10 coisas que Warren Buffett e Charlie Munger disseram na reunião da Berkshire Hathaway 2021

As reuniões anuais de accionistas da Berkshire Hathaway, em Omaha, Nebraska, eram consideradas o “Woodstock do Capitalismo”, onde milhares de pessoas se juntavam para ouvir o velhinho Warren Buffett a falar sobre os seus negócios, sobre o mercado bolsista, sobre economia, entre outros temas:

Devido à pandemia, as reuniões passaram a ser online. Agora são apenas dois velhinhos, negacionistas da comida saudável, a comer torrões Peanut Brittle e a beber Coca-Cola. Quer-se dizer… afinal é New Coke, o fracasso dos anos 80 ou a “nova fórmula da Coca-Cola“:

Como Warren Buffett vai fazer 91 anos e Charlie Munger, seu sócio, fez 97 anos em Janeiro, a reunião deste ano contou com a presença do vice-presidente de operações de negócios não relacionados com seguros, Greg Abel (58 anos), e o vice-presidente de operações de seguros, Ajit Jain (69 anos). Mas os dois velhinhos davam bem conta do recado.

Tal como no ano passado, a transmissão foi realizada pela Yahoo Finance, e dura quase 6 HORAS!!! No ano passado ainda fiz a maratona, mas este ano foi impossível. Felizmente, a Yahoo Finance dividiu a conferência por tópicos, numa playlist

… a que fui assistindo nas últimas semanas. Deixo aqui um resumo das 10 coisas mais importantes (ou das mais importantes) que Warren Buffett e Charlie Munger disseram na reunião da Berkshire Hathaway, o conglomerado (já analisado por mim no Borja on Stocks)…

… que detém a totalidade (controlo) de empresas como a Geico, Dairy Queen, Duracell, Helzberg Diamonds…

… além de participações em empresas cotadas em Bolsa como a Kraft Heinz Company, The Coca-Cola Company, Apple, American Express, entre outras:

Berkshire Hathaway Annual Shareholders Meeting 2021:

#1 – Liderança americana no mercado mundial de acções

Um dos pressupostos de investimento de Warren Buffett é a confiança no capitalismo e no poder dos Estados Unidos da América como líder económico mundial. Ele apontou o facto de 5 das 6 primeiras maiores empresas do mundo serem americanas…

… mas também avisou os investidores para não serem totalmente complacentes, pois a economia de um país ou a actividade de uma empresa pode mudar rapidamente, destacando como exemplo a lista das maiores empresas à data de 1989, onde o Japão era líder:

Hoje, nenhuma destas empresas se encontra presente entre as 20 maiores do mundo.

#2 – S&P 500 vs Berkshire (Buffett e Munger entram em desacordo)

Na carta anual aos accionistas da Berkshire Hathaway, divulgada em Março de 2013, ele deixou claro qual o investimento que indicou para o administrador do dinheiro da sua esposa (se ele vier a falecer): 90% dos recursos num fundo de índice que replique o S&P 500 (as 500 maiores empresas da Bolsa americana), com custos muito baixos, e 10% em títulos do governo dos EUA de curto prazo (obrigações do tesouro americano). Disse ele:

“Eu tenho uma boa notícia para os investidores amadores: o investidor comum não precisa dessa habilidade [de seleccionar as melhores acções]. Em geral, os negócios nos EUA têm corrido muito bem ao longo do tempo e continuarão assim (…). A meta do investidor amador não deve ser «escolher acções vencedoras» – nem ele nem seus “ajudantes” conseguirão fazê-lo – mas ao invés disso, possuir um punhado de negócios que, de maneira geral, vão sair-se bem. Um fundo de índice sobre o S&P500 pode proporcionar este objectivo (…). Seguindo estas regras, o investidor que “não sabe nada” vai diversificar e manter seu custo mínimo. Virtualmente, ele terá resultados satisfatórios”, afirma Buffett.

Na reunião de 2021 voltou a tocar nessa ideia, mas é necessário filtrar o que ele diz. Vejamos uma questão importantíssima:

Ele gere billions, não meia dúzia ou centenas de milhões, e isso torna extremamente difícil a tarefa de bater o índice. Como confessou noutra reunião:

“Se eu lidasse com pequenos montantes de capital, estaria mais inclinado a olhar para as acções clássicas de Graham (…) acções transaccionadas abaixo do seu working capital, e aí eu conseguiria uma melhor percentagem de retorno. (…) Quando se trabalha com montantes pequenos, há centenas e centenas de oportunidades, e quando se lida com grandes montantes de capital, há poucas possibilidades de investimento boas (…)”.

Os factos falam por si. Veja-se a rentabilidade que ele obteve na década de 60, a melhor de toda a sua carreira, quando não tinha de “caçar elefantes” como agora:

Uns incríveis 31,6% ao ano:

E na última década? Não tem conseguido bater o índice:

Mas Munger tem uma visão diferente, de longo prazo:

“Pessoalmente, prefiro controlar a Berkshire a controlar o mercado”…

… disse ele, argumentando que o conjunto de negócios e investimentos da Berkshire é “melhor do que a média” do mercado de acções. A meu ver, ele está a indicar, de forma subjacente, a necessidade de descontar a onda de optimismo da última década (10 anos não é muito tempo, no mercado de acções). Eu considero que Munger tem razão. Lembram-se do Japão e das maiores empresas do mundo em 1989? Olhem para o índice… 32 anos depois, ainda não superou a máxima de 1989:

Muito cuidado com o investimento em fundos de índice!

#3 – Berkshire prevê “inflação substancial”

“Estamos a assistir a uma inflação muito substancial” no negócio da construção residencial e de moradias manufacturadas, afirmou Buffett. Já há muito que, tanto Buffett como Munger, têm apontado para o perigo da política expansionista do FED, que pode sair fora do controlo e gerar hiperinflação. É um perigo real! Mas há uma solução: no longo prazo, o investimento em acções é um dos melhores antídotos contra a inflação.

#4 – O que pensa Munger sobre a Bitcoin

Charlie Munger não perde uma oportunidade para exercitar a sua ácida ironia e frontalidade. Na reunião voltou a tocar a mesma tecla de há uns meses (quando chamou a Bitcoin de “veneno para ratos”):

“Não gosto de uma moeda que é tão útil para sequestradores e criminosos”

“Acho que todo o seu desenvolvimento é repugnante e contrário aos interesses da civilização.”

Buffett também é um forte crítico, mas nesta reunião de accionistas preferiu evitar a pergunta para não irritar os investidores da criptomoeda.

#5 – Buffet não gosta de SPACs

As empresas de aquisição de propósito específico (SPACs) estiveram na moda durante boa parte de 2020 e no início de 2021, mas Buffett expressou a sua aversão por este modelo de negócios:

“Se você colocar uma arma na minha cabeça e disser que precisa de comprar um negócio em dois anos, eu compro um”

“Essa mania não durará para sempre, mas é onde está o dinheiro agora, e Wall Street vai para onde está o dinheiro.”

#6 – Companhias aéreas e bancos

Buffett considerou a saída da Berkshire do negócio das companhias aéreas positiva para as próprias empresas, pois facilitou-lhes o apoio do Estado:

“Eles poderiam muito bem ter obtido um resultado muito diferente (…) se tivessem um accionista muito rico que detinha 8% ou 9%.”

“Não quero voltar a investir”

Relativamente aos bancos, Buffett afirmou ter reduzido a sua participação para diminuir o risco da sua carteira, mas considera que actualmente eles estão muito melhores do que em 2008:

“Os nossos bancos estão em muito melhor forma do que há 10 ou 15 anos”

#7 – Buffett lamenta ter vendido parte da participação na Apple

Nem sempre Buffett e Munger concordam entre si. Apesar de discordarem, nunca faltaram ao respeito, nunca se zangaram, nem nunca discutiram. Por exemplo, Munger não concordou com a redução da participação na Apple, e Buffett acabou por reconhecer que o seu parceiro tinha razão:

“Vendi algumas acções da Apple (…) mas isso foi um erro”

“O Charlie avisou-me…”

#8 – Charlie Munger sobre a negociação de acções de curto prazo

Um accionista perguntou se os gestores da Berkshire consideravam contratar um “quant investor” para realizar investimentos de curto prazo, ao que eles responderam:

“Nós não estamos a tentar ganhar dinheiro com a negociação de acções (…) não sabemos fazer isso e não confiamos em ninguém para o fazer por nós.”

#9 – Desprezo de Buffett por metas ambientais

Os accionistas da Berkshire Hathaway aceitam a hostilidade de Warren Buffett ao bitcoin, às SPACs e ao modelo de negócio da corretora Robinhood, mas muitos discordam da sua posição em relação às metas ambientais, sociais e de governança corporativa (ESG). Buffett e o Conselho de Administração da Berkshire opuseram-se a duas resoluções relativas às metas ambientais, e prevaleceram, mas alguns dos principais investidores da companhia, incluindo a BlackRock, a maior gestora de activos do mundo, desafiaram-no e votaram a favor das propostas. Ao que ele respondeu:

Buffett: “A maioria dos accionistas que votaram a favor dessas propostas não comprou as acções com seu próprio dinheiro, mas com dinheiro dos clientes. (…) Eu odiaria ter todos os hidrocarbonetos banidos em três anos. Não funcionaria. Esse processo terá de ser adaptado ao longo do tempo”.

Munger: “As pessoas que fazem essas perguntas pensam que sabem a resposta. Nós somos mais modestos.”

#10 – Lições do passado

Perto da conclusão das perguntas e respostas, Buffett e Munger foram questionados sobre as lições mais importantes que eles aprenderam no ano passado. Buffett brincou:

“A minha maior lição foi ouvir mais o Charlie. Ele está certo em algumas coisas nas quais eu errei.”

Munger respondeu:

“Se você não está um pouco confuso com o que está a acontecer, você não entende. Estamos numa espécie de território desconhecido.”

Mesmo assim, Buffett acrescentou:

“Coisas estranhas acontecerão no futuro, tal como aconteceram no passado”.

 

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