O maravilhoso mundo de Charlie Munger

Tempo de leitura: 9 minutos

Charlie Munger é conhecido por ser o braço direito de Warren Buffett, mas conhecê-lo só por esse facto é não o conhecer de todo. Antes de começarmos, uma nota: Resumir todo o mundo de Charlie Munger num artigo é de uma enorme injustiça (para não dizer impraticável). O intelecto de Munger é de uma profundidade tal que podiam ser escritos (e na verdade já foram) milhares de artigos, cada um debruçando-se apenas sobre um dos seus muitos focos de interesse.

 

As origens

Charlie Munger nasceu em Omaha há 94 anos. Seis anos mais velho do que o seu parceiro de longa data Warren Buffett, Charlie chegou a trabalhar para o avô de Warren na sua mercearia. Trabalhava 12 horas seguidas, recebia $2 dólares por dia e o avô de Warren ainda lhe cobrava 2 cêntimos para a Segurança Social acompanhados de um sermão sobre os males do socialismo. Estudou matemática e física até que decidiu alistar-se no exército aerotransportado, que o levou até à Califórnia para estudar meteorologia. Decorria a II Grande Guerra e esta era uma área com muita procura. Mais tarde termina Direito em Harvard com a distinção Magna Cum Laude, a segunda mais alta do sistema de ensino americano. Dedica-se à advocacia (criou a Munger Tolles & Olsen que ainda hoje trabalha com a Berkshire), e à arquitetura e construção com bastante sucesso. Mas tudo isso estava prestes a mudar.

 

Almas gémeas

Por motivos relacionados com a morte do seu pai, Charlie teve que regressar brevemente à sua Omaha natal. Com o intuito de receber um filho da terra que não viam há muito tempo, alguns amigos de infância decidiram organizar um jantar no qual reuniram vários conhecidos de Charlie bem como uma cara nova, um tipo chamado Warren Buffett. Charlie reconheceu-lhe o apelido e os dois identificaram-se imediatamente. O jantar foi inteiramente dominado pela conversa entre ambos. Aperceberam-se que tinham muito em comum e pouco demorou até que Buffett começasse a convencer Charlie de que a advocacia era um bom passatempo mas que o mundo do investimento era muito mais aliciante para uma mente tão desperta quanto a de Charlie.

Bem dito bem feito. Pouco tempo depois, em 1962, Charlie cria a Wheeler Munger Partnership, o seu próprio veículo de investimento. Durante onze anos teve uma rentabilidade anualizada bruta de 28,3% até que o Bear-Market de 1973 e 74 arrasou as cotações das suas maiores posições. Firme, Charlie confiava ferreamente na sua análise e em 1975 viu-a dar frutos quando o seu portfólio voltou a subir 73%, garantindo uma rentabilidade anualizada bruta de 19,8% ao longo de 14 anos. Um pouco à imagem do que tinha acontecido com Buffett uns anos antes, após esta experiencia, Charlie decidiu que não queria mais gerir dinheiro para outras pessoas. Dissolveu a sua sociedade, ficando cada um dos co-investidores com ações da BlueChip Stamps, ações essas que mais tarde se converteriam em ações da Berkshire Hathaway, empresa da qual é Co-Chairman até hoje e que fez dele um bilionário.

Desde sempre que, mais do que ser rico, o seu objetivo era ser independente. Defende que uma pessoa que trabalha por conta de outrem terá sempre tendência a “cantar a canção” do seu empregador, não podendo ser intelectualmente livre.

 

Charlie Munger, o Homem Renascentista

Assim como Buffett bebeu grande influência de Ben Graham, também Charlie Munger tem como grande referência um Ben. Não o Graham, mas o Franklin. De Benjamin Franklin aprendeu o gosto pelas “Grandes Ideias das Grandes Disciplinas”. Benjamin Franklin era um homem de uma enorme abrangência. Foi editor, autor, politico, cientista , inventor do pára-raios, das lentes bi-focais, foi  o criador do corpo de bombeiros dos EUA, foi um dos 56 assinantes da Declaração da Independência dos EUA, de entre muitas outras coisas. Era um autêntico Homem Renascentista. Coincidentemente também Ben Graham, o mentor de Buffett, abarcava um sem numero de disciplinas na sua atividade. Traduzia livros do Grego e do Latim, escrevia peças de teatro, era professor universitário e o criador de uma nova filosofia de investimento.

Charlie é um dos grandes nesta corrente de pensadores que vê como obrigatório ler muito, ter curiosidade sobre tudo e absorver o máximo que o mundo tem para nos dar. Aquilo a que chama “Wordly Wisdom” , ou em português, “Sabedoria Mundana”.

Em toda a minha vida, não conheci pessoas sábias (num vasto conjunto de assuntos) que não lessem o tempo todo – nenhuma, zero. Vocês  ficariam surpresos com o quanto Warren lê – e com o quanto eu leio. Os meus filhos riem-se de mim. Acham que sou um livro com pernas”

Em jeito de confirmação ignorante do pensamento ulltra-racional de Munger, o Prémio Nobel da Física e uma das mentes mais brilhantes do século XX, Richard Feinman alega que a visão de um Físico sobre uma flor só pode ser mais completa do que a do comum mortal, porque além de conseguir ver a beleza da flor a olho nu, as suas pétalas, o caule e o pólen, um Fisico (ou um Biólogo) conseguem ver muito mais além. Conseguem entender como é que as pétalas chegaram a ser pétalas, como é que os átomos se juntam para dar origem à flor etc, etc. O facto de ter uma visão mais completa ajuda-o a entender melhor a realidade que é a flor. Ele não ignora a visão da pessoa comum, apenas acrescenta outro ponto de vista.

A cola que une todas estas grandes personalidades, além de um intelecto muito acima da média, é a forma como encaram o mundo de uma forma multi-disciplinar. São todos especialistas generalistas. A filosofia que está por detrás de cada uma destas abordagens, seja de Ben Graham , Ben Franklin, Feynman ou Munger é comum a todos. A curiosidade constante de entender como funcionam as coisas, sejam elas fenómenos fisicos ou a psicologia do ser humano.

 

Latticework of mental models

No caso de Charlie Munger, todo este conhecimento é depois filtrado e organizado através dos chamados “Mental Models”. “Modelos Mentais” são explicações para como o mundo funciona, simplificações da realidade, mais ou menos como um mapa é uma simplificação do território. São conceitos que agrupam e nos ajudam a interpretar determinadas áreas da realidade. Charlie defende que quantos mais modelos mentais tivermos, mais preparados estaremos para responder com racionalidade aos problemas com que nos deparamos. Com apenas um ou dois, uma pessoa tende a tentar espremer a realidade até que esta se adeque ao seu ponto de vista. Nas suas famosas palavras “Para um homem com um martelo na mão, tudo se parece com um prego”. Quantos mais modelos, mais formas temos de analisar o mundo e mais probabilidades temos de conseguir chegar à resposta certa para um problema novo. É por isso que Charlie prefere a sabedoria e conhecimentos universais, aqueles que se mantêm imutáveis ao longo dos tempos, por oposição ao constante corrupio do dia-a-dia e à sofreguidão por informação fútil que de nada nos serve amanhã .

“Quanto mais conhecimento básico tiveres … menos novo conhecimento precisas de obter.”

Assim, Charlie acredita que devemos beber de várias esferas do conhecimento humano, às vezes tão díspares quanto a Física, a Psicologia, ou a Literatura.  Porque toda a sabedoria do mundo não se consegue encontrar em apenas uma disciplina, devemos fazer nosso objetivo conhecer algumas grandes ideias de cada uma delas, ter um repertório de formas de ver o mundo suficientemente vasto. Só assim conseguimos organizar o caos da realidade em grandes grupos de ideias e consequentes formas de lidar com elas. São estes modelos e técnicas que constituem o vasto conhecimento básico que todos os investidores devem ter antes de se tornarem realmente bons na estreita arte da escolha de ações.

 

A estreita arte da escolha de ações

Com tanto conhecimento acumulado ao longo de décadas, Charlie Munger consegue num abrir e fechar de olhos entender se um negócio pode ser um bom negócio ou não. Quando um negócio lhe chega às mãos, Charlie categoriza os negócios como “Sim”, “Não” e “Difícil de entender” (Buffett tem mesmo um caixote do lixo que diz “Difícil de entender” para onde atira os relatórios desse tipo de empresas). Mas não é assim tão fácil, depois deste primeiro crivo, Charlie Munger não toma decisões sem antes passar por um elaborado e extenuante trabalho de análise. Como é frequente com muitos investidores que não vieram de uma escola de negócios, a análise de Munger não se restringe apenas a fatores quantitativos, longe disso. O processo de Checklist de Charlie é muito mais extenso  do que o normal.  Charlie trata os relatórios financeiros como ponto de partida. Analisa-os em detalhe, faz as adaptações que acha necessárias, mas vai muito mais longe. Tenta analisar as vantagens competitivas do negócio de todas as formas – concorrência, capacidade de subir preços, mudanças possiveis na legislação, satisfação de clientes e fornecedores, possibilidade de disrupção por concorrênica barata ou tecnologia, etc. etc. etc. – a lista continua.

“Quando termina sua análise, reduz o negócio aos seus elementos mais importantes e obtém um notável grau de confiança quanto ao fato de agir ou não. A avaliação, finalmente, torna-se não tão matemática quanto filosófica ”

Depois de chegar à conclusão de estar perante um bom negócio, Charlie espera que este lhe seja oferecido pelo Sr. Mercado a um bom preço. E espera……..e espera…….e espera……… Tem longos períodos do que aparenta ser inatividade. Defende que é a combinação de preparação e paciência que distingue os grandes investidores:

“A experiência tende a confirmar uma noção antiga de que estar preparado, em algumas ocasiões na vida, para agir rapidamente e em escala, ao fazer algo simples e lógico, melhorará drasticamente os resultados financeiros. Algumas oportunidades importantes, claramente reconhecíveis como tais, geralmente chegam a alguém que continuamente procura e espera, com uma mente curiosa. E então tudo o que é necessário é a disposição para apostar pesadamente quando as probabilidades são extremamente favoráveis, usando recursos disponíveis como resultado de prudência e paciência no passado. “ Reunião Anual da Wesco, 1996

Charlie não faz muitos investimentos. O seu portfólio pessoal é ultra-concentrado em 3 ou 4 empresas. Nas poucas ocasiões em que encontra um grande negócio a um preço bom, Charlie avança com tudo o que tem. Não vai construindo a sua posição. Afinal de contas isso seria ir contra os seus princípios e seria visto por ele próprio como um sinal de incerteza. Se estudou em profundidade o negócio e está convencido de que é um excelente negócio, não vê razão nenhuma para ter receio. Diz que “combina paciência extrema com determinação profunda”.

 

Charlie Munger é denso. Não é à primeira que se entendem os seus textos e discursos. Não é à primeira que se entende porque deve um investidor saber tanto sobre tanta coisa. Mas depois de conhecermos bem o mundo de Charlie Munger, torna-se evidente porque é que todo aquele que procura ser um grande investidor deve estar munido de uma mente curiosa e um pensamento independente.

 

Manuel Feijão Maurício

 

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