O que são Shorts? Corners? Pumps?

Introdução

Esta semana houve uma interessantíssima controvérsia que envolveu temas como short selling, corners e pumps e pelos posts e comentários que têm surgido no grupo Ações Americanas, penso que será útil definir e explicar bem estes conceitos, reconhecendo as suas diferenças.

O que são Shorts?

Um Short é aquele que pratica o short selling, o que aplicado às ações individuais significa vender ações sem que as tenha comprado previamente.

Qualquer um pode, desde que tenha conta margem numa corretora, vender ações short, o que significa “apostar” na queda das cotações. Se o trader vender ações a $100 e mais tarde as conseguir comprar a $40, ganha a diferença, ou seja, $60 por ação.

Mecanicamente, nos bastidores das corretoras, o que acontece é que pegam nas ações de outros investidores e as emprestam àqueles que querem shortar. Os short sellers vendem as ações no mercado com a expetativa de as comprar a um preço mais baixo para as poderem devolver às corretoras. Quando têm de as comprar a um preço mais alto do que venderam, perdem.

O detentor original das ações nem sabe que as suas ações foram emprestadas e, em bom rigor, não lhe interessa, ainda que isto possa levantar algumas interrogações. Mas repare que o dinheiro que tem depositado no banco também foi emprestado, você não faz ideia a quem e isso também não lhe interessa, pois tem confiança que o banco irá honrar o seu depósito. A mesma coisa nas corretoras.

O short selling já existe há mais de 150 anos em Wall Street (como se pode ler no extraordinário clássico de 1923, Reminiscences of a Stock Operator) e é uma das razões pelas quais Wall Street é o mercado mais desenvolvido do mundo. Isto por dois motivos principais:

– Porque o short selling mantém o mercado vivo, mesmo em alturas de Bear Market, ou tendência descendente do mercado em geral.

O short selling aumenta a liquidez, pois para além de haver investidores a comprar e a vender, também há traders a fazer short selling e buy to cover, que é a operação de fecho da posição short. Este buy to cover faz com que haja procura mesmo em ações que desceram muito e faz com que aconteçam fortes ressaltos contra a tendência descendente, dando a oportunidade a alguns investidores longos de sair a preços mais simpáticos.

Os serviços e empregos que dependem do mercado de ações são largamente mantidos, mesmo em Bear Markets, porque há sempre forma de ganhar – quer nas subidas, quer nas descidas – pelo que o interesse no mercado de ações se mantém ao longo das décadas e séculos.

Noutras partes do mundo o short selling de ações é bastante dificultado e manietado e em parte é por isso que nesses mercados, quando entramos em Bear Market, a liquidez diminui, o interesse dos investidores desvanece-se e os empregos e impostos coletados diminuem.

No Resto do Mundo, para colmatar a dificuldade de shortar ações, apareceram alternativas perniciosas, como por exemplo os CFDs, que permitem muita alavancagem e em que as corretoras atuam num evidente conflito de interesses com os seus clientes, pois são a contraparte das transações dos clientes, ganhando quando estes perdem e perdendo quando ganham, pelo que têm um incentivo económico em prestar um mau serviço.

Nos Estados Unidos os CFDs são proibidos, mas pode-se shortar ações. E eles é que têm o mercado mais desenvolvido do mundo!

– O short selling é um mecanismo fundamental de financiamento das empresas!

Não é incrível como em Wall Street há tantas empresas que, mesmo dando Prejuízo ano após ano, continuam a desenvolver os seus produtos e serviços úteis à sociedade, com a expetativa de algum dia se tornarem rentáveis? E muitas dessas empresas são muito apreciadas pelos investidores e valem muitíssimo no mercado.

Não é preciso ir muito longe, repare-se por exemplo na Tesla e no sucesso estrondoso que tem tido, embora tenha passado 16 anos a dar Prejuízo, desde a sua fundação em 2003 até 2019, sendo que só mesmo em 2020 é que deu o seu primeiro lucro anual.

Teria sido a Tesla possível na Europa? Provavelmente não. Porquê? Porque os mecanismos de financiamento não envolvem short selling!

Na Europa convidam os investidores a participar num aumento de capital, com uma negociação de direitos, um processo burocrático e moroso que não beneficia as empresas que necessitam de financiamento. Nos Estados Unidos as empresas muitas vezes anunciam os financiamentos como um facto consumado, por exemplo de vez em quando a Tesla vai buscar $5 Billion ao mercado. Como?

Bancos de investimento, hedge funds e outros investidores shortam ações no mercado que depois são “casadas” com novas ações emitidas pelas empresas. Este processo torna os financiamentos mais rápidos, sendo que por vezes são organizados de um dia para o outro. Por exemplo, se por um qualquer motivo uma ação sobe 100% com muita liquidez, a empresa pode obter financiamento logo ali, através do mecanismo de short selling.

Mesmo as empresas em dificuldades conseguem financiar-se facilmente e rapidamente no mercado – desde que haja liquidez nas ações – muitas vezes aguentando-se durante as crises e retomando o crescimento na expansão económica seguinte.

Se pensarmos que a função social do mercado de ações é financiar as empresas, é evidente que o mecanismo de short selling deve ser defendido e acarinhado, não demonizado como fazem muitos investidores.

Agora, lá por defender a existência do short selling em termos gerais, não quer dizer que o aconselhe aos Subscritores do Borja on Stocks. Não aconselho, por causa do potencial de ganho limitado e risco ilimitado do short selling.

Por exemplo, se eu comprar uma ação a $10 e a vender a $100, ganho 900%, ou seja, decuplico o capital inicial. Isso é ótimo. Mas se começar por vender a ação a $100 e, por obra do destino, a conseguir comprar a $10, só ganho 90%. Não compensa o risco, até porque a ação shortada a $100 pode subir para $1.000 e nesse caso perco dez vezes mais do que “investi”!

O que são Corners?

Por vezes acontecem alguns excessos em algumas ações (e outros ativos financeiros) e a % de ações shortadas é muito elevada, tipo, mais de 50% das ações disponíveis.

E se quisermos ir mesmo a extremos, por vezes a % de ações shortadas é superior a 100%, ou seja, há mais ações shortadas do que aquelas que existem! Como é que isso é possível? Através do naked short selling, isto é, são vendidas short mais ações do que aquelas que foram emitidas pelas empresas, prescindindo-se daquele mecanismo de empréstimo referindo anteriormente.

O naked short selling é permitido em alguns casos, nomeadamente quando está conectado com operações de financiamento às empresas em que é difícil obter ações emprestadas, porém os short sellers por vezes abusam desta possibilidade, procurando levar as cotações de empresas ao charco, dificultando-lhes o financiamento a preços razoáveis e tentando mesmo arruiná-las.

Quando a % de ações shortadas de uma empresa é muito elevada, tipo 25%, 50%, 100%, 150%, 200%, etc, os short sellers estão algo vulneráveis e pode ter início um processo chamado short squeeze, quando os compradores, ou bulls, reconhecendo a vulnerabilidade dos shorts, entram a comprar e forçam os shorts a fazer buy to cover por ali acima. Normalmente os short squeezes são curtos e rápidos e acabam por ser aproveitados pelos bears para shortar ações a preços mais elevados, caso considerem que o valor economicamente racional das ações é significativamente mais baixo.

Porém, por vezes a intenção dos bulls não é só provocar um short squeeze, é mesmo fazer um corner, que é como quem diz, encurralar os shorts num canto sem saída e forçá-los a tomar perdas absolutamente gigantescas.

O que está a acontecer na GameStop…

O que são Shorts? Corners? Pumps? 1 - Borja On Stocks

…é um corner, organizado por alguns membros de um grupo do Reddit, o Wallstreetbets. Eu juntei-me mesmo agora ao grupo, é muito fácil e já tem 6,7 milhões de membros (!)

Esses membros viram que a % de ações shortadas na GameStop era de 150% e incentivaram os seguidores do grupo a comprar ações com toda a força e velocidade, de forma a obrigar a que os short sellers cobrissem as suas posições a preços muito mais elevados. O problema é que como os shorts estavam short com 150% das ações, não há ações da GameStop suficientes para fechar essas posições pelo que os short sellers estão mesmo encurralados num corner, sem escapatória possível, a não ser que a empresa coopere, emitindo novas ações para satisfazer esses shorts. Ou então os short sellers obtém financiamento e shortam ainda mais ações de forma a trazer a GameStop novamente para baixo.

Enfim, não vou entrar muito na especificidade deste caso da GameStop, porque não o estudei profundamente, digo apenas que esta situação já provocou centenas de milhões de dólares de perdas em alguns hedge funds, dificuldades em clearing houses e brokers a quem foram aumentadas as margens de negociação, etc. Alguns brokers (a mais mediática foi a Robinhood) reagiram proibindo a compra de ações da GameStop e outras ações que também foram alvo de operações do Wallstreetbets, mas entretanto já as disponibilizaram, com algumas limitações.

O que é que eu acho desta operação de assalto aos hedge funds short na GameStop? Acho lindo… uma espécie de revolta dos pequenos contra os grandes, uma batalha de David contra Golias. Absolutamente genial e extraordinário. Provavelmente vão fazer um filme, ou no mínimo um documentário, com esta história.

O que é que eu acho dos hedge funds e do short selling em geral? Nada contra, aliás, são fundamentais para a vitalidade do mercado em termos de longo prazo e para o financiamento das empresas.

Em relação aos corners, os tipos do Wallstreetbets, depois de arrumarem com os hedge funds na GameStop, pretendem atacar um mercado muito maior e também bastante manipulado, o da Prata:

Não será a primeira vez que tentam um corner na Prata, sendo que o mais famoso foi o dos Hunt Brothers, que compraram um terço da Prata do mundo todo, mas como foi com recurso a crédito, acabaram por falhar e causar o pânico no mercado de commodities.

Enfim, isto da revolta dos pequenos contra os grandes e dos corners é estimulante e atraiu uma multidão que se identifica com este género de valores e ideias.

Eu só agora é que me juntei ao Wallstreetbets, mas o meu filho mais velho, Lucas Borja, que tem 17 anos, já lá andava há algum tempo e tem-me contado as histórias do grupo, que tem lá um punhado de iluminados, mas que dos 6,7 milhões de membros, mais de 90% serão investidores inexperientes, recém chegados ao mercado.

Onde há uma multidão de uns 6 milhões de inexperientes tendem a aparecer uns investidores sabidos mas sem escrúpulos, que a única coisa que pretendem é lucrar com o romantismo e ignorância dos outros. Estes tipos costumam aparecer nas bolhas especulativas dos finais de bull markets e chamam-se… pumpers.

O que são pumpers?

Pumpers são investidores que compram ações pela calada, desenvolvem uma história de investimento bem elaborada e credível e depois disseminam essa história de forma a impactar o mercado para valorizar as ações que compraram.

O objetivo do pumper é levar o maior número de pessoas, e no mais curto espaço de tempo possível, a comprar ações por si detidas, para a cotação subir rapidamente e vendê-las lá no alto, àqueles que foram um pouco mais lentos a seguir a recomendação e/ou que foram atrás da forte subida inicial.

Ao contrário dos corners (que só muito raramente funcionam, o caso da GameStop é quase único), os pumps provocam subidas mais efémeras e sem sustentação, com as cotações a voltarem ao mesmo sítio (e depois ainda mais para baixo) passado pouco tempo.

Isto porque a seguir ao pump, vem o dump, ou seja, o processo completo chama-se pump & dump.

Pumpers são os organizadores do pump, os que compram antes da disseminação da análise/recomendação e vendem lá no alto, quando o público seguidor está a comprar. Quando esse público que acredita na história se esgota, as ações caem como pedras num lago.

É muito importante diferenciar o que é o short selling e a sua importância vital para o mercado, o que são short squeezes e corners que são correções aos excessos de short selling e o que são pump & dumps, que é onde reside o maior perigo neste momento para os investidores particulares.

Claro que os pumpers são indivíduos extremamente inteligentes e não vão anunciar “isto é um pump“, vão aliás procurar ao máximo disfarçar o pump numa operação que encaixe bem nos valores e ideias da multidão, recorrendo inclusivamente a fake news e fake facts.

Um investidor experiente consegue distinguir (porque faz a sua própria investigação), mas pode ser muito difícil para um inexperiente, dependendo também do nível de sofisticação do pumper.

Por exemplo, aquela operação no ETF da Prata (SLV) claramente não é um pump, mas uma tentativa legítima de procurar gerar um corner.

Um pumper nunca escolheria o SLV, mas sim uma ação individual, de preferência com capitalização bolsista abaixo de $10 B, de preferência com um preço por ação abaixo dos $10 e que tivesse um volume razoável para ser credível… porque o objetivo do pumper é causar o maior impacto no mais curto espaço de tempo possível e para isso precisa de atingir ativos leves, rápidos e voláteis.

Na bolha das ações da internet, no ano 2000, existiam muitos chats na net (o equivalente aos grupos de Telegram atuais) e o que os pumpers faziam (também existiam pumpers portugueses) era convidar uma multidão para o chat, a um dia e hora marcados, e depois iam aquecendo o público, com pormenores da história, e quando o público fosse em grande número e estivesse bastante entusiasmado, era revelado o nome da ação de forma bombástica!

O resultado é que iam todos comprar ao mesmo tempo a mesma ação, provocando subidas instantâneas de 50% e 100% em algumas ações. O pumper retirava a sua mais-valia e o público ficava entalado com as ações… depois nova operação, com outra ação e assim por diante, enquanto durasse a euforia dos investidores. Houve quem enriquecesse com estas operações, mas eu não organizei nenhuma, porque sempre tive como missão defender os pequenos investidores e não achava bem que se fizesse aquilo.

Conclusão

Espero que este artigo tenha ajudado a fazer algumas distinções, especialmente para que os pequenos investidores recém-chegados ao mercado não confundam e misturem os conceitos e sobretudo, estejam alertas a lobos vestidos em pele de cordeiro.

Espero que consigam distinguir entre analistas e análises legítimas e valiosas e pumpers, que apenas pretendem aproveitar-se do público investidor em benefício próprio.

Disclaimer

Esta publicação é para efeitos meramente informativos e educacionais e não deverá ser entendida como uma recomendação para comprar ou vender ações.

Se entender esta publicação como uma recomendação, tenha em conta que ela é generalista e poderá não ser adequada ao seu perfil de risco, que é único. A sua situação financeira individual não foi tida em consideração pelo Autor da análise, que desconhece o perfil de risco e objetivos de cada um Subscritores do Borja on Stocks.

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