Nota: análise atualizada com os resultados do terceiro trimestre de 2025
Introdução
A EDP Renováveis foi criada em 2007 para gerir os ativos de energia renovável da casa mãe EDP.
As ações foram vendidas ao público em geral na OPV de 4 de junho de 2008 ao preço de 8 € por ação.
Só passados mais de dez anos é que os investidores iniciais começaram a ser recompensados com uma bela valorização.
E agora que as ações estão 53% abaixo do máximo histórico…

…mas 89% acima do mínimo de 2025.
Estarão as ações num ponto atrativo, ou, face aos resultados atuais, já não há fôlego para continuar a subida?
1. Apresentação
Atualmente a EDPR é uma das maiores empresas de energia renovável do mundo, com presença em 28 mercados.
A capacidade instalada aumentou de 19,3 GW no final de 2024…

…para 19,6 GW em meados de 2025…

…e finalmente para os 19,8 GW no final do terceiro trimestre de 2025:

Face à capacidade instalada no período homólogo, a distribuição geográfica foi a seguinte:

51% da capacidade instalada está na América do Norte, 34% na Europa, 9% na América do Sul e 6% no Resto do Mundo.
A produção de energia nos 9M25 cresceu 14% em relação ao período homólogo e o fator de utilização aumentou de 27,3% para 27,7%. Contudo, o valor médio de comercialização baixou 9%, para 54,2 €/MWh.
1.2. Estrutura Acionista
Há uns anos a EDP tinha cerca de 78% do capital da EDPR e lançou uma OPA para tentar adquiri-la por inteiro, ao preço de 6,75 € por ação, mas só conseguiu adicionar 5 pontos percentuais à sua posição, ficando com cerca de 83% do capital.
Depois os chineses da China Three Gorges lançaram duas OPAs, uma à EDP e outra à EDPR, também por um preço muito baixo (7,33 € na EDPR, quando a cotação já era 7,845 €) que foi rejeitado pelo mercado.
Há uns tempos, após uma grande subida da cotação da EDPR, a EDP mudou de estratégia e decidiu não participar num aumento de capital de 1,5 B€, pelo que diminuiu a sua participação na EDPR para 75%.
Finalmente, no dia 3 de março de 2023, a EDPR emitiu 50.968.400 novas ações, ao preço unitário de 19,62 €, angariando 1 B€. A casa-mãe EDP não participou neste aumento de capital, pelo que a sua posição desceu dos 75% para os 71,3% atuais:

Em abril de 2025 o fundo soberano do Governo de Singapura detinha 4,26% do capital e estava na segunda posição, mas agora na segunda posição está a gigante norte-americana BlackRock, dirigida pelo influente Larry Fink, que aumentou a sua posição dos 3,6% para os 4,66%.
Em abril de 2025, os três maiores acionistas controlavam 79,11% das ações e agora controlam 80,19%.
1.3. Equipa de Gestão
Desde a sua fundação em 2007 até fevereiro de 2021 a EDPR foi liderada pelo duo António Mexia / Manso Neto, este último na posição de CEO. Ambos foram afastados por ordem do tribunal devido a um caso relacionado com rendas excessivas no setor da energia.
Manso Neto mais tarde acabou por ser chamado para liderar a Greenvolt, a segunda empresa de energia renovável a ser lançada na Euronext Lisboa.
Desde fevereiro de 2021 a EDPR tem como CEO Miguel Stilwell de Andrade e o CFO é Rui Teixeira.
Os dois executivos acumulam estes cargos na EDP e na EDPR.
2. Gráfico desde a OPV
Após a OPV de 2008 as ações da EDPR descambaram mais de 70% até ao mínimo de 2,22 €.
Desde esse mínimo até ao máximo subiram mais de 1000%:

Lembro-me particularmente da sessão de mercado após o referendo que deu a vitória ao Brexit, quando a EDPR abriu a descer 18,9% para os 5,43 €.
Foi uma bela oportunidade de compra!
2020 – o ano da pandemia – foi de ganhos estupendos para a EDPR, que depois passou a lateralizar.
Desde agosto de 2022 que a cotação entrou numa espiral descendente, ainda que com alguns ressaltos pelo meio…

…nomeadamente entre outubro e dezembro de 2023, entre abril e setembro de 2024, e de abril a outubro de 2025.
3. Tendências Fundamentais
3.1. N.º de Ações Emitidas, Capitalização Bolsista e Enterprise Value
Entre 2008 e 2020 o n.º de ações emitidas pela EDPR manteve-se constante emm 872 milhões.
Mas ao ver as ações valorizarem tanto e necessitando de capital para financiar os investimentos, em 2021 a gestão promoveu um aumento de capital (reservado a institucionais) onde vendeu cerca de 89 milhões de novas ações, angariando cerca de 1,5 B€.
Em 2023 voltou a ir buscar dinheiro ao mercado, 1 B€, emitindo cerca de 51 milhões de novas ações e ficando com 1012 milhões de ações emitidas.
Recentemente os scrip dividends (que permitem que os investidores optem por receber dividendos em novas ações) terão contribuído para o aumento do n.º de ações para os 1051 milhões atuais:

No final de 2013, a EDPR tinha um valor de mercado de 3367 M€ e agora está em 13.569 M€.
Se, ao valor de mercado, adicionarmos a dívida líquida e o valor dos interesses minoritários, obtemos o Enterprise Value (EV), que é uma medida mais abrangente do que a empresa vale, ou custa, no mercado.
O EV da EDPR está nos 24.056 M€:

3.2. Receitas e Price to Sales Ratio
As receitas da EDPR cresceram dos 532 M€ em 2008 para os 1827 M€ em 2017, o que deu uma taxa média anual de crescimento de 14,7%.
Mas entre 2017 e 2021 o nível de receitas anuais estabilizou e só em 2022 é que saltou para um novo máximo histórico, nos 2371 M€.
Entre 2022 e 2024 houve a seguinte evolução:
- A capacidade instalada aumentou de 14,7 GW para 19,3 GW
- A energia produzida aumentou de 33,4 TW para 36,5 TW
- O preço de venda da energia baixou de 64,7 € para 58,9 €
O aumento da capacidade instalada, em conjunto com o aumento da energia produzida, não foi suficiente para compensar a baixa de preço entre os dois períodos.
Em abril de 2025 os analistas apontavam para 2649 M€ de vendas em 2025, em outubro apontavam para os 2653 M€ e agora esperam 2615 M€:

Dividindo o valor de mercado pelo valor das receitas anuais, obtemos o Price to Sales Ratio, que é um medidor básico, mas essencial do grau de valorização da empresa pelos investidores.
No mínimo de 2013 o PSR andava pelos 2,5 e agora, face às estimativas dos analistas para 2025, está nos 5,2, tendo diminuído significativamente desde os 8,5 da análise profunda de abril de 2023.
Os 4,8 no gráfico acima têm em consideração o valor de mercado no final de 2025 e as perspetivas dos analistas para 2025, enquanto os 5,0 têm em conta a receita projetada para 2026 e o valor de mercado atual.
Ainda que as estimativas dos analistas para 2025 tenham sido revistas em alta, em média para o próximo triénio diminuíram 1,4% face à análise profunda de outubro de 2025:

3.3. EBITDA e Múltiplos do EBITDA
Lembro-me que em março de 2024 os analistas apontavam para um EBITDA nesse mesmo ano de 2048 M€, porém o valor apresentado foi de 1684 M€.
Face à análise profunda de outubro de 2025, as estimativas dos analistas para o próximo triénio baixaram 1,1%:

Perante as estimativas dos analistas para 2025, a EDPR transaciona com um EV to EBITDA25 de 12,7…

…acima dos 12,2 fixados pelo valor de mercado no final de 2025.
A média histórica do rácio EV/EBITDA está em 11.
Após o máximo de 15,4 atingido no final de 2020, este múltiplo de valorização está em contração.
3.4. Margens EBITDA, Operacional e Líquida
A principal explicação que encontro para a valorização das ações da EDPR entre 2016 e 2021 é a expansão das margens:

Repare-se que a margem líquida se expandiu dos 3,4% em 2016 para os 37,3% em 2021.
Como é que a EDPR conseguiu tornar-se muito mais lucrativa?
Através do modelo de rotação de ativos.
Em vez de explorar apenas os seus ativos, a EDPR passou a vendê-los, obtendo grandes mais-valias… também foi por causa da venda de ativos que as receitas estagnaram entre 2017 e 2021.
No relatório de 2024 temos a seguinte informação:
EDPR’s Asset Rotation strategy has been an important part of the Company’s performance. Asset Rotation plan will be based on selling ≈45% of all annual capacity additions from 2023 to 2026, selling a total of 5 GW for the period and generating a total of ≈€5 Bn of proceeds. These transactions will reflect expected capital gains of ≈€0.2 Bn each year. EDPR closed 4 asset rotation deals in 2024, amounting to 1 GWh.
Mas será que este modelo de rotação de ativos é sustentável no médio/longo prazo?
À partida sim, mas há duas tendências que ameaçam esta estratégia:
1ª – A tendência para a diminuição da procura de eletricidade na Europa…

…que poderá ser compensada pelo aumento de procura que se verificou nos EUA ao longo dos últimos anos:

2ª – A tendência para a descida de preços da eletricidade na Europa e possivelmente na América do Norte, onde já são substancialmente mais baixos (informação retirada do Key Data da EDP Renováveis):

O preço médio global de venda da eletricidade no primeiro semestre de 2025 baixou 8,6% face ao período homólogoe nos 9M25 baixou 9%.
3.5. Resultado Líquido e PER
Em 2024 a EDPR apresentou um prejuízo reportado de 556 M€…

…ainda que a nível dos resultados recorrentes se tenha mantido lucrativa (lucro de 221 M€).
Considerando as estimativas anuais para o resultado líquido, o desenvolvimento desde a análise anterior foi o seguinte:

As estimativas de lucro para o próximo triénio diminuíram 4,5%.
Verificamos que o resultado líquido projetado pelos analistas para 2025 tem vindo a ser revisto em baixa ao longo de todas as nossas análises desde abril de 2023, começando nos 750 M€ e estando atualmente nos 330 M€.
O gráfico com a tendência de longo prazo e a nova estimativa para o futuro é a seguinte:

Em 2016 o lucro da EDPR teve uma quebra inesperada para os 56 M€, mas depois catapultou-se mais de 10 vezes até 2021, justificando a valorização das ações.
Sendo uma empresa líder e inovadora na indústria das energias renováveis, não é de admirar que, historicamente, a EDPR nunca tenha estado com um PER baixo. O mínimo que foi possível obter foi 19 em 2019, antes da espetacular subida das ações em 2020.
Face às estimativas dos analistas para 2025, o PER atual está em 41,2.
O prejuízo de 2024 é explicado por vários fatores:
- Os outros ganhos baixaram dos 583 M€ para os 317 M€ (menor rotatividade de ativos)
- 140 M€ de previsões (118 M€ dizem respeito ao desinvestimento na Colômbia)
- Aumento considerável (+48%) das depreciações
- Na realidade, não foram as depreciações que pesaram, mas sim uma imparidade de 562 M€:

- O valor dos juros pagos aumentou dos 314 M€ para os 376 M€
Entre 2015 e 2017 a rubrica outros proveitos operacionais era constituída por: ganhos em concentração de actividades empresariais, amortização de proveitos, contratos e indemnizações, outros proveitos, entre outros. Na sub-rúbrica outros proveitos, ainda que não fosse realizada a divisão, estavam as mais-valias da alienação de ativos.
De 2018 em diante a EDP Renováveis passou a apresentar o valor concreto obtido com a venda de ativos.
Em seguida a evolução das rubricas e sub-rubricas mencionadas…

…e ainda o peso da venda de ativos nos resultados líquidos reportados e no EBITDA de cada período:

3.6. Dívida Líquida
Devido aos pesados investimentos – que não foram totalmente financiados pela venda de ativos – a dívida líquida da EDPR catapultou-se para 8,3 B€ no final de 2024 e agora está nos 9,2 B€:

Considerando as estimativas atuais dos analistas para 2025, o net Debt to EBITDA25 está em 4,8.
O peso da dívida com taxa fixa tem vindo a baixar dos 79% no final de 2024, para os 74% no final do primeiro semestre e finalmente para os 72% atuais…

…e uma parte considerável da dívida com maturidade em 2025 deverá ter sido refinanciada:

4. Comparação com Congéneres
Nos relatórios mais antigos, a EDPR compara-se bastante com outras duas gigantes da energia eólica, a espanhola Iberdrola Renovables e a norte-americana Nextera Energy.
Aquilo que a EDP não conseguiu, que foi retirar a EDPR de bolsa a um preço mais baixo do que tinha vendido na OPV, conseguiu a Iberdrola, que vendeu a Renovables a 5,3 € por ação e depois conseguiu ir buscá-la por 3 € por ação.
A Iberdrola planeia investir 17 B€ nas energias renováveis entre 2023 e 2025, com uma forte aposta no Offshore Wind (46%)…

…enquanto a EDPR só planeia investir cerca de 3% nesse segmento, através da sua parceria com a francesa Engie na Ocean Winds.
A EDP obteve receitas de 14.966 M€ em 2024, das quais 2320 M€, ou 15,5%, vieram da EDPR.
A Iberdrola obteve receitas de 44.739 M€ em 2024, das quais 10.055 M€, ou 22,5%, vieram do segmento Renewable Energy.
A Iberdrola é a segunda maior empresa de energias renováveis do mundo, mas não deve ser comparada com a EDP Renováveis porque cerca de 77,5% das suas receitas não advêm do segmento de energias renováveis.
A maior do mundo desta indústria é a norte-americana NextEra Energy, que está a valer $163 B na NYSE e atualmente transaciona com um PERttm de 25.
O EV da NextEra está nos $264 B e o EBITDA em 2024 foi $13 B, colocando o rácio EV/EBITDA24 nos 20, significativamente acima dos 12,2 da EDPR.
5. Perspetivas
Na tabela com as estimativas do Resultado Líquido para os próximos anos, no tópico 3.5., vemos que os analistas esperam uma recuperação do lucro da EDPR e apontam para um crescimento acentuado em 2029.
Porém há duas tendências atuais que retiram alguma credibilidade a essas estimativas:
1ª – A tendência para a diminuição dos ganhos com a estratégia de rotação de ativos;
2ª – A manutenção das taxas de juro num nível elevado face a 2021
Nesta situação precisamos que aconteça uma de duas coisas, ou ambas, para considerar que a EDPR eventualmente poderá voltar ao TOP10 Lisboa:
A – Os preços da eletricidade voltam a subir e abre-se a expectativa dos ganhos com a rotação de ativos voltarem a gerar margens de 50% sobre o capital investido.
Sobre isto podemos ir acompanhando os preços dos futuros da eletricidade na Europa aqui.
No início de 2024, os preços de eletricidade eram os seguintes…

…em abril de 2025 tinham sido os seguintes…

…e em outubro estavam assim:

O problema aqui é que o período de comparação é diferente. No primeiro e segundo caso tínhamos recolhido os dados de abril e depois tínhamos os de novembro, que não são propriamente períodos comparáveis a nível de procura e produção.
Desta forma, proponho uma análise aos preços face ao período homólogo e ao início do ano (2026):

Da apresentação referente aos resultados de 2024, entre os slides 10 e 13, retiro a seguinte informação sobre os 36,5 TW de energia produzidos em 2024:
- Europa: 11,545 TW
- Espanha: 4,305 TW
- Portugal: 3,179 TW
- Polónia: 1,661 TW
- Roménia: 1,081 TW
- Outros: 1,319 TW
- América do Norte: 20,170 TW
- EUA: 18,122 TW
- Outros: 2,048 TW
- América do Sul: 3,441 TW
- Brasil: 3,340 TW
- Chile: 0,1 TW
- APAC: 1,396 TW
Em resumo, nesta fase o que queremos acompanhar são os preços da eletricidade em Espanha, Portugal e nos EUA.
Nos Estados Unidos também existem preços para cada estado ou região do país. Neste link a US Energy Information Administration estima que em 2025 os preços de venda de eletricidade no mercado grossista aumentem 7%, enquanto no mercado residencial aumentem 2%.
Dizem que, nos Estados Unidos, o principal fator que influencia os preços da eletricidade é a cotação do gás natural, porque este é o principal combustível usado para produzir eletricidade.
O gráfico seguinte mostra a evolução, que me parece bastante cíclica, do preço do gás natural:

B – A cotação da EDPR cai até que os múltiplos de valorização estejam em mínimos históricos. O PSR descia até 2,5, o EV/EBITDA descia até 6,6 e o PER caía para os 19.
Considerando as projeções dos analistas para 2025 e o valor de mercado atual, o PSR25 está nos 5,2, o EV/EBITDA25 está nos 12,7 e o PER25 está nos 41.
Os fatores exógenos estão a dar indicações positivas, mas intrinsecamente a EDPR ainda não está no sweet spot.
6. Tipo de Play
A EDPR tem sido uma growth play de múltiplos elevados que esteve perto do sweet spot em abril de 2025…

…quando alcançou um mínimo relativo.
Tendo em conta os resultados de 2024, o PSR à cotação de 6,71 € estava nos 3 e o EV to EBITDA nos 9,8.
Considero que é plausível aceitarmos múltiplos mais esticados, diria que um PSRttm abaixo de 3 e um EV to EBITDA histórico abaixo de 10 poderão ser um bom sinal para uma atualização.
Uma nova análise é sempre necessária antes de ser tomada uma decisão de investimento porque poderemos estar perante uma alteração profunda dos fundamentais, como, por exemplo, dívida em níveis insustentáveis, processos iniciados contra a entidade, etc.
7. Conclusão
Já fiz três transações na EDPR no TOP10 Lisboa, e as três geraram mais-valias.
Quero naturalmente manter este registo obtendo uma quarta mais-valia no futuro.
Para isso preciso de ver um ponto de entrada que me dê alguma margem de segurança ou então uma melhoria relevante nas tendências fundamentais que não esteja descontada pelo mercado.
Como referi anteriormente, alguns dados exógenos poderão vir a beneficiar os resultados futuros, mas face aos resultados efetivamente apresentados, a EDPR está intrinsecamente sobreavaliada.
A minha ideia atual é que as ações da indústria das energias renováveis devem ser evitadas até que faltem menos de 12 meses para o término do mandato da Administração Trump, ou seja, só a partir de janeiro de 2028 é que devemos voltar a procurar oportunidades nesta indústria.
