7 Pecados Mortais para o Portfolio: Nº1 – Reforçar em Perda

O serviço de análises a ações Borja On Stocks também deverá ter uma forte componente pedagógica, sob pena das análises pouco ou nada servirem aos interesses dos Membros do Borja On Stocks. Desta forma inicio hoje a série “7 Pecados Mortais para o Portfolio”, sendo que o primeiro episódio, a propósito das conversas que temos tido no Grupo Fechado dos Membros BorjaOnStocks acerca da F. Ramada, é sobre “reforçar em perda”.

O vídeo Estratégia de Controlo do Risco explica com alguma profundidade aquilo que entendo ser a melhor estratégia de alocação do capital a ações para um investidor individual. Por vezes existe alguma confusão, pois se estivermos a falar de um grande fundo de investimento em ações, ou de um Warren Buffet com centenas de milhares de milhões para investir, as regras serão naturalmente diferentes.

ações da Berkshire Hathaway subiram 74 310% desde 1980

Warren Buffett, considerado por muitos o maior investidor de sempre

Vejamos essas diferenças:

1 – O investidor individual em ações tem a vantagem da flexibilidade. Pode entrar e sair das ações individuais ou do mercado em geral a seu bel-prazer, sem se preocupar com a liquidez dos títulos ou o impacto que as suas decisões irão ter no mercado;

2 – Um grande fundo de investimento em ações normalmente tem ações da lista quase toda. Vai comprando ações à medida que os investidores alocam capital ao fundo e vende ações quando existem resgates. Um fundo de Ações Portugal na prática acaba por ter ações de todas as cotadas do PSI20, para refletir mais ou menos a evolução do mercado em geral. Se o mercado subir, a unidade de participação do fundo sobe. Se o mercado descer, a unidade de participação do fundo desce. Este tipo de fundos nunca sai do mercado e tem sempre qualquer coisa como 95% do capital investido;

3 – Warren Buffet investe no sentido de controlar ou pelo menos influenciar fortemente a gestão da empresa. Prefere adquirir as empresas na sua totalidade e retirá-las de bolsa. Quando as coisas não lhe correm bem, ele tem o poder para mudar completamente a empresa no sentido de a valorizar. Isto obviamente não está ao alcance dos pequenos investidores, que não mandam nada nas empresas em que investem as suas poupanças.

Portanto, os vários tipos de investidores têm vantagens e desvantagens.

Se um pequeno investidor individual reforçar em perda, está a perder a sua vantagem, a flexibilidade, sem ganhar nenhuma das vantagens que os fundos de ações e o Warren Buffet (falo nele por ser o mais conhecido, mas poderia mencionar muitos outros de tipos semelhantes, como o Carl Icahn, Bill Ackman, etc) têm.

Se o problema fosse só perder a flexibilidade, enfim, não viria muito mal ao pequeno investidor individual, mas a atitude de reforçar em perda é muito mais grave e tem inevitavelmente consequências muito sérias para o Portfolio, nomeadamente a falência a longo prazo.

Isto porque muitas empresas, e também as cotadas em Bolsa, vão à falência no longo prazo! Reparem que em 1988 existiam cerca de 200 empresas cotadas na Bolsa de Lisboa e agora existem apenas 47. O que é que aconteceu a ações de empresas como Cerexport, ITI, Cinca, Hotelagos, Tâmega, BCI, C.P. Cobre, Interlog, Soponata, Cires, Lameirinho, Sofinloc, Leasinvest, BES Investimento, BES, Lusoleasing, Euroleasing, O Trabalho, Madeirense, Proholding, Nobre, Valouro, Fisipe, Papelaria Fernandes, Dom Pedro, Soja, Cipan, Torralta, etc, etc, etc? A quase totalidade destas empresas foi à falência e as ações valem zero. Até as ações do Banco de Portugal (sim, o Banco de Portugal já foi cotado em Bolsa, até Abril de 1974), caíram 99% antes do banco ser nacionalizado em 1974.

Se a história se repetir, e eu não tenho dúvidas de que vai repetir-se, daqui por 10 ou 20 anos muitas das cotadas atuais já não vão existir e existirão no seu lugar outras, novas empresas. Isto não vai acontecer com todas as ações, mas certamente que vai acontecer com bastantes.

E, o problema das pessoas que reforçam em perda é que deixam de diversificar os seus investimentos e vão investindo cada vez mais precisamente nas ações que estão em queda e que portanto mais indicações estão a dar que estão com problemas financeiros. Não estou obviamente a falar do caso específico da F. Ramada, que está a corrigir de um máximo histórico muito alto, mas, quem infringe a regra uma vez é porque não tem disciplina e corre um risco muito elevado de a infringir noutras vezes, e uma dessas vezes – basta uma – será fatal para o Portfolio.

Este é o erro mais básico que os investidores cometem, descrito e comentado até à exaustão na obra prima que é o livro Ganhar em Bolsa de Fernando Braga de Matos: o investidor começa bem e escolhe 10 ações para diversificar os seus investimentos. Umas sobem, outras descem e o investidor fixa-se na que está a descer mais … “se gostava dela a X, ainda gosto mais dela a X-Y”. Ao invés de, com humildade, desconfiar da bondade do seu investimento inicial, não, fica ainda mais convencido que tem razão e mais do que isso, quer provar, a si mesmo e ao mundo, que tinha razão quando a comprou e agora ainda terá mais razão se a comprar mais baixo. E reforça em perda! Como é que reforça? Vendendo as ações em que estava a ganhar, as ações que provavelmente são as melhores, por isso mesmo é que estavam a subir! Ou seja, larga as melhores para investir cada vez mais nas piores, provavelmente tudo na que desce mais, ou seja, na pior! A coisa vai progredindo, ele cada vez vende mais das ações boas para investir na ação má, até que já tem tudo na ação má, diminuiu imenso o preço médio de aquisição e se agora ela recuperar para a cotação original, vai “ganhar uma fortuna”. Mas não, na realidade a ação má estava a descer porque as condições económicas e financeiras da empresa se estavam a deteriorar velozmente e, de um dia para o outro, a empresa declara falência, as ações valem zero e o investidor perdeu tudo!

O investidor nem sabe o que lhe aconteceu, só quando acaba tudo é que começa a perceber o erro que cometeu. Quer dizer, alguns nunca percebem e depois ainda vão pôr as empresas falidas em tribunal, que é mais uma perda de tempo e dinheiro, quer dizer, ponham-se na fila atrás dos credores.

Agora, comparem com o pequeno investidor individual sensato, aquele que quer ter dinheiro (bastante) dos seus investimentos em ações passados 20 ou 30 anos. Este investidor sabe que tem de ter uma estratégia de controlo do risco e que tem de ter controlo emocional e disciplina para seguir sempre essa estratégia de controlo do risco. Ele sabe que algumas empresas irão à falência ou que algumas ações irão cair 90% (ver vídeo “20 ações que caíram mais de 90%“) e sabe que tem de se proteger desse risco, por isso opta por limitar as perdas num nível razoável. Tem mãos fortes, pois sabe porquê que compra, mas não fica mais convicto quando o mercado vai contra si, pois acima de tudo respeita o mercado, pois depende dele. Não tem poder para influenciar a gestão das empresas e sabe disso. Sabe que está vulnerável, mas ao mesmo tempo é flexível e tem a possibilidade de fugir do risco e proteger o seu capital para aproveitar as boas oportunidades que surgem ciclicamente.

Se o caro Membro do BorjaOnStocks quer investir durante muitos anos, quiçá durante toda a vida, não pode cometer nenhum dos 7 Pecados Mortais para o Portfolio e o Nº1 é Reforçar em Perda.