estão no mercado;

3 – Existem 55.826.869.529 ações dispersas no mercado. O BCP é responsável por 82% do total!

4 – A ação com a cotação mais alta é a Jerónimo Martins, nos €14,8. A ação com a cotação mais baixa é a Sonae Indústria, nos €0,0046. A cotação média é de €2,48;

5 – O free float total vale apenas €22,76 mil milhões;

6 – A Capitalização Bolsista, ou seja, o Valor de Mercado, do conjunto das empresas cotadas na Euronext Lisboa é de €50,94 mil milhões. À cotação atual a empresa mais valiosa é a Jerónimo Martins, seguida de perto pela EDP e depois a Galp. 

Para além dos factos interessantes dados pela tabela, a conclusão a que quero chegar é que, se houvesse liquidez perfeita e infinita, cerca de €23 mil milhões chegariam para comprar todas as ações em negociação na Euronext Lisbon!

Agora, vejamos quanto é que os Portugueses (apenas os particulares) têm em depósitos bancários: €138 mil milhões, ou seja, 6 vezes mais!

(nota: para verificar o montante em depósitos bancários dos particulares ver secção B.5.1.6. do Boletim Estatístico do Banco de Portugal)

É claro que esta é apenas uma hipótese teórica, mas, se os Portugueses decidissem de repente comprar todas as ações disponíveis na Euronext Lisbon, teriam capital em depósitos para o fazer 6 vezes. 

Comparemos esta situação com o que se passava no máximo histórico do PSI20, no ano 2000:

Gráfico do PSI 20 desde a sua criação em 1993 - o valor dos depósitos a prazo daria para comprar todas as ações cotadas no índice

Vamos simplificar e assumir que, quando o PSI20 atingiu o seu máximo a 15.081 pontos, o free float era também qualquer coisa como 38,3% do capital total e que valia 15.081/4.875 = 3,09 vezes mais do que vale agora, ou seja, 3,09*23 = €71 mil milhões. 

Nesse mês de março de 2000, o valor em depósitos dos portugueses nos bancos era de cerca de €80 mil milhões:

Evolução do montante em depósitos a prazo desde 1989

No topo do mercado acionista os portugueses tinham em depósitos apenas 12,6% mais do que o valor do free float de todas as ações da Euronext Lisboa e agora têm 500% mais dinheiro depositado do que o valor desse mesmo free float. Esta enorme diferença acontece porque o valor em Depósitos subiu 73% enquanto que o valor do free float das empresas cotadas desceu 68% nos últimos 16 anos. 

Conclusão: Há muitíssimo capital disponível para comprar ações, muito mais do que no passado. O mito de que “os portugueses não têm capital para investir em ações” não tem validade. Agora, o que falta é um catalisador para que se inicie um novo bull market que entusiasme os Portugueses a passarem pelo menos uma parte do montante que têm em Depósitos (a render zero ou perto disso) para o mercado acionista. 

César Borja