A luz ao fundo do túnel do mercado acionista

O índice S&P 500 atingiu o seu máximo histórico no dia 4 de janeiro de 2022…

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…quando a maior preocupação dos investidores tinha a ver com uma subida da taxa de inflação para cerca de 5% e a assumpção, por parte dos bancos centrais, de que não seria tão temporária como se pensava à partida.

Depois começaram a rufar os tambores de guerra, com a Rússia a alinhar militares junto à fronteira com a Ucrânia. A maioria dos analistas – eu inclusive – pensava que se tratava apenas de mais uma ameaça que não seria concretizada e foi com surpresa que, no dia 24 de fevereiro, assistimos pela televisão à invasão da Ucrânia.

O acontecimento foi e continua a ser deplorável, atroz e injusto a todos os níveis, especialmente humanitário.

No que concerne exclusivamente ao mercado de ações, nesse dia, 24 de fevereiro, só vendi uma ação, uma biotecnológica francesa, por motivos que nada tinham a ver com a guerra.

Depois houve uma boa recuperação até ao final de março, altura em que se iniciou uma nova derrocada.

A descida do último mês e meio não terá tanto a ver com o peso económico da região diretamente afetada pela guerra e as sanções (Ucrânia, Rússia e Bielorrússia), que pesam menos de 2% no PIB da economia mundial, sendo que a cada ano que passa o mundo cresce mais, em termos económicos, que 2%.

O problema, para os investidores, são os efeitos indiretos da guerra, nomeadamente uma pressão ainda maior sobre os preços de certas matérias primas (os principais, neste contexto, são o petróleo e o gás) e o efeito consequente na subida da taxa de inflação, que nos Estados Unidos, em abril, atingiu os 8,3% e na Zona Euro os 7,5%.

Com a inflação nestes níveis é natural que os investidores tenham vendido obrigações de forma agressiva, porque estavam com um yield insuportavelmente negativo. Por exemplo, o yield das 10 year Treasury Bonds norte-americanas subiu para mais de 3%…

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…e, já que estamos em Portugal, o yield das nossas OTs a 10 anos subiu para 2,16%…

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…quando ainda há poucos meses estava negativo.

Nota: quando o preço das obrigações desce, o yield, ou juro, sobe

E desta vez o FED e o BCE em princípio não irão intervir no mercado para conter a subida de juros, comprando dívida dos Estados, porque, nos dois lados do Atlântico, uma das missões principais dos bancos centrais é combater a inflação.

De facto, como o problema do momento é a inflação demasiado alta, existe alguma pressão política para a subida de juros… e o FED já respondeu, aumentando a sua taxa diretora, a FED funds rate em 50 pontos base, para 1%, existindo a perspetiva de mais aumentos nas próximas reuniões.

As expetativas apontam para que a FED funds rate esteja nos 2% no final de 2022 e nos 3% em meados de 2023.

Esta subida de taxas de juro à partida seria entendida como uma “normalização” do ambiente macroeconómico, porém muitos investidores suspeitam, ou melhor receiam, que as taxas de juro tenham de subir muito mais para conseguirem aplacar a inflação… tipo, para 7% ou 8% e caso isso acontecesse, uma recessão económica global seria inevitável.

A questão é se esse cenário mais pessimista vai mesmo acontecer?

Ninguém sabe, mas no meu entender há duas pistas (A e B) que indicam que não vai acontecer.

A – A alta da inflação é causada por dois efeitos (1º e 2º) que podemos considerar temporários:

– Ainda existem muitas dificuldades de produção, transporte e escoamento de produtos devido às restrições pandémicas, especialmente na fábrica do mundo, a China, que mantém uma política demasiado restritiva, com confinamentos em cidades importantes como Xangai. A crise dos semicondutores, também ela temporária, é uma das causas das subidas de preços;

– A guerra na Ucrânia, que fez aumentar os preços do barril de petróleo e do gás natural. Vendo os gráficos, verifico que, desde o dia 23 de fevereiro (antes da invasão), o barril de Brent subiu 10,7%…

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…e o preço do gás subiu 39%:

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Quer as restrições pandémicas, quer a guerra na Ucrânia, irão eventualmente terminar ou, pelo menos, diminuir de importância.

A não ser que haja uma escalada da guerra para territórios vizinhos e lançamento de bombas atómicas… aí é o fim do mundo, nesse caso nem vale a pena pensar nas ações, só em construir bunkers e armazenar latas de comida para cinco anos. Excluímos esse cenário apocalíptico.

B – O sentimento dos consumidores, empresários e investidores é profundamente negativo, o que deverá impedir a subida de salários e consequente formação de uma espiral inflacionista. É um paradoxo, mas é no pessimismo que está a salvação para a crise atual.

A inflação é naturalmente medida através do índice de preços no consumidor (IPC), que vai subindo todos os anos, umas vezes mais (como agora), outras vezes menos. É bastante raro o IPC descer (deflação).

Ora, o IPC agora deu um grande salto e, como me dizia um construtor há uns dias, “os preços nunca mais vão voltar ao que eram”. Nisso concordo, mas não é um nível de preços elevado que gera inflação, mas a continuação dessa subida de preços para níveis ainda mais elevados!

Ou seja, após uma forte subida de preços (8,3% nos Estados Unidos e 7,5% na Zona Euro, como vimos), causada principalmente pelos dois fatores temporários mencionados, quanto é que os preços vão subir no próximo ano?

Outra vez 8%? É pouco provável, porque já estão muito altos e o pessimismo reinante impede que os salários acompanhem a escalada de preços, pelo que está a haver um abrandamento da procura que, no final das contas, irá contribuir para uma baixa da inflação, a chamada “desinflação”, nos próximos anos.

Imaginem que a inflação em 2023 não é 8%, mas 4%, ou mesmo 2%?

Nesse caso o nível de taxas de juro praticado pelos bancos centrais não iria além dos 2% ou 3% e o yield das obrigações dos Estados também ficaria mais ou menos onde está atualmente.

Haveria – quer dizer, já está a haver – um forte abrandamento macroeconómico, uma estabilização e depois um regresso ao crescimento, partindo de uma situação global, mais especificamente ao nível da inflação e taxas de juro, absolutamente normal.

Conclusão

Ninguém sabe o que vai acontecer – e eu ainda menos – mas queria dar-vos conta que existe esta luz ao fundo do túnel na situação macroeconómica atual e é essa luz que pode estabilizar o mercado de ações e eventualmente fazer regressar o bull market.

No e-mail que enviei ontem demonstrei que os 26 bear markets que aconteceram nos últimos 100 anos tiveram uma duração média, top to bottom, de 285 dias, ou seja, se o bear market atual tivesse essa duração, terminaria no dia 16 de outubro de 2022.

É possível que acabe mais cedo… e as subidas regressem antes do que muitos imaginam!

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César Borja

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