A GALP Energia tem remunerado os seus acionistas de forma interessante.
Os seus dividendos são pagos duas vezes por ano, sendo que, em 2025, foi pago um dividendo em 28 de maio (0,34 € por ação) e outro em 18 de agosto (0,31 € por ação), no total de 0,65 € por ação.
À cotação atual de 20,20 €, o dividend yield está nos 3,2%.
Adicionalmente, ao longo do ano, recomprou 250 M€ de ações.
O plano de recompra de ações certamente ajudou a Galp em 2025, mas o crescimento das últimas semanas…

…foi motivado pela guerra no Irão, devido à qual o preço do petróleo disparou:

Em termos de longo prazo, a Galp apresenta um comportamento cíclico que é motivado pela indústria em que opera e a cotação está sensivelmente no mesmo sítio há 18 anos:

1. Apresentação
1.1. História
As seguintes quatro empresas estão na origem da GALP:
- Sacor
- Cidla
- Sonap
- Petrosul
Durante o PREC, estas empresas foram nacionalizadas e fundidas, criando a GALP.
Em 1999, iniciou-se o processo de reprivatização da GALP, em fases, e o Grupo Américo Amorim só entrou no capital em 2005, um ano antes da OPV de 24 de outubro de 2006.
Logo a seguir à entrada em bolsa, a GALP foi presenteada com a maior descoberta de petróleo do mundo, no Brasil, numa área explorada por um consórcio em que tinha 10%. Foi essa descoberta que causou uma euforia nas ações em 2007, com a cotação a atingir o máximo, agora relativo, de 19,50 €.
Mais recentemente, em abril de 2024, foi comunicada uma descoberta na Namíbia que fez as ações valorizarem 28% em apenas 7 dias, levando a GALP a novos máximos históricos, nos 21,41 €:

Aparentemente, a euforia foi despropositada, pois nos meses seguintes, a Galp desvalorizou 43%, ainda que, de momento, transacione apenas a 5,3% do máximo absoluto de 21,41 €.
1.2. Estrutura Acionista
Atualmente, os dez maiores acionistas da GALP Energia são os seguintes:

39,8% pertencem à Amorim Energia, que, por sua vez, pertence em 55% à família Amorim e em 45% à Sonangol, que afirmou que esta posição é estratégica e para manter a longo prazo.
De seguida temos o Estado Português, através da Parpública, com 8,9% do capital.
Devido aos planos de recompra de ações, a percentagem detida pela Amorim Energia desde o ano passado aumentou dos 38,7% para os 39,8% e a quota da Parpública aumentou dos 8,1% para os 8,9%.
1.3. Equipa de Gestão
A Chairman é Paula Amorim, filha do “lendário” Américo Amorim, que faleceu em 2017.
No início de 2023, houve uma “convulsão” na administração da GALP, com o CEO Andy Brown a ser substituído por Filipe Silva.
Em janeiro de 2025, Filipe Silva demitiu-se por “motivos familiares” e a sua posição foi assumida por dois CEOs interinos: Maria João Carioca, que, paralelamente, ocupa o cargo de CFO, e João Diogo Marques da Silva, que é vice-presidente da área comercial.
Em abril, ambos os executivos passaram a ser CEOs permanentes até ao final do mandato (2026).
2. Tendências Fundamentais
2.1. N.º de Ações Emitidas, Capitalização Bolsista e Enterprise Value
A Refinitiv indica que a GALP atualmente tem 692 milhões de ações emitidas, mas o site institucional indica que há 753,5 milhões:

Esta situação provavelmente acontece porque a Refinitiv não considera a posição da Parpública.
À cotação atual de 20,20 €, o valor de mercado está nos 15,2 B€.
Se ao valor de mercado adicionarmos a dívida líquida e o valor dos interesses minoritários a 31 de dezembro de 2025, obtemos o Enterprise Value, que está nos 18,5 B€:

2.2. Receitas e Price to Sales Ratio
No início do ano, os analistas apontavam para uma quebra das vendas de 11,4% em 2025 face a 2024, enquanto em novembro apontavam para uma diminuição de 7,4%, para 19,7 B€.
A Galp entregou 19,5 B€:

No que diz respeito às perspetivas dos analistas e aos dados fornecidos pela Refinitiv, estes parecem-me inconsistentes. Isto porque, a plataforma apresenta 21.311 M€ de receita em 2024, o que corresponde ao somatório de Sales e Services Rendered (20.830 M€ + 481 M€), enquanto em 2025 apresenta 20.081 M€, o que corresponde aos Sales + Services Rendered + Other Operating Income (18.978 M€ + 529 M€ + 574 M€), ou seja, verificamos que em 2024 o Other Operating Income no valor de 622 M€ não foi considerado, mas em 2025 já foi.
Dito isto, não tenho forma de saber se os 20.085 M€ projetados para 2026 dizem respeito a duas ou três rubricas.
De qualquer forma, se o preço do petróleo continuar nos patamares atuais, é óbvio que estas estimativas vão ser revistas em alta. Outro motivo que poderá potenciar o aumento da receita é o câmbio entre o EUR e o USD porque, teoricamente, quanto mais alto estiver o USD, melhor para a Galp.
No passado recente, as Receitas de 2020 foram as mais baixas desde a OPV, por causa da pandemia/confinamentos e as Receitas de 2022 foram as mais altas de sempre, por causa da tristeza da guerra na Ucrânia e a consequente subida do preço do barril de petróleo:

No ano passado, as estimativas dos analistas apontavam para 27,1 B€ de vendas em 2027, mas vejo agora que estes apontam para os 20,5 B€.
No que diz respeito ao projeto na Namíbia, a Galp trocou 40% da sua participação no PEL83|Mopane (ficou com 40%)…

…por uma posição de 9,4% no PEL91 (ainda sem nome) e de 10% no PEL56 (Venus). O projeto PEL56, Venus, é o mais adiantado:

E&A significa que ainda estão em Exploração e Avaliação e FID é Final Investment Decision, ou seja, a decisão de investimento no projeto PEL56 deverá acontecer em meados de 2026.
No que diz respeito a São Tomé, está prevista uma nova perfuração em 2027 (exploration well).
O primeiro poço em São Tomé (Jaca 1) foi considerado como não sendo economicamente viável.
Por outro lado, foi dada a indicação de que o projeto “Bacalhau” no Brasil…

…começou a extrair petróleo a 15 de outubro de 2025:

A expetativa é que o Bacalhau alcance o plateau no decorrer de 2027:

Em outubro de 2025 falava-se de uma capacidade de 220 mil barris por dia, sendo que a Galp detém uma posição de 14% (70% de 20%):
Embora a Equinor seja o parceiro líder no projeto Bacalhau, com 40% (operadora), a par da ExxonMobil, que também detém 40%, a Galp é a única parceira que assinou o contrato de concessão original do BM-S-8, há 25 anos. A Galp detém 20% do projeto através da Petrogal Brasil, uma joint venture com a Sinopec (Galp 70% | Sinopec 30%). A PPSA (empresa estatal, gestora da PSA) também é parceira.
2.3 EBITDA e EV/EBITDA
Após o máximo absoluto de 2022, o EBITDA tem diminuído ano após ano:

Os analistas projetam um incremento do EBITDA em 2030 para os 3701 M€, mas até lá esperam que o EBITDA navegue entre 3100 M€ e 3300 M€.
O múltiplo EV/EBITDA médio desde 2005 é 9,5, mas se considerarmos os últimos 10 anos, baixa para os 6,2 e agora está nos 5,9.
2.4. Margens EBITDA, Operacional e Líquida
A GALP é um negócio capital-intensivo que experienciou uma compressão das margens em 2024…

…mas que voltou a expandir em 2025.
2.5. Resultado Líquido e PER
Em 2024, os analistas quase acertaram na mouche, em 2025, ficaram aquém, já que apontavam para um lucro de 1045 M€, enquanto o resultado entregue foi de 1154 M€ (ajustados)…

…ou 1120 M€ reportados. Como podemos ver na imagem acima, este foi um novo máximo histórico desde 2005.
Como é que, entre 2022 e 2025, as receitas baixam, mas o lucro aumenta? A resposta é: diminuição considerável do valor das depreciações e amortizações. Em 2022 esta rubrica era de 855 M€, enquanto em 2025 foi de 664 M€.
Perante o valor de mercado atual, o PER25 está nos 13.
2.6. Indicadores de Balanço: Dívida Líquida e Net Debt to EBITDA
O nível de endividamento face aos resultados está controlado:

Um dos fatores que tem vindo a melhorar na Galp é o nível da dívida líquida, que baixou de 3210 M€ para os atuais 2549 M€, isto considerando o valor dos leasings.
É possível que a diminuição do endividamento seja uma preparação para os investimentos que vão ter de ser realizados na Venus, mais a médio prazo, e na Mopane a longo prazo.
Um Net Debt to EBITDA reduzido também permite à Galp prosseguir com a política de recompra de ações e de dividendos, que assenta num crescimento anual de 4%:

À cotação atual de 20,20 €, o dividend yield expectável é 3,2%.
3. A Aposta nas Renováveis
Na apresentação de agosto de 2024 (o link ficou indisponível), era mencionado um pipeline de 4,4 GW de energias renováveis na Ibéria…

…e nada era dito sobre o pipeline no Brasil que tinha sido apresentado em julho de 2023.
No relatório anual de 2024 identifico um pipeline total de 2 GW, dos quais, 1,5 GW já estão operacionais:

A conclusão é que o investimento nas energias renováveis baixou de um pipeline de 4,4 GW para 2 GW, sendo que, no final de 2025, a capacidade instalada era de 1,7 GW:

Em 2024, a produção de energia a partir de fontes renováveis baixou 10% e o preço de comercialização baixou 2%:

Por sua vez, o EBITDA aumentou 6% no seguimento de uma diminuição das depreciações e amortizações de 41%.
Em termos de EBIT, este segmento ainda é deficitário. Em 2026, a gestão aponta que o EBITDA RCA das renováveis será superior a 30 M€, enquanto em 2025 foi de 50 M€.
Ainda relativamente às energias renováveis, em finais de fevereiro de 2025 a BP anunciou cortes neste segmento e uma nova aposta nos combustíveis fósseis.
4. Fatores de Risco
Ainda que a GALP tenha vindo a diversificar parte da sua receita, o grosso continua a vir dos negócios relacionados com o petróleo – 55% do EBITDA ajustado de 2025 e 55% do EBIT ajustado, o que representa uma diminuição face a 2024, quando o segmento representava 63% do EBITDA ajustado e 67% do EBIT ajustado.
Pelo que o risco principal – para a GALP e para todas as empresas do setor Oil & Gas – continua a ser uma queda vertiginosa do preço do petróleo:

Uma situação que, pelo menos de momento, não se perspetiva que venha a acontecer num futuro próximo devido à guerra no Golfo Pérsico.
5. Perspetivas
Para além dos desenvolvimentos apresentados anteriormente no que diz respeito à exploração no Brasil, na Namíbia e em São Tomé, a Galp também avançou com a seguinte notícia em janeiro de 2026, que foi prontamente analisada por nós:
- Galp e Moeve em negociações para juntar atividades de Downstream com vista à criação de plataformas líderes europeias de Energia e Mobilidade
- Da indústria ao retalho, conheça os ativos que Galp e Moeve podem unir (artigo eco)
O plano é unir as operações de retalho e refinaria da Galp e da Moeve, com o upstream fora do negócio e totalmente nas mãos da Galp.
As operações comerciais ficavam com “participações acionistas equilibradas”, enquanto, no caso da refinaria, a Galp ficaria com uma posição minoritária, mas superior a 20%.
Esta fusão daria origem a um grupo com cerca de 3500 estações de serviço e com 3 refinarias que teriam uma capacidade total de refinação na ordem dos 700 mil barris por dia.
Em 2025, o EBITDA ajustado do Industrial e Midstream da Galp cresceu 25% e representou 31% do total e o Comercial cresceu 25% e representou 13%. Em termos de EBIT, o primeiro cresceu 17% e representou 37% do total, enquanto o segundo cresceu 76% e representou 11%.
Desta forma, a Galp ficará liberta da gestão das unidades comerciais e industriais e ficará focada na atividade de upstream e nos investimentos massivos que deverá começar a realizar quando os projetos na Namíbia entrarem em fase de construção.
Ficando mais focada na atividade de extração, diria que é expectável que a cotação da Galp fique mais correlacionada com a evolução do petróleo.
Eu, há uns anos, considerava que o petróleo estava morto; mais recentemente, assumi que, ainda que viesse a estar morto, isso só seria no muito longo prazo, isto no seguimento de uma conversa com um grande investidor que, se eu tenho 30 anos de bolsa, ele tem 60.
Na altura, ele dizia-me que a GALP obtinha o petróleo no Brasil muito barato, abaixo dos $25 por barril, e que isso iria continuar e expandir-se por muitos anos. Que não será na vida dele, nem na minha, que o petróleo será substituído pelas renováveis.
Devo esclarecer que ele não estava a desejar-me uma vida curta, mas a dizer que acredita que a transição energética será muito mais demorada do que pensamos, porque as necessidades energéticas do mundo estão a crescer mais depressa do que a adição de energias renováveis, pelo que só mesmo o petróleo – e ainda mais petróleo – é que vai conseguir suprir as necessidades.
Para além do exposto anteriormente, os desenvolvimentos mais recentes, nomeadamente a “extração” do presidente da Venezuela e do próprio petróleo venezuelano, e a guerra no Irão mostram que o longo prazo ficou ainda mais longo no que diz respeito à morte do petróleo e substituição por energias renováveis.
6. Tipo de Play
A GALP é uma play cíclica que deve ser comprada quando os resultados são maus e vendida quando os resultados são bons. Com a tendência para a subida do preço do petróleo – principalmente devido ao estrangulamento do Estreito de Ormuz – tudo indica que os resultados da Galp Energia em 2026 serão muito acima das estimativas atuais.
A minha expetativa pessoal é que o preço do petróleo do barril de Brent tenha um spike acima dos $200 por barril e uma cotação média em torno de $125 em 2026, porque mais a longo prazo a situação no Estreito de Ormuz acabará por ser resolvida e também vai entrar muito petróleo novo oriundo da Venezuela que, com a ajuda dos americanos, deve aumentar a sua produção.
Perguntei ao Manus qual é que seria o lucro da Galp Energia em 2026, caso o preço do barril de Brent fosse $125 (em média) e a resposta foi, no cenário central, 1570 M€:

Se multiplicar este valor por um PER de 15 – o mercado tem tendência a entusiasmar-se nas fases positivas – obtenho um valor de mercado de 23.550 M€, o que, a dividir pelas 753 milhões de ações dá uma cotação de 31,27 €.
7. Conclusão
Ainda este ano ouvi uma opinião interessante, que, se não estou enganado, pertence a John Rockefeller:
The best business in the world is a well run oil company. The second best business in the world is a badly run oil company
Penso que a Galp se enquadra na primeira frase.
Face ao exposto, optámos por adicionar a Galp ao TOP10 Lisboa no dia 9 de janeiro de 2026.
O PAQVH sobe dos 23,18 € para os 31,27 €.

