7 Pecados Mortais para o Portfolio: Nº6 – Não Conhecer os Fundamentais

Existem muitos investidores que evitam as ações individuais e investem apenas no mercado em geral, quer seja através de fundos de investimento, quer seja através de Exchange Traded Funds (ETF). Eles fazem isso porque pretendem estar expostos apenas ao risco de mercado e não ao risco específico de cada empresa. O problema desta estratégia é que o retorno também tenderá a ser médio, ou seja, tendencialmente igual ao do mercado em geral.

Outros investidores têm mais apetência pelo risco e investem em ações individuais. Neste caso estarão expostos ao risco de mercado e também ao risco específico das empresas em que investem. Eu sou um destes investidores, gosto de comprar ações de empresas, isto é, partes de empresas concretas. O Pecado Mortal para o Portfolio Nº6 é investir em ações individuais sendo ignorante em relação à Análise Fundamental.

A primeira pergunta que faço quando alguém me diz que pensa investir, ou que investiu, em determinadas ações é: “mas tu sabes qual é o valor de mercado da empresa?” E, na maior parte das vezes, não sabem. Obviamente sabem qual é a cotação da ação, essa é publicitada várias vezes por dia em muitos meios de comunicação social, mas são ignorantes em relação a uma questão mais importante, que é “qual é o valor de mercado total da empresa?” É que sem saber isso não sabem qual o preço que estão a pagar pela empresa … não podem ter a mais pequena ideia sobre se vai subir ou vai descer, uma vez que nem sequer sabem a que preço está!

Então no BCP este erro é extremamente comum. Vêem uma ação cotada a 5 cêntimos e pensam “está barato”. Mas, afinal qual é o valor de mercado, a capitalização bolsista do BCP? Neste momento, com a cotação nos €0,0519 e as 59 013 991 225 de ações emitidas, o valor de mercado do BCP é 0,0519*59 013 991 225 = €3 063 milhões!

É possível que até esteja caro, ou barato, essa não é a questão relevante para este artigo. A questão relevante é que qualquer consideração sobre se está caro ou barato terá de partir deste valor dos €3 063 milhões e não dos €0,0519, que só por si dizem muito pouco acerca do valor total da empresa.

Tendo o valor de mercado da empresa, a sua capitalização bolsista, é preciso compará-la com outras medidas. Que medidas? Por exemplo, é relevante comparar quanto é que a empresa vale com quanto é que vende e lucra num ano. Quanto menor o valor de mercado face ao montante das vendas e lucros anuais, mais subavaliada estará a empresa. E vice-versa, um valor de mercado muito elevado para vendas e lucros muito pequeninos evidentemente indica uma situação de sobre-avaliação. Ainda que fulcral, esta análise é demasiado simplista e outros fatores deverão ser considerados, pois a empresa vale sobretudo por aquilo que poderá gerar no futuro e não tanto por aquilo que fez no passado.

Outra análise muito importante é avaliar o Balanço da empresa. Qual é o seu valor contabilístico, ou seja, o valor do seu Ativo, depois de descontado o Passivo? E de que forma é que esse valor contabilístico compara com o valor de mercado?

Quem investe em ações individuais sem ter a mais pequena ideia destas métricas estará a cometer o Pecado Mortal para o Portfolio Nº6 – Não Conhecer os Fundamentais

Quando não se conhecem os fundamentais das empresas individuais, as decisões de investimento são tomadas num vazio de conhecimento, o que gera mãos fracas e overtrading (estar constantemente a comprar e a vender, sem motivos racionais válidos), gera decisões erradas que levam a prejuízos e um risco elevado que poderia ser evitado com algum estudo de Análise Fundamental.

Eu comecei a estudar ações em 1996 e, talvez pela minha formação em Economia e influenciado pelo livro Ganhar em Bolsa – entre outros – sempre apontei baterias ao estudo do mercado em geral, em vez de me dedicar ao estudo das empresas individuais. Só passados 10 anos, em 2006, mais por necessidade que interesse, é que fui forçado a aprender Análise Fundamental (AF) e foi como se tudo passasse a fazer sentido. Foi uma descoberta maravilhosa que me entusiasmou, embora ainda fosse ignorante sobre muitos aspetos da AF. Nos anos seguintes aprendi mais alguns “truques”, mas é certo que ainda me falta aprender muita coisa.

Mas vejam só a Euronext Lisboa este ano. Temos as ações do BES, da Espírito Santo Financial e do Banif sem qualquer valor. E temos outras como a Altri e a Corticeira Amorim a duplicarem de valor. Estes desenvolvimentos eram há muito evidentes para qualquer estudante, mesmo que iniciado, de Análise Fundamental. É claro que a AF também falha, pois o futuro é incerto – por causa disso é que se deve, acima de tudo, respeitar uma estratégia coerente de controlo do risco – mas que dá muito mais garantias que a ignorância, sem dúvida que dá. Sem dúvida que vale a pena estudá-la, especialmente se o investidor for sério e pretender investir por várias décadas e deixar um património valioso aos filhos.

A Análise Fundamental não é uma coisa estática, vai evoluindo e baseia-se muito nas tendências de longo prazo. Precisamos de conhecer não só as vendas e lucros do ano passado, mas também dos últimos 20 anos, para perceber a evolução, os fatores que fazem esses números subir e descer. E muitas vezes as cotações andam à frente dos fundamentais, pois os insiders (os principais acionistas e gestores das empresas) sabem antes do público os desenvolvimentos fundamentais e as suas reações e a informação que “transpira” têm obviamente influência no mercado e isso por vezes é muito claro nos gráficos. Quando são divulgadas boas notícias do ponto de vista fundamental mas a ação quebra tecnicamente, é um sinal de alerta. Da mesma forma que, quando são divulgadas más notícias mas a ação sobe, é porque talvez investidores mais informados acerca dos desenvolvimentos mais correntes já estão a comprar, ou porque, apesar das más notícias, já estava tudo descontado pelo mercado, a ação já estava muito barata em relação aos seus fundamentais.

Como é óbvio eu não pretendo neste artigo explicar tudo sobre Análise Fundamental, até porque não sei, e também porque o tema é infinito. Desejo apenas alertar para a necessidade de conhecer a AF e estudar os fundamentais das empresas. É claro que a AF, a todas as ações do mercado, dá muito trabalho e ocupa imenso tempo, por isso quem não tem tempo ou interesse suficientes, deverá cingir-se aos investimentos em fundos de investimento ou ETFs (os bons, é preciso saber escolhê-los), ou então confiar num analista financeiro independente que faça esse trabalho de forma séria por si. Bom, é isso que eu faço no BorjaOnStocks, por isso estou convicto que todos os que estão comigo estão no caminho certo para a valorização, a médio e longo prazo, dos seus investimentos.

 

César Borja