O que fazer com as correções?

Eu não queria escrever este pequeno texto nesta altura, porque tenho outras coisas para fazer, mas tem de ser, pois vejo uma série de investidores a choramingar pelos cantos porque as ações estão a descer. Fazem-me perguntas como “mas porquê que as ações descem?”, “porquê que vendem ações que estão fundamentalmente atrativas?”, “não será melhor vender?”, etc.

Vou tentar arrumar com este monte de dúvidas e quando vierem novamente com a mesma conversa (o que provavelmente vai acontecer mais umas centenas de vezes nas próximas décadas), direciono-os para este texto.

Em primeiro lugar, começo por dizer que as ações contém risco. São um produto financeiro com risco. Risco significa possibilidade de perda, seja porque as ações perdem valor em termos de médio/longo prazo, seja porque existe muita volatilidade no curto prazo e há quem não a aguente.

É exatamente por conterem risco que as ações dão um retorno de longo prazo acima da média, quando comparadas com outros produtos financeiros menos arriscados, como por exemplo as obrigações. O risco é uma condição necessária ao retorno elevado. Sem risco, sem possibilidade de perda, não há possibilidade de ganhos elevados. É assim nos mercados, tal como na vida. Portanto sabemos que temos de correr algum risco, esse é um dado adquirido. A forma como gerimos e lidamos psicologicamente com esse risco são outras questões.

Em segundo lugar, para diminuir o risco específico de cada ação é preciso diversificar. É preciso ter o capital espraiado por pelo menos dez ações fundamentalmente atrativas. Assim o risco específico dilui-se (umas descem, outras sobem) e ficamos só com o risco de mercado.

Uma coisa gira das ações é que só podem cair 100%. Não há cotações negativas. Mas as ações podem subir muito mais de 100% … podem subir 1 000%. Ou 10 000%.

Porém são raros aqueles que as aguentam para este tipo de valorização, pois têm tanto medo de perder, têm tanto medo das correções, que as vendem a ganhar só um pouco. E assim um Portfolio em que umas descem 20% ou 30%, e outras sobem 200% ou 300%, em vez de ser uma coisa muito vencedora, é uma coisa que fica assim  assim, pois aquelas que iam mesmo subir muito foram vendidas com mais valias ridículas. Há que deixar as boas ações subir, mas para isso é preciso compreender que mesmo as boas ações, e especialmente as boas ações, têm correções! Elas vêm abaixo como as outras, só que nos dias de subida sobem mais do que nos dias de descida, ou têm mais dias de subida do que de descida, o que interessa é que no cômputo geral sobem!

Terceiro ponto. Para discernir quais são as ações fundamentalmente atrativas é preciso fazer Análise Fundamental de qualidade. E mesmo assim vão existir erros e esses erros terão de ser corrigidos.

Quarto ponto, e é mesmo aqui que eu queria chegar, pois tudo o que escrevi antes é óbvio. Há 20% de ações que sobem mesmo em Bear Market, e eu sou um stock picker, não um market timer. Quer isto dizer que invisto em ações pela sua qualidade fundamental intrínseca e não por aquilo que a média, ou seja, o índice de mercado, vai ou não vai fazer. Nos últimos anos, a Corticeira Amorim subiu ou não subiu mais de 100%? E os CTT desceram ou não desceram mais de 50%? E o mercado era o mesmo, ou não era? Era.

E agora olhem para o Bill Gates, o Warren Buffett, não, olhem antes para o Jeff Bezos, que é atualmente o homem mais rico do mundo. Ele tem 17% da Amazon. Quantas vezes é que a Amazon caiu bastante desde que está em bolsa? Muitas vezes, centenas de vezes … e o Bezos continuou com as suas ações. E essa é uma das razões pela qual ele é o mais rico do mundo.

É preciso investir com uma visão de longo prazo e manter as ações fundamentalmente atrativas para lá das correções, para lá das cotações.

Agora desapontei os leitores, porque o quarto ponto não era aquele que queriam realmente saber. O que querem saber, em quinto lugar, é se estamos perante uma correção ou o início de um Bear Market?

Eu não tenho medo nenhum do Bear Market porque estou a investir para 30 ou 40 anos e não me interessa nada como vai ser o próximo ano. Não preciso de ganhar todos os anos, quero é ter um retorno anual médio de pelo menos 15% nos próximos trinta anos. E provavelmente, para poder ganhar 15% ao ano, em média, vou ter de ter alguns anos negativos. Não faz mal, uns compensam os outros, por exemplo este ano estou a ganhar mais de 40%, por isso … já está a marcar pontos face à média. Agora, é preciso ver que, no ponto em que entramos, é altamente improvável que esse ponto seja um mínimo relativo. É bastante provável que, logo depois de entrarmos, ou passados uns meses, haja uma correção e fiquemos a perder. Aí os mais fracos psicologicamente, ou melhor, os que não estavam preparados para o risco, ficam logo a tremer que nem varas verdes.

Por exemplo, agora o Portfolio TOP10 Lisboa, que reune as 10 ações que considero as mais atrativas para investimentos na Euronext Lisboa, está a ganhar mais de 80% desde o seu início, mas lembro-me que, uns quatro meses depois de ter começado, esteve a perder mais de 6%:

Performance do índice PSI 20 nos últimos 2 anos

Também tremi um bocado e vendi duas ações que não devia ter vendido, mas felizmente substitui-as por outras também muito atrativas.

O mesmo com as ações individuais. Enquanto você pensar que os próximos 5% são extremamente importantes, nunca passará de um trader de curto prazo, obcecado com as cotações. Nunca será um investidor. É altamente improvável você comprar uma ação e nunca ficar a perder pelo menos uns pontos percentuais. Quer dizer, de vez em quando pode ter sorte, mas na esmagadora maioria das vezes, há-de ficar a perder um bocado. E isso quer dizer que estava errado quando comprou? Não. De todo. Significa apenas que as cotações oscilam bastante no curto prazo e que isso é absolutamente normal. Lembre-se do ponto número 1, as ações contém risco e uma das formas como esse risco se manifesta é na volatilidade de curto prazo.

Eu sei, eu sei, estou a enrolar muito, vamos lá à grande questão, que é saber se vem aí outro Bear Market horripilante ou não. A minha opinião é que não vem! E vou explicar porquê: porque entre 2000 e 2008 existiram dois dos três maiores Bear Markets da História. Em 120 anos, desde que existe o índice Dow Jones, as maiores quedas foram os -89% em 1929-32, os -39% entre 2000 e 2003 e os -54% entre 2007 e 2009.

O PSI 20 também teve um comportamento devastador nesses anos. Não acham que já chega? Quer dizer, a nossa geração já passou pelo segundo período mais negro da História! Estamos assim tão mal que acham que vem aí mais uma dessas hecatombes? Eu, que desde que estou na Bolsa sempre fui pessimista, tornei-me otimista em 2009. Mesmo no fundo, mas por causa do market timing saí de muitas ações vencedoras demasiado cedo. De qualquer modo, ao olhar para o mundo, para as centenas de milhões de pessoas que todos os anos saem da pobreza para a classe média, é fácil ser otimista. Reparem que nós estamos numa fase absolutamente única da História económica mundial. O que está a acontecer é um fenómeno de catching up, em que os milhares de milhões de pessoas que por esse mundo fora sempre viveram no obscurantismo agora têm um telemóvel na mão que as liga ao mundo. Vêem como se faz nos países mais desenvolvidos e vão, progressivamente, aprendendo. Esta nova classe média, que só por si é muito mais numerosa do que a que existia antes, é uma oportunidade de ouro para as grandes empresas cotadas nos mercados desenvolvidos, que por sua vez são servidas por milhares de outras empresas mais pequenas.

Nós, portugueses, temos todos os motivos para estarmos otimistas. Estamos na Zona Euro. A nossa moeda não desvaloriza como no passado e fazemos parte de um grande bloco económico, com inúmeras oportunidades que dantes não existiam. E a Euronext, segundo a definição de muitos analistas técnicos, ainda nem sequer entrou num Bull Market de longo prazo …

Evolução do índice Euronext 100

… quanto mais num Bear Market!

É óbvio que vão existir correções. É evidente que vão existir Bear Markets, daqueles em que os mercados, depois de terem subido bastante (muito para lá dos máximos históricos atuais), corrigem 20% ou 25%. Tudo isso é previsível e inevitável. Mas crises gigantescas? Não estou a ver, sinceramente não estou a ver … este fenómeno de catching up global vai perdurar até ao resto das nossas vidas e para além delas. É coisa para durar um século, como a Revolução Industrial.

É muito maior o risco de estar fora dos mercados do que estar dentro, na minha humilde opinião.

Portanto, venham as correções. Venham elas, que é para eu poder investir mais. Todos os meses invisto mais um bocado nas ações fundamentalmente atrativas. Quanto mais baixo estiverem, mais ações compro. E depois sobem. É simples.

Quando vierem choramingar para cima de mim, levam com este link. Tendo em conta a quantidade de chorões, eu diria que este vai ser o artigo mais lido da internet bolsística em Portugal 🙂 E só demorei uma horita a escrevê-lo. Isto é que é produtividade do trabalho.

Atenciosamente,
César Borja

This Post Has 3 Comments

  1. Boa tarde Cesar Borja
    Gostei da tua explanação sobre as correções e que elas sirvam para os mais novatos. Para quem tem quase 70 anos não pode pensar em investir para 30 ou 40 anos a não ser que tenha descendentes a quem deixar. De qualquer maneira tenho lido todos os teus comentários bem fundamentados dos quais aprecio imenso. Estou neste momento investido em duas acções, na Cofina e na Nós, mas para dois ou tres anos no máximo.
    Um abraço

      1. Fartei-me de rir com a tua futurologia quanto á minha pessoa. Acho que estás a arriscar demais nas previsões, mas pode ser que isso venha a acontecer.Obrigado amigo, espero daqui a 30 anos voltar a falar contigo.
        Um abraço

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