7 Pecados Mortais para o Portfolio: Nº3 – Produtos Financeiros Exóticos

Bom dia!

Já vimos que Baixar o Preço Médio de Aquisição e Alavancar são atitudes graves que levam, no médio e longo prazo, à falência de um portfolio de investimento em ações.

Hoje vou falar-vos do 3º Pecado Mortal para o Portfolio, que consiste na utilização de produtos financeiros exóticos.

Vamos lá ver uma coisa, na história da economia mundial, há três produtos financeiros que são sem dúvida alguma legítimos:

1º – Futuros

Os contratos de futuros, ou seja, contratos de promessa de compra e venda numa data futura a um preço pré-determinado, já existem pelo menos desde 1900 Antes de Cristo na Mesopotâmia e foram aliás um dos pilares do desenvolvimento da agricultura nessa civilização e aprovisionamento de cidades de grande sucesso como Babilónia;

2º – Obrigações

As obrigações, que são títulos de crédito mais antigos que os bancos, surgiram para financiar o Estado, nomeadamente nas grandes obras públicas e no esforço de guerra;

3º – As ações

As ações representam parte do capital de uma empresa. O registo mais antigo conhecido que documenta a existência de ações encontra-se em Cícero, que viveu em Roma entre 106 e 43 Antes de Cristo. Na sua obra Cícero comenta transações de ações das Societas Publicanorum, que eram empresas privadas que concorriam para obter contratos de fornecimento de serviços ao Estado.

Se os quisermos organizar por uma ordem crescente de risco, temos em primeiro lugar as obrigações, depois as ações e finalmente os futuros. Os futuros não são intrinsecamente um produto de risco (muitas empresas usam este mercado precisamente para se cobrirem, ou seja, evitarem, o risco), mas como permitem alavancagem, tornam-se arriscados para quem não domina certas regras de controlo do risco.

Mas, no BorjaOnStocks falamos essencialmente e principalmente de Ações. Ações que são partes de empresas. Falamos de um Portfolio de Ações.

Agora, há uma panóplia de produtos financeiros exóticos, que não são ações e que por isso são potencialmente perigosos, especialmente quando os investidores não percebem completamente e profundamente esses produtos financeiros. E, certamente que no futuro, serão inventados novos produtos financeiros que terão as suas caraterísticas intrínsecas que os tornam arriscados.

Dos que existem atualmente e de que eu tenho conhecimento, penso que transacionar os seguintes produtos financeiros exóticos será mortal para qualquer carteira que se pretende que seja exclusivamente composta por ações:

Contracts For Differences (CFD)

A origem dos CFD é também muito antiga e remonta ao período do Renascimento, sendo que os registos mais antigos remontam a 1540 em Antuérpia. Os CFD recaíam sobre bills of exchange, que têm a ver com taxas de câmbio, obrigações do tesouro e ações. Basicamente os investidores começaram a perceber que, em vez de comprarem as obrigações ou as ações, poderiam simplesmente apostar numa subida ou descida e depois pagar ou receber apenas a diferença entre a cotação que estiver na altura e aquela à qual tinham feito a aposta. Ou seja, imaginem que, em vez de recomendar a compra de ações da Altri a 3 €, eu tinha antes feito uma aposta com outro investidor (ou numa casa de apostas – que são as modernas corretoras de CFD) de que as ações iriam subir. Apostava 100 ações e agora que elas estão a 5,5 €, dizia ao vendedor, aquele que apostou comigo, passa para cá os 2,5 €*100 = 250 € que me deves, e o outro pagava, pois queria continuar com credibilidade e a negociar (é preciso ver que estas apostas dependiam da confiança e da reputação dos apostadores, pois a Lei não as permitia e não protegia os eventuais lesados).

Os CFD surgiram em força no final do século XIX nos Estados Unidos, com as Bucket Shops, que no fundo eram casas de apostas em ações. Estavam espalhadas por todo o país, mas levaram tanta gente à falência que o Governo Federal as proibiu após o crash de 1929. Ainda hoje os CFD são praticamente proibidos nos Estados Unidos, pois a Legislação é de tal forma exigente que praticamente nenhuma corretora tem capacidade para a cumprir, salvo a maior do mundo dos futuros, a ADM Investor Services. Já na Europa … enfim, é um fartar vilanagem. Estão por toda a parte a sugar, qual sanguessugas, as poupanças dos incautos. Estou a falar de coisas como o Saxo Bank e afiliados (OreyITrade, GoBulling, Best Trading Pro, etc) e outros tais como Plus500, ActivTrades, etc, etc. O negócio é de tal forma lucrativo – para estas casas de apostas, não devemos chamar-lhes corretoras – que há mercado para uma catrefada infindável de empresas.

E porquê que é tão lucrativo? Porque, em vez de ficarem com umas meras comissões de transação, ficam com o capital todo dos clientes, pois actuam como contraparte destes em todas as transações. Dão-lhes a possibilidade de alavancar 100 vezes, ou até 500 vezes e já sabem que num ápice os clientes vão perder tudo, pois eles têm o sistema montado para que seja sempre esse o desfecho. Eles controlam as cotações, os tempos de entrada das ordens, dos stops, das margin calls, da informação que dão ou não dão aos clientes, dos spreads entre a compra e a venda, da liquidez, enfim, é uma actividade em que existe um claro conflito de interesses entre os prestadores do serviço – as casas de apostas – e os utilizadores do serviço – os investidores. Quanto pior for o serviço, melhor para a casa de apostas, pois mais rapidamente ganha o dinheiro todo que o cliente lá pôs (e por vezes, mais do que pôs, ou seja, o cliente ainda fica a dever).

Claro que isto não é feito de forma transparente, mas se se derem ao trabalho de ler as letras pequeninas dos contratos de abertura de conta nessas casas de apostas, verificam que está lá escrito, preto no branco, que a contraparte das transações dos clientes é a própria empresa. Eles afirmam que não, que ganham com as pequenas diferenças entre o spread que praticam e o spread do mercado real, mas isso é só publicidade enganosa, eles ganham porque os clientes perdem, ponto.

Transacionar CFDs é mortífero para qualquer Portfolio.

Forex

Forex são CFD de taxas de câmbio e tudo o que foi escrito acima aplica-se ao Forex.

Opções

Opções são produtos financeiros mais legítimos que os CFD, no sentido em que a corretora que permite que se negoceie opções normalmente não actua como contra-parte dos trades. Porém, como o valor das opções vai erodindo com a simples passagem do tempo e também porque as opções permitem muita alavancagem, considero-as nocivas e muito perigosas para o Portfolio.

Warrants

Os warrants são parecidos com as opções, porém, à boa maneira Europeia, são piores no sentido que só se podem comprar warrants (vender só para fechar a posição), não se podem vender warrants (exceção feita aos emitentes dos warrants, normalmente bancos de investimento). As opções podem ser vendidas e recolhe-se o prémio, enfim, permitem algumas estratégias que até são de redução do risco, mas é preciso conhecer profundamente estes produtos e essas estratégias. Só mesmo investidores muitíssimo evoluídos e sofisticados é que estarão qualificados para negociar com opções. Warrants são tóxicos, opções, enfim, só mesmo para alguns iluminados, para a generalidade dos investidores levam também à ruína no médio/longo prazo.

Os warrants estiveram na moda em Portugal há uns 12 ou 13 anos atrás e levaram a que muita gente perdesse tudo. Depois passaram de moda, mas é preciso ter cuidado, pois a próxima geração de investidores já não vai saber o que são os warrants e cairá também nessa armadilha. As armadilhas podem ser ciclicamente as mesmas porque a maior parte dos investidores é nova e não conhece a história.

ETFs alavancados

Exchange Traded Funds (ETF) são produtos financeiros com alguma legitimidade, mas depende muito da qualidade do emissor e das características de cada produto, não posso pô-los todos no mesmo saco. Mas os ETFs alavancados são tóxicos.

Produtos Estruturados

Nos produtos financeiros estruturados, que estão na moda, é preciso ver muito bem a qualidade do emissor e as condições do produto. Eu por norma não recomendo nenhum destes produtos …

Cripto-Moedas

No início deste texto escrevi a seguinte frase:

E, certamente que no futuro, serão inventados novos produtos financeiros que terão as suas caraterísticas intrínsecas que os tornam arriscados.​

E não foi preciso esperar muito: cá estão as cripto-moedas para o novo cripto-mundo! Creepy se me perguntarem a mim.

A tecnologia blockchain promete aumentar a velocidade e diminuir o custo das transferências internacionais de dinheiro, mas o valor de tudo isto pára aí na minha humilde opinião.

A Bitcoin, por ser pioneira​ e ter emissão limitada pegou moda e subiu espetacularmente, milhares de vezes mesmo, mas o mesmo não se pode dizer das outras milhares de cripto-moedas​ (nascem novas todos os dias) que não passam de esquemas para sacar dinheiro aos incautos. A própria Bitcoin poderá ser replicada, melhorada e eventualmente substituída e cair 99% no longo prazo.

Conclusão

Enfim, este artigo já está um pouco longo e eu não quero fazer uma descrição exaustiva de cada produto financeiro, mas quero referir que, o meu produto de eleição são as ações! As ações!

Tudo o que não sejam ações não tem interesse para mim. Quero investir em empresas, quero ser dono de uma parte delas, quero ter ações. Conheço profundamente o produto e reconheço-lhe legitimidade e valor económico, que é comprovado por mais de dois milénios de história. As obrigações também têm legitimidade, mas enfim, não lhes acho piada nenhuma, não me sinto minimamente atraído por elas.

As ações são o produto financeiro de eleição para mim.

Todos os outros produtos financeiros são um desvio à regra que pode custar, e na maioria dos casos custa, a totalidade do Portfolio. Nunca vi ninguém ir à falência com um portfolio diversificado de ações, mas já vi muita gente, mais precisamente TODOS aqueles que negociaram CFD, Forex, Opções e Warrants ir à falência no médio prazo. Nos próximos anos vou ficar na plateia a ver acontecer o mesmo aos cripto-investidores.

As ações podem ter diferentes nomes em línguas diferentes, mas são sempre o mesmo produto, um produto de qualidade que representa uma parte da propriedade de uma empresa:

AÇÕES! STOCKS! SHARES! EQUITIES!