Não há ações perfeitas

A meio da década de 90, quando comecei a interessar-me pelas ações, virei-me como quase toda a gente para a Análise Técnica, especialmente depois de ler livros como Introdução à Análise Técnica de João Paulo Peixoto e o clássico dos clássicos sobre Bolsa em Portugal, o livro Ganhar em Bolsa, de Fernando Braga de Matos, cuja primeira edição data de 1993.

A ideia basilar da Análise Técnica é identificar e seguir a tendência.

Para construir gráficos das ações e fazer as primeiras análises técnicas comecei por retirar as cotações do jornal e enfiá-las à mão no excel (que chouriço!), mas, por volta de 1997, “adquiri” o software Metastock e um serviço de atualização de bases de dados de cotações. Com o Metastock e os seus mais de cem indicadores e expert advisors a Análise Técnica ganhou uma nova dimensão de complexidade. Já não interessava só a tendência, mas também uma panóplia de indicadores, como por exemplo aqueles que davam estados overbought e oversold. E a seguir aos indicadores veio a Teoria dos Candlesticks, que procura explicar e explorar o sentimento de curto prazo dos traders. A maior complexidade trouxe sinais e indicações contraditórias, o que levou ao aparecimento de “mãos fracas” e overtrading.

Uns dez anos depois, quando tinha um site sobre ações americanas (3StocksonFire), estava a ir pelo mesmo caminho com a Análise Fundamental. Já não me chegava ver as tendências das Vendas e do Lucro, nem o PSR e o PER, queria mais complexidade … um dos Subscritores desse site tinha muito mais experiência que eu, já investia em ações americanas desde a década de 80. Para além disso ele era um analista excepcional. É curioso que ele era dinamarquês e vivia em Moçambique, era o CFO da maior empresa de telecomunicações de Moçambique. Eu dizia-lhe assim: “como é que alguém tão branquinho como tu aguenta o calor e o sol de Moçambique?” Ele dizia que eu devia ir para lá … que tinha umas 10 empregadas em casa que lhe faziam tudo 🙂

Bom, voltando à Análise Fundamental, ao analisar uma ação – a Viropharma, que era tipo a preferida dele – comecei a escarafunchar demasiado nas rubricas do Balanço e o dinamarquês disse-me assim: “who cares about that? Just keep it simple or you’ll always be in doubt!”

O que é certo é que a Viropharma nos anos seguintes subiu vários bags até ser opada.

E agora, volvidos mais dez anos, são os novos Subscritores do Borja on Stocks que procuram a complexidade. Há umas duas semanas, um dos Subscritores escreveu “mas então e o relatório dos cash flows? Pode ser revelador de …” Depois, outro falou no goodwill. “Então e o goodwill não é caso para preocupação?” E hoje foi a vez do ROIC, o Return On Invested Capital.

Eu conheço estes termos e sei como analisá-los, da mesma forma que conhecia o MACD e as bollinger bands. Mas não quer dizer que deva! Porque, o essencial são as Vendas e principalmente o Lucro e a forma como estes irão evoluir no futuro. E o preço a pagar por essas vendas e lucros. O resto … pode ser importante, mas é secundário.

A verdade é que, se quisermos mesmo, podemos sempre encontrar razões para vender uma ação.

Quem quiser ter mãos fortes e investir para o longo prazo precisa de saber muito bem separar a informação essencial da acessória. Por vezes pode ser contraproducente ter mais informação, por causa das contradições e dúvidas que isso pode gerar.

A verdade é que não há ações perfeitas.

César Borja

This Post Has One Comment

  1. Haha, Obrigado pela Partilha César :).

    Gostei especialmente daquele: “who cares about that? Just keep it simple or you’ll always be in doubt!” 😀

    E é bem verdade, e acontece-me N de x. Dinamarquês sábio, esse :).

    Um Abraço

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