O exemplo do Fernando Silva

1. Introdução

Esta manhã fui confrontado com a notícia do falecimento do meu querido amigo Fernando Silva, que conheci há mais de vinte anos pela nossa paixão comum pelo mercado de ações nacional. Já escrevi um post sobre um pouco da nossa relação pessoal no Grupo dos Subscritores, mas agora queria escrever sobre a sua estratégia de investimento no mercado de ações, porque considero o seu legado valioso e importante.

2. A História

O Fernando Silva foi responsável pelo Departamento de Títulos do Banco Totta & Açores, em plena Avenida dos Aliados, no Porto. Nos primeiros tempos ele fazia muita arbitragem, e aconselhava os clientes a fazer o mesmo, entre as ações cotadas na Bolsa do Porto e a Bolsa de Lisboa. É preciso referir que nos anos 60, 70 e 80 as ações eram em papel, pelo que era preciso comprá-las de manhã bem cedo no Porto e depois ir de carro ou de comboio para as vender mais caras em Lisboa. Ele dizia que por vezes existiam grandes diferenças e que a viagem compensava, pois era lucro praticamente garantido.

Também me explicou que onde ganhou muito dinheiro foi a comprar e vender unidades de participação em fundos de investimento, pois os bancos vendiam as unidades de participação valorizadas pelas cotações de fecho do dia anterior e como ele estava ao corrente das cotações do próprio dia, já sabia como iriam fechar as unidades de participação dos fundos, pelo que aquele negócio era como “negociar aos preços de ontem, já sabendo os preços de hoje!” Ele disse que este género de arbitragem ainda funcionou durante alguns anos, até que os bancos perceberam o erro e fecharam essa janela de oportunidade.

“O mercado hoje em dia é muito mais difícil”, dizia ele.

Um episódio que ele contava frequentemente era o das cautelas da Celulose do Caima. Nos anos 80 a Celulose do Caima (atualmente incluída na Altri) tinha poucas ações emitidas, mas existiam uns títulos paralelos, tipo CFDs, que eram as “cautelas”. As cautelas supostamente poderiam ser trocadas por ações, e a Celulose do Caima tinha poucas ações disponíveis, mas muitas cautelas na praça… então o que é que “os ingleses” fizeram? Arrebataram muitas cautelas na rua e depois puxaram pelas ações, que tinham um free float muito reduzido, valorizando indiretamente as cautelas. Cada ação da Celulose do Caima chegou a valer mais de 300 contos, tendo subido mais de 10.000%… e, manipulando as ações, os ingleses despejaram as cautelas no público, que as comprava como sendo ações, mas afinal não eram convertíveis e o público ficou a arder com as cautelas na mão. Não sei exatamente os pormenores da história, mas era assim que ele a contava.

Em 2003 ele falava muito na Jerónimo Martins… que estava “com o Rendeiro” a acumular e que ia dar muito dinheiro. Mais recentemente (em 2015/16) as apostas dele eram a Altri, a Corticeira Amorim, a Ibersol e a… Sonae Indústria, onde tinha sido “ganancioso” e foi ao aumento de capital, pois confiava na palavra de Belmiro de Azevedo, que conhecia pessoalmente. Uma vez o seu amigo Belmiro, referindo-se à Sonae Indústria, disse “a mãe nunca morre”, pelo que o Fernando estava seguro de que nunca iria à falência. Outras ações de que gostava, porque o “PQP era uma máquina” eram as da Navigator e Semapa.

No nosso último almoço fiquei surpreendido quando o Fernando me disse que estava a comprar Raize abaixo de 2 €, pois não era uma ação ao seu estilo, com fundamentais sólidos. Ele disse “César, eu sou velho, mas olho para o futuro”.

3. A Mentalidade

Talvez a maior influência do Fernando Silva para a minha carreira de investidor tenha sido a sua mentalidade. Eu sabia que ele investia muito forte, que tinha posições relevantes em várias empresas, no entanto vivia sem qualquer luxo. Sentia prazer em ajudar os amigos (eu inclusive), em grandes almoçaradas e passeios, sentia orgulho na Família, mas não ligava a coisas materiais. Guiava um Toyota Corolla para aí com uns 15 anos e vivia num apartamento absolutamente normal em Espinho.

Eu que, sempre que ganhava na Bolsa ia logo gastar tudo, tipo, quando aos 26 anos comprei um Porsche, ficava surpreendido pelo desprendimento dele… o Fernando Silva valia pelo que fazia, não pelo que tinha! Aliás, ninguém sabia o que ele tinha, nem mesmo a Família, a filha ligou-me precisamente para perguntar se eu sabia em que corretoras é que o Pai tinha conta. Por acaso sabia…

Ainda demorou uns anos, mas o Fernando Silva ensinou-me a dar valor às pessoas e às experiências. Eu olhava para ele e via-o imensamente feliz, apesar de, podendo, não se dar a luxos ou a ostentações. Não precisava de mostrar nada, era feliz e valioso pelo que era, um grande contador de histórias, um grande Homem!

Posto isto, e numa certa contradição, ou talvez não, uma das frases que ele mais gostava de dizer, a rir, era: “Eu gosto muito de dinheiro!” 🙂

4. A Estratégia

O Fernando Silva era um fundamentalista puro, que gostava de ler os relatórios e contas de uma ponta à outra e também dava muita atenção às Assembleias Gerais e aos documentos oficiais publicados na CMVM. Estava sempre à procura de situações de ineficiência de mercado, em que ele via e interpretava uma informação, mas o mercado não reagia, ou não tanto como ele julgava ser o impacto da informação.

Também dava uma extrema importância à gestão das empresas… não investia no BCP, BES, Banif, etc porque “eram uns aldrabões” e tinha uma confiança inabalável em determinados gestores, por exemplo os dois senhores que gerem a Ibersol, “porque os conheço”, ou Américo Amorim, que mantinha a empresa “o mais eficiente possível”: “o César julga que os cortadores de cortiça saem do posto para almoçar? Nem pensar, vão lá entregar-lhes o almoço numa marmita, para a paragem ser menor. Naquela empresa não se desperdiça nada”.

Era um investidor de longo prazo, mas quando havia subidas muito intensas, tomava mais valias para voltar a comprar mais baixo. Só que raramente vendia tudo, tinha uma posição “core” e depois “brincava” com uma posição menor. Ele nunca entrava ou saía de uma ação, ia entrando e ia saindo…

Não tinha qualquer problema em vender a perder quando via que estava errado. Por exemplo, quando eu finalmente o convenci que a Sonae Indústria, depois de ter subido um bom bocado, iria mesmo cair, ele finalmente abandonou uma grande parte da sua posição. A Sonae Indústria foi o “maior erro da sua carreira no mercado de ações”.

Outra foi os warrants… ele diz que uma vez investiu uns poucos milhares nos warrants (ainda por cima antes de ir de férias com os filhos) e depois nas férias só dizia “fui burro”, “fui burro” e estava só a ver as cotações. Aprendeu a lição e nunca mais se meteu nos warrants.

Um dos trades dele mais recentes foi ter comprado Altri abaixo de 3 €, ter aguentado todos os solavancos e ter vendido acima de 9 €… disse-me que eu também devia ter vendido, para voltar a comprar abaixo de 6 €, mas eu, enfim, não sabia o futuro e pensava que iria acima dos 12 €.

5. Conclusão

O Fernando Silva foi o meu maior mentor e um dos grandes promotores do BoS. A sua partida é uma enorme perda. Deixa-me a memória e os seus ensinamentos valiosos.

Fernando Silva foi uma pessoa feliz que viveu uma vida plena. Aos 80 anos ainda estava perfeito, usava o Facebook, o Messenger, o smart phone… cuidava da esposa e estava preparado para tudo. Não receava a morte.

Um Homem a quem devo muito, muito obrigado meu grande amigo Fernando Silva, um abraço e até sempre!

César Borja & Fernando Silva

This Post Has 2 Comments

  1. Bom dia Cesar estou no Brasil e sinto muito a morte do Fernando fico assim quando alguem muito parecido comigo ou eu com ele se vai pois hoje em dia com à sofisticação dos mercados e cada vez mais dificil encontrar operadores autodidatas,independentes didaticos e sinceros .Me vejo bastanre como ele.Estou indo a lis no comeco de maio quando espero almocaremos e aproveitando os ensinamentos do Fernando. De uma olhada nos numeros da teixeira duarte estou comecando a gostar e o anual ainda nao saiu (acho).a divida vem diminuindo abruptamente e os lucros devem voltar. Abs Victor

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