Desperte o Warren Buffett que há em si

Tempo de leitura: 6 minutos

Finalmente acabei de ler as cerca de 900 páginas da Biografia de Warren Buffett.

A ideia que muitas pessoas têm é que, para além da sua inteligência genial e da disciplina da sua personalidade, ele teve a sorte de ser o homem certo, no lugar certo, pois investiu, com uma perspetiva de longo prazo, durante dois dos maiores bull markets da história.

Primeiro, o bull market do final dos anos 40 até 1968 …

Warren Buffett - Gráfico bull market 1949 e 1968

… quando o S&P500 subiu 700%. Nesta fase ele comprava principalmente small caps subavaliadas.

E depois o maior bull market da história, entre 1982 e o ano 2000 …

Warren Buffett no maior bull market da história, entre 1982 e o ano 2000

… em que o S&P500 subiu mais de 1 400%. Nesta fase ele já comprava empresas de dimensão considerável e por inteiro.

Mas, Warren bateu o índice de mercado por larga margem e a sua performance pode ser medida pela cotação das ações da sua empresa, a Bershire Hathaway:

Gráfico de longo prazo da Bershire Hathaway

Agora não vou procurar nas páginas do livro, mas lembro-me que ele comprou as primeiras ações da Berkshire Hathaway (uma empresa têxtil que progressivamente abandonou essa atividade – Warren pôs um ponto final nos têxteis em 1985 – para passar a ser uma sociedade gestora de participações sociais), salvo erro no final dos anos 50, por $7,5 cada uma. Se elas agora estão nos $239 320 cada uma, a subida, nos últimos 60 anos, foi de 3 190 833%. A taxa média anual de valorização foi de 18,87%.

Para comparação, o S&P500 fechou o ano de 1957 nos 39,99 pontos e agora está nos 2 195,4 pontos, ou seja, 5 489% mais alto, com um retorno médio anual (sem contar com os dividendos) de 6,9%.

Simplificando, nos últimos 60 anos, o S&P500 subiu cerca de 55 vezes enquanto que as ações da Berkshire Hathaway subiram 31 909 vezes (!) Mil dólares investidos no S&P 500 transformaram-se em 55 mil dólares em 60 anos, enquanto que, no mesmo período, os mesmos mil dólares investidos nas ações da Berkshire Hathaway se transformaram em cerca de 32 milhões de dólares. O que uns pontos percentuais extra em cada ano fazem passados 60 anos … vistas assim as coisas provavelmente será um grande exagero e injustiça atribuir grande parte do sucesso de Warren à sorte, ainda que ele frise várias vezes no livro que teve sorte por ter nascido em 1930 nos Estados Unidos. Ele diz que, se tivesse nascido no Bangladesh, por exemplo, provavelmente não teria feito mais que cultivar arroz. Mas, quantos milhões de pessoas nasceram nos Estados Unidos na década de 30 que não enriqueceram? A maior parte, como é evidente.

Passando à frente, algumas características dos investimentos de Warren Buffett:

  • No início da sua carreira ele comprava ações subavaliadas e vendi-as quando subiam até ao preço que ele considerava “justo”. Era muito influenciado pelo autor de Intelligent Investor, Benjamim Graham, que foi seu professor na Universidade de Columbia, mas com uma diferença crucial: Graham era adepto da diversificação, chegando a comprar centenas de ações diferentes (Graham, na sua carreira, bateu o mercado por 2,5 pontos percentuais ao ano), enquanto que Buffett (que como vimos bateu o mercado por cerca de 12 pontos percentuais ao ano) preferia a concentração de investimentos em poucas holdings, tipo cinco ou seis;
  • Mais tarde, especialmente depois de conhecer Charlie Munger e ser influenciado por este, começou a preferir não tanto empresas com ativos subavaliados, mas antes empresas de elevada qualidade, de alguma forma únicas. Ele dizia assim: “ninguém vai à mercearia comprar milho da empresa X ou Y, milho é milho. Mas para comprar chocolates See’s, só pode comprar os produzidos pela See’s Candies” (uma empresa que Buffett comprou em 1972);
  • Warren enfrentou grandes dificuldades com alguns dos negócios da Berkshire Hathaway, como por exemplo na Salomon Brothers em 1991, mas resolveu-os com mestria e por vezes fazendo mudanças na gestão, colocando pessoas da sua confiança na liderança. Este tipo de estratégia não é possível para o comum dos investidores; por vezes nós temos mesmo de assumir e cortar uma perda;
  • Warren não passava cartão à oscilação diária das cotações (e não passa, ele ainda está bem vivo, tem 86 anos e continua a dirigir a Berkshire Hathaway). Devora diariamente todo o Wall Street Journal, exceto a parte das cotações. Não tem nenhum ticker no escritório e o computador praticamente só o usa para jogar bridge online. A certa altura do livro ele diz assim: “o mercado é o meu servo, não o meu senhor.” O seu sócio, Charlie Munger, refere-se ao mercado mais ou menos desta forma: todos os dias o Sr. Mercado aparece na minha porta a perguntar se quero vender as minhas ações ao preço X ao que eu respondo: “eu é que sei o preço a que quero vender”;
  • Penso que eles sempre se sentiram tão confortáveis porque nunca alavancaram mais de 1,25 vezes o seu capital. Buffett, ali nos anos 70, pediu dinheiro emprestado para investir, mas somente 25% do capital que já tinha (a sua sociedade, digamos).

De resto uma grande parte do livro é sobre a vida pessoal de Buffett. Porquê que tinha duas mulheres, uma oficial e outra que cuidava dele (resumidamente, foi a sua esposa (Susie) que foi morar para São Francisco com o professor de ténis, mantendo o casamento com Warren e dizendo a uma amiga sua (Astrid, com quem Warren veio a casar em 2005, dois anos após a morte de Susie, salvo erro) para ir viver com ele, embora o livro apresente a história de forma bastante mais suave). O meu capítulo preferido foi o 44, cujo título é “Rose”. Só lendo. Também é muito interessante a explicação pela qual Buffett decidiu doar 85% da sua fortuna à fundação de Bill & Melinda Gates. Basicamente foi porque “eles gerem melhor a filantropia e conseguem salvar mais vidas do que eu” e porque “devemos contribuir para tornar as oportunidades menos desiguais no Mundo”. Warren sempre se questionou: “e se eu tivesse nascido em África?”

Ainda que o livro seja perfeito para conhecer Warren Buffett, o Homem, é relativamente opaco em relação à sua estratégia de seleção de ações. Penso que a esse nível o livro “como enriquecer na bolsa com Warren Buffet?” é mais útil.

Para nós, investidores comuns, considero importante conhecer as filosofias de Buffett – afinal ele é o investidor com o melhor e mais longo track record de todos os tempos – mas ao mesmo tempo reconhecendo as nossas limitações.

Warren pegou numa empresa têxtil inevitavelmente destinada à falência e transformou-a de tal forma que hoje em dia é uma das maiores e mais valiosas empresas do Mundo. Se não fosse ele os acionistas da Berkshire Hathaway teriam perdido tudo. Com ele, multiplicaram por 32 mil vezes o seu investimento.

 

Não foi sorte.

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