Lynch, o mito vivo!

Tempo de leitura: 10 minutos

Todos nós podemos ser bons investidores! É a ideia com que ficamos sempre que ouvimos Peter Lynch. Com 74 anos, o maior gestor de fundos da história é uma autêntica lenda viva no mundo do investimento. Não porque tenha desenvolvido uma teoria complicada, ou uma fórmula única, ou porque esteja atento ao que a FED vai fazer amanhã. Antes pelo contrário. Peter Lynch diz-nos que qualquer um de nós pode investir em empresas vencedoras. E mais ainda, que qualquer um de nós pode investir em empresas vencedoras muito antes dos profissionais e especialistas o fazerem.

 

You must have an edge

Peter Lynch ficou órfão do seu pai aos 10 anos e cedo teve que arranjar um trabalho para ajudar a mãe. Escolheu ser caddy de golf. Na América dos anos 50, ser caddy tinha vantagens fora do comum para um trabalho em part-time. Enquanto os seus amigos madrugavam para entregar jornais e se esforçavam para entregar mais uns quantos e assim aumentar o seu pocket money, Lynch estudava os seus clientes, abastados industriais, empresários e políticos, descobria quais eram os que davam melhores gorjetas e oferecia-se para ser seu caddy . Explorava a vantagem que tinha por estar próximo do acontecimento. Exatamente aquilo que nos ensina anos mais tarde quando dizia “You must have an edge”, ou “tens de ter uma vantagem”.

 

Magellan, o Fundo mais rentável do mundo

 Em 1966 Peter Lynch foi contratado como estagiário pela Fidelity Investments, em grande parte porque Lynch tinha sido caddy do Presidente durante 8 anos. Começou como analista de empresas ligadas ao papel e aos químicos, mais tarde ficou encarregue dos têxteis, metais e mineração até que em 1974 se tornou o diretor de pesquisa. Em 1977, aos 33 anos, Lynch foi nomeado responsável pelo Magellan Fund, um fundo ainda desconhecido com uma carteira de 18 milhões de dólares. Em 1990, quando se retirou, exatamente 13 anos mais tarde, o fundo tinha crescido até aos 14 mil milhões de dólares, com mais de 1000 ações em carteira.

Lynch chegou ao Olimpo dos investidores com uma impressionante taxa de retorno total de 2800% e anualizada de 29,2%, muito graças às tenbaggers em que foi apostando pelo caminho:

O termo tenbagger, foi adaptado do Baseball para o mundo do investimento por Peter Lynch. Representa uma empresa que multiplica por 10 o seu valor de mercado.

Um investimento de 10 mil dólares no primeiro ano do reinado de Peter Lynch teria crescido até 280 mil dólares ao fim de 13 anos.

 

O Educador

 Lynch passou a vida a educar a população americana para o investimento em ações. Afirmava que a literacia financeira do americano médio era muito fraca. Seja através dos seus livros, de entre os quais “One up on Wall Street” é o mais famoso, seja através das suas palestras, ou de vídeos educativos, Lynch nunca se cansou de passar a mensagem.

 Nas suas próprias palavras, “É uma tragédia que na América o pequeno investidor tenha sido convencido pelos media que não tem a menor hipótese de sucesso. Que as grandes instituições financeiras com todos os seus computadores, todos os seus certificados e o seu dinheiro têm todas as vantagens. E quando as pessoas acreditam nisto começam a comprar coisas que não compreendem, com cada vez maior risco. E isso é muito preocupante. Eu acho que o público pode dar-se muito bem na bolsa por sua conta.”

 A filosofia de investimento de Peter Lynch é do mais intuitivo que podemos encontrar no mundo dos grandes investidores. Existe uma razão pela qual as ações sobem ou descem. As ações não são bilhetes da lotaria. Existe uma empresa por detrás de cada ação. Se a empresa se dá bem, a ação vai dar-se bem. E se a empresa se dá mal…exatamente!

E argumenta que mesmo pessoas sem grandes conhecimentos informáticos conseguiam ver que enquanto a IBM andava à guerra com os seu concorrentes, a maioria dos computadores pessoais na década de 80 tinham o MS DOS da Microsoft. Não era necessário um curso para perceber que a Microsoft estava a safar-se muito bem. Este é um clássico de Lynch “Quando existe uma guerra, não invistam numa das empresas que está a lutar. Invistam na empresa que vende as balas”.

 

Own what you know

Certo dia a sua mulher chegou a casa com uns novos collants cuja embalagem em forma de ovo lhe tinha chamado a atenção. Ao passo que os collants comuns se vendiam em lojas de roupa, estes tinham sido comprados no supermercado. Rapidamente todas as amigas da mulher usavam os mesmos collants. Lynch ficou a pensar naquilo e foi pesquisar. A Hanes, empresa que comercializava os collants L’eggs, acabou por ser uma das suas tenbaggers mais famosas, exatamente porque espelhava na perfeição a sua filosofia.

Lynch diz-nos para mantermos os olhos abertos. As pessoas dentro da própria indústria são as que melhor a conhecem e por isso podem estar meses à frente dos analistas e investidores profissionais. Se uma determinada pessoa trabalha na indústria da fruta e consegue ver um claro aumento de camiões à porta da sua empresa, consegue facilmente entender que o negócio corre bem. (Lynch fez sempre questão de frisar que não se refere a informação privilegiada, apenas a usar o senso comum). Se um mecânico vê que há ferramentas muito melhores do que outras, provavelmente essa empresa vai prosperar. Porque haveria esse mecânico de investir numa biotech de que nada sabe, apenas porque ouviu alguém falar sobre ela?

 

“Se não conseguem entender o balanço, provavelmente não devem comprar a ação”

 Alguns anos depois de sair do Magellan e da sua filosofia ser sobejamente conhecida, Lynch volta à ribalta para alertar os investidores que quando diz para comprarmos aquilo que conhecemos, não está a dizer para comprarmos tudo aquilo que conhecemos. “Escolher ações é difícil até para os profissionais”. Lynch diz-nos que após termos descoberto o que nos pode parecer uma empresa promissora, devemos analisar o negócio,  os números da empresa, o valor dos seus ativos, etc. Se possível, devemos visitar a empresa, experimentar o seu produto, e no fim de tudo isto devemos ser capazes de explicar a uma criança, em menos de 2 minutos porque investimos. Se não conseguirmos explicar claramente em 2 minutos a uma criança a razão da nossa compra, é porque não dominamos completamente a questão e não devemos investir.

Diversificação

 A maior parte dos value investors afirma que o caminho para grandes retornos é o da concentração em algumas excelentes empresas. Mas depois fazem o contrário.

Lynch não é diferente. Diz-nos que o investidor médio não consegue manter debaixo de olho mais de 5 a 10 empresas, e por isso deve ser esse o número aproximado de ações no seu portfólio. Como o investidor privado não tem as restrições de um administrador de um fundo, “pode dar-se ao luxo de ser extremamente exigente e investir apenas naquelas poucas empresas que entende e que têm um produto realmente superior, ou um franchising com claras oportunidades para expansão.” E ilustra a estratégia: “Vamos dizer que tem um portfólio de 6 ações. Duas delas são médias, duas delas são fracas, e uma delas é uma verdadeira perdedora. Mas que também tem uma ação fora de série, a sua Coca Cola, a sua Gilette. Aquela ação que o lembra da razão porque começou a investir. Por outras palavras, não precisa de estar certo todas as vezes para se dar bem. Se encontrar aquela empresa em crescimento realmente excelente e a segurar o tempo suficiente para deixar os lucros aumentarem, os ganhos devem mais do que compensar os resultados das outras ações do seu portfólio.” (A Coca Cola e a Gilette eram na década de 80 empresas de forte crescimento)

Aqui as palavras fundamentais são “empresa excelente” e “segurar o tempo suficiente”. O investidor precisa de conhecer muito bem a empresa e precisa de ser capaz de a aguentar por bons e maus momentos. Até o maior gestor de fundos do mundo teve dificuldades com isto. Admite que o seu maior erro foi exatamente vender cedo demais.

 Já o seu fundo Magellan tinha quase sempre mais de 1000 empresas. Obviamente que pelo facto de ter milhares de milhões de dólares para gerir, e por imposição das leis americanas, Lynch tinha que dispersar o capital por um número elevado de empresas. Outro fator que ajudou a esta super-diversificação foi o facto de o grosso do tempo em que Lynch esteve à frente do Magellan ter coincidido com o Bull-Market dos anos 80 em que havia muitas empresas em rápido crescimento, exatamente o tipo de empresas que Lynch gostava. Os seus colegas brincavam dizendo que “não existe ação da qual Peter Lynch não goste”.

O tempo está do lado do Investidor

 Peter Lynch diz-nos que o tempo está do nosso lado. Não existe razão nenhuma para corrermos para uma OPV com medo de perder o barco. Existem milhares de empresas cotadas em bolsa, não precisamos de ir a todas.

 Dá-nos o exemplo do Wal Mart que entrou em bolsa em 1970. “Se um investidor fosse muito prudente e quisesse ter a certeza de que o Wal Mart ia conseguir crescer, podia comprar o Wal Mart 10 anos após ter entrado em bolsa e teria conseguido um retorno de 60 vezes”. Dá-nos também o exemplo da Microsoft: “Podia comprar a Microsoft três anos após ter entrado em bolsa, depois de já ter multiplicado o seu valor por 10, e mesmo assim teria multiplicado por muito o seu dinheiro”.

Diz-nos que “se queremos duplicar o nosso dinheiro em pouco tempo o melhor que temos a fazer é dobrar uma nota ao meio e pô-la na carteira”; “Se achamos que vamos precisar do dinheiro em 2 anos, o melhor é não investirmos em ações.”; “Uma boa ação pode demorar 2, 3, ou mesmo 5 anos antes que produza bons resultados.”

 

O mítico estudo

 Quando se fala de Peter Lynch é frequente falar-se de um estudo feito pela Fidelity,  em que se compara a performance do fundo à performance dos investidores do fundo. Cada fonte que referencia este estudo tira conclusões ligeiramente diferentes. Umas fontes afirmam que, apesar do fundo ter valorizado 2800%, metade dos investidores perderam dinheiro ao investir no Magellan. Outras fontes dizem que a média dos investidores tiveram um retorno anualizado de 6% enquanto o do fundo foi de 29,2%. Mas todas as fontes tiram a mesma conclusão. Esta underperformance dos investidores deve-se ao chamado “comportamento de manada” do ser humano. Os investidores metiam dinheiro no fundo em momentos de grande euforia, em que este subia e parecia que nunca mais ia descer, apenas para retirar o dinheiro quando o medo era generalizado e as cotações estavam lá em baixo.

 Ao fazer a pesquisa para este artigo, não foi possível encontrar o referido estudo em lado nenhum, tendo-se mesmo encontrado fontes que dizem que ele nunca existiu. Note-se também que existem outros estudos como o “Mind the Gap” da Morningstar ou o DALBAR que confirmam as conclusões do suposto estudo da Fidelity. Quer o estudo da Fidelity exista ou não, as conclusões são bastante credíveis e, apoiadas por estes outros estudos, encaixam-se que nem uma luva na filosofia do investimento a longo prazo.

“This is the end”

 A aura de Lynch perdura até aos nossos dias como um mito vivo. Não só pelos retornos estratosféricos que conseguiu nos seus 13 anos à frente do Magellan, mas porque, à imagem de uma Rock Star que nos abandona cedo demais, este se reformou aos 46 anos, de um momento para o outro.

Tal como escreve no prefácio do seu livro “Beating the Street”  “Acompanhar os desenvolvimentos constantes de milhares de empresas começava a ser demais”. “Quando se começa a confundir o nome de familiares com Fanny Mae ou Freddie Mac (empresas que detinha no seu portfólio), quando se sabe o simbolo de mais de 2 mil empresas mas se esquece do aniversário das filhas, é um claro sinal de que estamos demasiado embrenhados no nosso trabalho.”

 

Manuel Feijão Maurício

 

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