Precisamos de um novo vocabulário de Bolsa

À medida que vou contactando com cada vez mais investidores em ações verifico que existem certas dificuldades que têm a ver com a forma como traduzimos determinadas realidades financeiras para a Língua Portuguesa.

Penso que o nosso vocabulário de bolsa prejudica os investidores e que seria bom que fosse sendo revisto progressivamente.

Vejamos três casos:

1º – A expressão “máximo histórico”

Tenho aqui o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa e para a palavra “máximo” tem as seguintes definições:

  1. Valor ou grau extremo que uma quantidade variável pode atingir
  2. Limite superior
  3. Ponto mais alto que alguém ou alguma coisa pode atingir

Ora, não é então de estranhar que muitos investidores digam que não investem numa ação, ou num mercado em geral, porque “está no máximo”. Se está no máximo, se está no limite superior, se está no ponto mais alto que pode atingir, é evidente que só pode descer! E então não investem. Por causa de uma expressão/palavra mal traduzida, mal aplicada.

Até os investidores mais experientes podem ter dificuldade em ultrapassar as ideias causadas pela expressão “máximo histórico”, mas é claro que, olhando para os gráficos das ações em termos de longo prazo, sabemos que obviamente um valor “máximo histórico” não quer dizer que não possa ser ultrapassado. Antes pelo contrário, o facto da cotação estar no máximo é revelador que a tendência é ascendente e que o mais provável é que a cotação continue a subir.

Não me vou alongar com exemplos, vou dar apenas um para cada caso (mas existem milhares de exemplos). Vejamos o gráfico da cotação da Corticeira Amorim no período 1994 – 2015:

Máximo histórico

No início de 2015 a cotação da Corticeira Amorim tinha subido mais de 600% desde o mínimo de 2009 e estava no seu “máximo histórico”. No entanto, como sabemos, continuou a subir, fazendo “máximos” cada vez mais elevados …

gráfico corticeira amorim longo prazo

… o que é contraditório com a definição de “máximo” do dicionário da Língua Portuguesa.

O que os americanos dizem é all time highs. Eu, nas minhas análises, vou fazer a seguinte mudança:

“Máximo histórico” passa a ser “valor mais elevado até à data”.

2º – A expressão “mínimo histórico”

É o inverso de “máximo histórico” e é igualmente uma expressão falaciosa e potencialmente enganadora para os investidores. Vejamos o que diz o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa para a palavra “mínimo”:

  1. Limite inferior

Nota: Evidentemente diz mais coisas, mas esta é uma das definições

Ora, se a ação está no “mínimo” histórico é porque está no “limite inferior”? Sabemos que não, mas é o que a palavra significa! E pode ser utilizada – e eu já vi ser utilizada – pelos investidores para dizer, “se está no mínimo, agora só pode subir!”.

O problema aqui com a palavra “mínimo” é que ainda por cima as cotações têm mesmo um mínimo, que é zero.

Porém, enquanto não atingem esse mínimo, podem sempre cair mais 90%, ou mesmo 99%. Por exemplo, uma ação que está a 10 cai 90% para 1, depois cai mais 90% para 0,1, mais 90% para 0,01, mais 90% para 0,001 e a seguir, depois de ter tido inúmeros “mínimos históricos”, cai mais 90% para 0,0001 e novamente mais 90% para 0,00001!

Uma ação pode sempre cair mais, muito mais, mesmo que pareça que já está a zero. É sempre possível perder 90% numa ação, por mais próxima de 0 que a cotação esteja.

Vejamos o exemplo da Pharol, a antiga Portugal Telecom:

gráfico portugal telecom

Após muitos anos de Bolsa (a privatização da Portugal Telecom foi, salvo erro, em 1992), em julho de 2014, a cotação caiu para o seu “mínimo” histórico. Claro que a seguir a esse mínimo, a esse “limite inferior”, desceu mais de 90%:

gráfico pharol longo prazo

Nós agora temos a vantagem de estar a olhar para o passado, para os factos, mas garanto-vos que em julho de 2014 muitos compraram as ações da Portugal Telecom porque estavam no “mínimo histórico” e como tal, só podiam subir.

Passarei a utilizar a expressão “valor mais baixo até à data” em vez de “mínimo histórico”.

3º – A expressão “aumento de capital”

Esta expressão falaciosa já levou milhares de milhões de euros aos investidores. A expressão não é incorrecta, mas induz em erro. Um “aumento de capital” dá a sensação de “mais dinheiro”, “mais capital”. Desta forma, quando uma empresa anuncia um “aumento de capital” os investidores adoram a expressão, porque lhes vem à ideia mais dinheiro e mais capital. Parece que a empresa está mais rica, que vale mais e que todos devem investir nela.

O BCP valeu-se da falácia desta expressão para conduzir dezenas de “aumentos de capital” com imenso sucesso.

A cada “aumento de capital” centenas de milhares de investidores colocaram mais e mais dinheiro nas ações do BCP e o resultado foi este:

gráfico bcp longo prazo bolsa

Esta expressão causa confusão porque também existem “aumentos de capital” que são virtuosos para os investidores, aqueles que têm a ver com incorporação de reservas, quando uma empresa utiliza os seus lucros retidos para aumentar o seu capital social.

O site da CGD (saldo positivo) explica os dois tipos de aumento de capital:

Aumentos de capital em bolsa

Veja-se bem, no primeiro caso, o do aumento de capital por incorporação de reservas, a empresa dá novas ações, de forma gratuita, aos acionistas.

No segundo caso a empresa pede dinheiro aos acionistas. Curiosa também a expressão “tem direito a subscrever” como se fosse bom ter “direito” a enterrar mais dinheiro numa empresa em dificuldades.

Para estes dois casos tão distintos, eu diria mesmo contrários nos seus efeitos práticos, as empresas e os investidores portugueses utilizam a mesma expressão: “aumento de capital”.

Mais uma vez olho para o mercado mais desenvolvido do mundo, o de Nova Iorque. Os investidores chamam a este segundo caso de aumento de capital, muito simplesmente, share issuance, se for apenas uma emissão de ações, ou rights issue, se for com emissão de direitos.

Desta forma, para confundir menos os investidores, daqui para a frente, na minúscula parte que me cabe nessa missão, utilizarei as seguintes expressões:

1ª – Aumento de Capital por Incorporação de Reservas, no caso em que os investidores recebem ações gratuitamente da empresa;

2º – Emissão de Ações, no caso em que os investidores pagam dinheiro à empresa para terem novas ações.

Conclusão

Desconfio que existam mais palavras e expressões da Língua Portuguesa que, quando aplicadas no contexto financeiro, sejam falaciosas e causem confusão. Eu por enquanto fico-me por estas três, mas caso os leitores se lembrem de mais alguma, agradeço que coloquem nos comentários, para que eu possa completar este texto.

Claro que a maior parte dos investidores não estará vulnerável a estas expressões falaciosas, pois compreende a realidade para além das palavras, ou já tem alguma experiência e compreensão dos mercados. Mas, escrevo para a franja de investidores que é afectada por estes “truques de linguagem”, nomeadamente aqueles que chegaram recentemente ao mercado de ações ou que estão a pensar investir pela primeira vez.

Os investidores podem perder por muitos motivos, mas por causa de uma incorrecta utilização das palavras penso que será desnecessário.

César Borja

 

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This Post Has One Comment

  1. Muito interessante a semantica da lingua portuguesa princialm nte em relacao aoss mercados bursateis e a cabeca dos investidores vale a pena aprofundar mais abs victor

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