7 Pecados Mortais para o Portfolio: Nº7 – Shortar

Caros Subscritores do BorjaOnStocks,

Quando o mercado começa a cair forte e feio, como nos últimos dias, existem dois tipos de tentações:

– Ir logo a correr comprar, porque se está a cair é porque está mais barato e é preciso aproveitar rapidamente os saldos;

– Se a tendência é de queda, mais vale ir com a corrente e shortar ações.

Shortar é vender ações a descoberto, ou seja, vendê-las primeiro e comprá-las mais tarde. Em Portugal os pequenos investidores não costumam fazer muito isto, há uma certa dificuldade – a não ser através de produtos financeiros derivados (ver Pecado Mortal para o Portfolio Nº3 – Produtos Financeiros Exóticos) – mas na New York Exchange ou no Nasdaq é prática mais ou menos comum. E os hedge funds e alguns institucionais também shortam na Euronext.

Quando se shorta o objetivo é ganhar com a queda das cotações … vende-se a ação XPTO a €10 e mais tarde compra-se a €8, lucrando os €2 de diferença. Possivelmente alguns leitores nunca ouviram falar desta possibilidade e estão a perguntar “mas como é isso possível?”, por isso é melhor eu explicar como funciona o mecanismo:

– O investidor A pede, por exemplo, 1 000 ações da XPTO emprestadas à corretora e vende-as no mercado por €10 cada uma. A corretora normalmente cobra a comissão de corretagem mais um juro pelo empréstimo das ações, que na realidade pertencem ao investidor B. O investidor B nem sequer sabe que as suas ações foram emprestadas, nem lhe interessa, para ele é tudo igual. Mais tarde, o investidor A precisa de devolver as ações à corretora, digamos, para pagar o empréstimo. Para isso volta a comprar as 1 000 ações no mercado. Se enquanto este processo decorre as ações da XPTO caírem, ótimo, o investidor A ganha dinheiro. Mas se subirem ele perde dinheiro.

Eu na verdade sou completamente a favor deste mecanismo de shortar ações individuais. Considero que é uma ferramenta útil para manter o mercado vivo – e os serviços que dele dependem – mesmo em momentos de Bear Market prolongado. E serve também para aumentar a eficiência do mercado na avaliação das ações, pois há incentivos de ambos os lados. Porquê que o mecanismo de shortar mantém o mercado vivo? Ora, porque dessa forma há mais liquidez, com investidores a comprar, a vender, a shortar e a fazer buy to cover, o que em português seria qualquer coisa como “comprar para fechar posições curtas”.

Agora, lá por eu ser a favor do mecanismo de shortar em termos gerais, não quer dizer que o recomende aos meus leitores. Acho mesmo que shortar ações é uma perda de tempo e um desperdício na alocação de capital que irá deteriorar significativamente a performance do Portfolio a longo prazo. Tenho dois motivos essenciais para considerar que shortar é uma perda de tempo e recursos:

– Uma ação só pode cair 100%. Nunca poderá cair mais de 100%. Até pode cair 80% ou 90% várias vezes, mas no total, mesmo que venha de €1 000 até €0, são só 100% de queda. O investidor que shorte ações a €100 e depois as compre a €1, ganha 99%. Mas se o investidor comprar antes ações a €1 e depois as vender a €100, aí, caramba, ganha 9 900%. Há dúvidas? Deve haver, porque eu na minha santa ignorância só fiquei mesmo seguro disto após uns 10 anos de bolsa … então vamos lá ver um exemplo:

O investidor A quer investir €10 000 numa ação. Acha que o mercado vai cair e que a ação XYZ está sobreavaliada nos €20. Shorta a ação a €20 (com os €10 000 consegue shortar 500 ações) e admitamos que ele está correctíssimo e que mais do que isso, consegue aguentar todos os solavancos pelo caminho, aguenta grandes ressaltos e acaba por fechar a sua posição short na XYZ a €2. Wow, mas que trade fantástico!

Qual foi o seu lucro? Foi 500*(20-2) = €9 000. No final ele tem €19 000 e lucrou 90%!

Mas, o investidor B, em vez de andar a estudar ações sobrevaliadas para shortar, passou o tempo antes à procura de ações subavaliadas e apanhou a ação ABC por €2. Investiu os mesmos €10 000 e ficou com 5.000 ações. Ele estava correto e a ação subiu dos €2 para os €20. O movimento é o mesmo que na situação anterior, mas o investidor B lucrou … 5.000*(20-2) = €90.000, ou 900%.

O movimento da cotação é o mesmo, uma viagem de €18 entre os €2 e os €20, mas o investidor B lucrou dez vezes mais! Então, valeu assim tanto a pena andar a alocar o capital a ações para shortar, desperdiçando a oportunidade de alocar esse capital ao lado longo do mercado? Não vale a pena perder tempo com os shorts, mais vale esperar que as ações caiam e fiquem boas para comprar. Mas para isso é preciso ter paciência e força de vontade para manter o capital quieto durante alguns meses, sem nada ganhar, mas quem tudo quer apanhar, tudo perde!

– O segundo motivo pelo qual considero que shortar é uma atitude errada é por causa do risco! Uma ação só pode descer 100% (nunca aconteceu uma ação descer 120%, ou descer  200%, é impossível! Não há cotações negativas nas ações meus amigos…), mas caramba, pode muito bem subir 200%, 300%, 1 000%, 10 000%!

Portanto, quem shorta está a assumir um risco infinito – sim, pode perder muito mais do que investe, se a ação subir significativamente do preço a que shortou terá uma margin call da corretora a dizer para pôr mais dinheiro na conta – enquanto que o potencial de ganho é de apenas 100%.

Agora, existem alguns estratagemas que permitem contornar esta ideia de que o lucro máximo será 100%, algo que aprendi com um trader americano bastante experiente. Eu nem sei se quero ir por aí neste artigo, pois, não vou, a não ser que me peçam, pois a ideia essencial do artigo e que quero que fique memorizada é:

Shortar ações não leva a lado nenhum no longo prazo. É mais benéfico investir apenas do lado longo, ainda que isso implique períodos em que o capital esteja parado.

Se eu fosse um trader a escrever para traders seria diferente, pois os traders precisam de estar sempre no mercado a aproveitar todos os swings que conseguem ou querem conseguir aproveitar. Para os traders shortar é necessário, mas para isso há veículos melhores que as ações individuais, nomeadamente os futuros.

Agora os investidores, a shortar? Os investidores investem em empresas, shortar seria desvirtuar completamente a sua atividade. O Warren Buffett, por exemplo, ainda que considere muitas vezes a generalidade das ações sobreavaliadas, não se põe a shortar, prefere esperar pacientemente sentado em cima de uma pilha de dinheiro pelas boas oportunidades para comprar, que vêm sempre …

Em suma, era bom que fosse mais fácil shortar ações na Euronext Lisboa, em termos gerais, pois isso manteria a liquidez e o mercado vivos, mas seria desaconselhável para os subscritores do BorjaOnStocks, que deverão ter preferência pelo lado longo do mercado, mantendo pacientemente o seu capital parado até que as boas oportunidades finalmente cheguem.

César Borja

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